Paris Nunca se acaba
Enrique Vila-Matas
Teorema
Algures no meio da leitura não pude deixar de me lembrar do filme “Meia
Noite em Paris” de Woody Allen. Um catalão em Paris acha parecer-se, sonha ser, o seu escritor
fétiche Hemingway. O narrador reproduz a experiência do próprio autor, em Paris,
igualmente na década de setenta, hospedado num esconso quarto no prédio de
Marguerite Duras.
Citando Pascal “É quase impossível fingir que se ama sem se tornar
logo em amante”.
Talvez fingindo ser escritor, escritor se torne. Talvez em Paris
esse feitiço seja possível. E assim vamos acompanhando as desventuras de quem
querendo escrever o seu primeiro livro, nos vai contando como, sentindo-se parecido
com Hemingway, tendo-o como referência desde que aos quinze anos leu um livro
dele, está em Paris onde foi pobre mas, ao contrário dele, infeliz.
A sua vida na cidade leva-nos por casas, ruas e cafés, através das
memórias que eles guardam dos escritores. O livro exige alguma cumplicidade do leitor no reconhecimento
dessas memórias, dos seus actores e da obra que produziram. Não ter esse
conhecimento não impede a leitura mas empobrece-a, naturalmente.
Todos esses passantes, escritores de maior ou menos sucesso, são
imperfeitos. De algum modo todos esperam que a cidade luz os envolva e eleve na
sua arte, na sua mais ou menos angustiada existência.
Entramos nos bares onde ele entra para estar nos lugares onde os
escritores entraram, conversaram, foram (in)felizes.
Num ”café simpático quente assado, amável” “Paris é uma Festa” mas
nem sempre, nem para todos. Apesar de haver muitas raparigas bonitas a poderem deixar
em brasa um jovem putativo escritor, um pouco idiota, a querer num café com
leite beber a inspiração de Hemingway, naquele bar do Boulevard Saint Mitchel.
Encontraremos Scott Fritzgerlad, Garcia Lorca ou Zelda, Graan
Greene...Rilke,Jules Renard… E tantos outros.
Há episódios breves que ficam na memória. Como a história de Jeanne
Hébuterne, amante de Modigliani que se suicida após a morte deste, grávida de
nove meses, deixando-se cair de costas de um quinto andar. E um dia ao passar
na rua será impossível não olharmos para cima espectando a queda de um corpo
desesperado, desamparado pela perda do seu amor.
Passamos pelo café Flore…
Encontramos Mallarmé… Quem sabe um gato.
Entramos no Café Blaisse...
Também o leitor é um pouco “flâneur” nas ruas de Paris.
Num momento apetece largar o livro e entrar no de Fritzgerald, ao
passar pelo conto “O gato à Chuva”.
Em outro acompanhamos a compra de uma mesa carcomida no Marché au Puces,
para que o narrador coloque a máquina de escrever, escreva, a sua obra: “A
asesina Ilustrada”, que se vai arrastando na busca de ideias e de regras para
o processo de escrita.
O livro de Vila-Matas é ele próprio um arrastamento. Por vezes brilha, por vezes apaga-se. Pede-nos cumplicidade. Mas não é totalmente generoso. O ritmo da escrita resulta, por vezes, um pouco frouxo. Li uma tradução. Não ficou a ganhar. O original aguarda-me algures, numa biblioteca dos nossos vizinhos, para tirar as teimas finais.
O livro de Vila-Matas é ele próprio um arrastamento. Por vezes brilha, por vezes apaga-se. Pede-nos cumplicidade. Mas não é totalmente generoso. O ritmo da escrita resulta, por vezes, um pouco frouxo. Li uma tradução. Não ficou a ganhar. O original aguarda-me algures, numa biblioteca dos nossos vizinhos, para tirar as teimas finais.
Testemunhamos a vertigem do escritor na proximidade com os seus
heróis. A admiração é algo que fica quando a realidade desconstrói o herói.
