segunda-feira, 9 de março de 2009

Secreções, excreções e desatinos – O Corcunda e a Vénus de Botticelli


Rubem Fonseca é dos escritores que eu gosto, que cultivo. Com este livro a minha admiração pelo escritor aumenta e alguns preconceitos em relação a ele reduzem-se. Nesta conjunto de contos redescobri uma outra faceta de Rubem Fonseca, a de escritor que respeita profundamente as mulheres, respeita-as e ama-as ao contrário que julguei noutros livros que li do autor, revendo tudo acredito que me enganei. 
São histórias invulgares que falam essencialmente de relações amorosas, de impossibilidades e possibilidades dessas relações. As secreções e as excreções são apenas alguns dos constrangimentos dessas relações.
O Corcunda e a Vénus de Botticelli é um dos contos que podem fazer parte do tipo de histórias e ensaios já aqui apresentados noutros livros, de outros autores, lembro-me do “Como falar dos livros que não lemos”, “O último leitor”, “A louca da Casa” ou talvez “Firmin” (estou a ler). São histórias que nos fazem visitar outras história, outros livros. Que nos ajudam a sair do livro que estamos a ler (a tragédia do leitor é conseguir ler, depois, outros livros). O corcunda desta história procura, com sucesso, seduzir as mulheres. É um acto de sobrevivência, ele conquista as mulheres mais bonitas. Neste caso Agnes, uma mulher a quem ele chama de Vénus. Utiliza a literatura como ferramenta, nesta mulher a poesia. A ler esta história visitamos os poetas, mas também visitamos uma reflexão sobre poesia, assim sem pretensões e outra secreções. 
Fica aqui um pouco:
“ Estamos neste jogo há muitos dias.
Lemos um poema sobre um sujeito que pergunta se ousará comer um pêssego.
Comer pêssegos?
Faço o jogo que ela quer:
Digamos que seja sobre a velhice.
E velhos não têm coragem de comer pêssegos?
Creio que é porque os velhos usam dentadura.
Pensei que poemas sempre falassem de coisas belas ou transcendentais.
A poesia cria a transcendência.
Odeio quando você de exibe.
Não estou me exibindo. As próteses não são apenas a coisa que representam. Mas umas são mais significativas do que outras. Implantes de pénis mais do que dentaduras.
Pernas mecânicas mais que unhas postiças?
Marca-passos cardíacosnmais do que artefactos auditivos.
Seios de silicone mais do que perucas?
Isso. Mas sempre transcendendo a coisa e o sujeito, algo fora dele.
Esse implante é muito usado? O do...
Do pénis? Coloca-se na posição de um homem que faz esse implante. Veja a singeleza poética desse metafísico gesto de revolta contra o veneno do tempo, contra a solidão, a anedonia, a tristeza.
...”

2 comentários:

al disse...

olá!
não é propriamente um comentário, embora eu tb goste muito do ruben fonseca..

queria só dizer q me 'mudei'do esagbib para 'o vento q passa'.

aqui em baixo, se quiseres dar uma olhada:
http://o-vento-que-passa.blogspot.com/


bjis,
ana lima / al

Luís disse...

Eu li o livro após alguns comentários que meu professor de literatura fez em sala de aula. Achei interessante alguns contos, outros nem tanto. Sinceramente, gostei do enfoque abordado no texto que você comentou acima, mas sinceramente não me entretive com o relato sobre o corcunda e Agnes. Na minha opinião, os três melhores contos são "O Estuprador" - auge da escatologia -, "Copromancia" e "Mulheres e Homens Apaixonados".

Comentarei esse livro em breve no Blog que eu e meu colega compartilhamos.
=)