quarta-feira, 9 de setembro de 2009

A PROPÓSITO DO MEMORIALISMO EM PORTUGAL




Um amigo, sabendo que eu tinha sido colega de curso do José Afonso, na Universidade de Coimbra, enviou-me um livrinho intitulado “Zeca Afonso Antes do Mito”, editado pela Minerva Coimbra. Autor: António dos Santos e Silva, companheiro de muitas andanças coimbrãs do Zeca Afonso. Li a obra com prazer e algum desconforto. Com prazer porque é um texto escrito de forma fluente e ainda por mais duas ou três razões: porque insere o José Afonso na vida estudantil da Coimbra dos anos cinquenta; porque nos dá algumas pistas da sua evolução psicológica (e social); porque aponta algumas das consequências desta evolução no percurso musical do compositor-cantor. Mas também li a obra com algum desconforto porque o texto segue o modelo de muitos outros que abordam temas semelhantes: sobrevalorização do papel do narrador nas suas relações com a personagem objecto do “estudo”; recurso sistemático a episódios em que o José Afonso participou, que se situam no campo do anedotário; porque o texto está eivado de um saudosismo “romantizado” dos bons e velhos tempos em que ambos (o autor e o seu “herói”) eram jovens e idealistas.
Sempre tive uma forte predilecção pelas memórias (ou pseudomemórias) que têm como tema figuras do nosso passado e a sua inserção nos meios urbanos em que viveram (sejam eles Coimbra, Lisboa ou Porto). E sempre cheguei ao fim dessas leituras com a sensação de se ter perdido mais uma oportunidade de se incrementar um género literário tão pouco e tão mal estimado em Portugal: o memorialismo. E poucos também têm sido aqueles que se têm referido à história, às características específicas do nosso memorialismo. De entre eles, quero destacar João Palma Ferreira (autor da melhor tradução, em língua portuguesa, do “Ulisses” de James Joyce, editada pelos Livros do Brasil).
E tudo isto é de estranhar se compararmos com o que se passa em países cuja cultura e literatura mais nos têm influenciado nos últimos dois séculos: a França, a Inglaterra, os Estados Unidos. Países onde abundam livros de memórias, tanto de personagens que se celebrizaram na política, nas letras, nas artes, na vida mundana, como de outras gentes que, embora não bafejadas pela fama, quiseram deixar testemunho de si e dos homens do seu tempo.
Como não temos grandes tradições nem cultura neste domínio, creio que se impõe alguma formação ou, pelo menos, alguma informação (princípios básicos, regras principais) para uso dos escreventes que se aventurem neste género literário.

2 comentários:

Anónimo disse...

EM BEM CONSULTEM ESTE BLOG:
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Antígona disse...

Um livro desse tipo, quer queiramos quer não, entra sempre pelos nossos sentimentos adentro. Por vezes quando lido noutras línguas e descrevendo, como descrevem, outras realidades, "soam-nos" melhor do que lidos nas nossas, realidades e língua...
Eu não li, nem conheço, essa obra, mas uma vez que o próprio autor do blog conheceu o "personagem" principal, pergunto-me até que ponto isso não influenciou a sua leitura.