terça-feira, 15 de setembro de 2009

EM DEFESA DA "PEQUENA LITERATURA PARALELA"




Cervantes, no início do D. Quixote, diz-nos da sua obsessão pelo texto escrito. Obsessão tão forte que o levava a ler tudo o que lhe aparecia pela frente, até um simples papelinho caído na rua - enquanto o não lesse, não era capaz de seguir o seu caminho. Enfim, uma verdadeira doença. Eu, se não sou assim, ando por perto: não há publicidade que não leia, seja a que é metida na minha caixa de correio, seja a que é posta nos limpa-pára-brisas do carro. Tudo tem de ser lido, antes de ser metido no lixo e, às vezes, nem para o lixo vai, pois acaba por ficar "arquivado" entre as páginas de um livro, de um caderno. Ora, foi isso que hoje me aconteceu, ao folhear um livro de contos. A marcar uma página, lá estava um papelinho, no qual se anunciavam os serviços de um "Grande Astrólogo, Vidente e Confidente.", de seu nome "Mestre Bá." Nome logo seguido da sua origem: "Africano." Em letra miúda, procedia-se, de seguida, a uma informação mais completa: "Em Lisboa, encontram V. Exas, o melhor cientista que actua em Portugal e na Europa em Ciências Ocultas: com super-magias negra e branca, trata em poucos dias com eficácia qualquer que seja o seu problema. Exemplo: Amor."
Além de uma pontuação muito própria, o que me impressiona é a sua linguagem - directa, simplista, incisiva. Incisividade que se vai intensificando nas linhas seguintes: "Prenda você quem desejar e os fugitivos dos seus pares a dos seus lares voltam em poucos dias para junto. Amarre a si o seu marido ou amante; dominar e ter a seus pés quem desejar, acabam-se os problemas. Também afasta as pessoas indesejáveis."
A marca da oralidade está presente na economia das frases, das mais curtas às mais longas. O uso incorrecto de alguns infinitivos verbais reforça o sentido da mensagem, impregnando-a de uma imperatividade que não pode deixar de ter efeito naqueles a quem se destina.
Para terminar, Mestre Bá fornece a lista dos males do corpo e do espírito passíveis de tratamento. Tratamentos que poderão ser feitos presencialmente ou "à distância, com a Máxima Garantia." Na parte final do textinho, em destaque, vêm os dias e as horas dos atendimentos: todos os dias e, praticamente, a todas as horas...
Publicidade deste género funcionará mesmo? Creio que sim, pois corresponde aos anúncios que os nossos jornais de grande circulação (Diário de Notícias, Jornal de Notícias, Correio da Manhã) trazem todos os dias. Outro dos indicadores de que disponho é algum conhecimento que vou tendo de pessoas que recorrem com frequência a esses serviços. Não só na província, como nas grandes capitais (Lisboa, Porto), o que me deixa extremamente surpreendido. Surpreendido por esse mundo subterrâneo que connosco coabita e de que só temos notícia esporadicamente, nomeadamente através dos papelinhos que nos deixam nos vidros dos carros, nas caixas do correio; nos textinhos que enchem as páginas dos anúncios classificados dos nossos jornais. Algo como a ponta do "iceberg" que circula nas águas profundas da nossa sociedade. Moral da história: quem não conhece a "pequena literatura paralela", não conhece o mundo em que vive...

1 comentário:

Silvana Nunes .'. disse...

Bravo ! O texto diz tudo.
Saudações Florestais !