O jovem pede conselhos a Duras que lhe entrega um papel com
recomendações óbvias. Conta-nos o narrador. Será que o fez o autor? Quem sabe?
A autobiografia e a ficção confundem-se.
No dia 29 de Abril de 1970 compra papel e um envelope e escreve a mesma
carta que Rimbaud escreveu no dia 29 de Abril de 1870 a Téodhore de Banville. A carta é devolvida e acontece "uma noite à espera de Rimbaud".
Quantos seres fez Rimbaud esperar na noite, na vida? Há uma longa história de cadáveres, de literatura falhada na espera de ser Rimbaud.
Quantos seres fez Rimbaud esperar na noite, na vida? Há uma longa história de cadáveres, de literatura falhada na espera de ser Rimbaud.
Há o cinema. "O Último Tango...", "India Song", "Johnny Guittar"...
Paris pode dizer, como Vienna e Johnny: “Quantas mulheres amaste?” “Tantas quantas os homens que esqueceste.”
Paris pode dizer, como Vienna e Johnny: “Quantas mulheres amaste?” “Tantas quantas os homens que esqueceste.”
Atravessamos o momento da morte de Franco. Há uma geração que vai
partindo que fala dele. Franco é como uma grilheta. A que segue talvez pergunte um dia Franco quem? Franco porquê? Se
houver a pergunta haverá uma resposta, haverá um entendimento da História. Curiosamente
no dia em que lia a parte em que o narrador conta como festejou a falsa morte de
Franco moribundo, anunciada, por engano, por Santiago Carrilho, tinha morrido Santiago
Carrilho. O que é que isto acrescenta ao livro? Nada. Apenas serve de exemplo
de como a leitura nos devolve as leituras irónicas do mundo.
Há a deliciosa e algo trágica história de Tomás Moll. O
desperdício de uma vida é sempre uma tragédia. Embora muitas vezes a tragédia
maior de uma vida seja não ter tido tragédia alguma e passar incólume pela
vida e pelo mundo.Tomás Moll é um maiorquino sem família, herdeiro abastado, que
se auto exila em Paris, a cidade dos seus sonhos. Sonha escrever um livro que
terá como titulo “Como ser o menos possível parecido com Pio Baroja mesmo que
nos tenhamos exilado em Paris”.
Já não sabia eu porque guardava “El Arbol de la Ciência” de Baroja
lido há muitos anos. Tantas vezes me passou pelas mãos em arrumações sem que a
memória me levasse a (re)abri-lo….
Um dia Moll descobre ao ler Baroja, também em Paris esteve
exilado, que afinal gosta dele mas o seu propósito de vida continua: tudo podia
ser elegante em Paris menos parecer-se com Pio Baroja. E continua irrealisticamente a tentar a sua tarefa.
Não me interessou muito o final. Talvez porque, na realidade, o
livro tem vários finais, os de todos os que atravessam o livro, isso nos desinteressa um pouco do destino do narrador.
Os escritores já não se arrastam pelos cafés. Mas em Paris a
geografia e os cafés ainda lá estão. E quem escreve continua a cruzar-se com os
seus fantasmas em qualquer lugar onde abra os livros.
Fechado o livro regressa-se à realidade como se vindos de uma
viagem a Paris. Imagens sensações, coisas que sabemos, que sabíamos, que
ficámos a saber melhor mas não o suficiente. Coisas de que duvidamos, que
anotamos para saber mais.Lugares onde havemos de ir ou voltar.
Tal como o filme de Woody Allen talvez não uma grande obra mas atravessada
por grandes vultos e grandes ideias. Ou que assim parecem, grandes, se vistos à
luz de Paris.
“Paris é Uma Festa” e “Paris Nunca se Acaba”.
Em 1961 Hemingway cede à loucura, à incapacidade de escrever e a uma
espingarda de dois canos. Para entender tal dor e desespero é preciso um dia ter
escrito.
Acaba a vida, um dia… A dos poetas.
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