quinta-feira, 21 de maio de 2009

Beethoven era 1/16 Negro



"The past is valid only in relation to whether the present recognises it"

"Beethoven was One-Sixteenth Black"
Nadine Gordimer

Beethoven era 1/16 Negro é, segundo entendo, a mais recente colectânea de contos da escritora sul-africana, Nadine Gordimer, Prémio Nobel da Literatura de 1991. A qualidade excepcional dos contos dessa colectânea é bastante homogénea e tem como denominador comum a exploração narrativa do reflexo que os desenvovimentos históricos têm na história pessoal dos personagens e de seus antepassados. Esta interacção entre a história colectiva e a história individual é particularmente pungente num país que atravessa profundas transformações e que procura encontrar uma nova identitidade nacional num mundo onde esta marca distinta dos povos está a ser continuamente erodida pelos mecanismos da globalização e da uniformização cultural. Num país onde a atribuição de uma putativa ascendência negra para Beethoven é a fórmula encontrada pelo locutor branco da rádio para justificar a emissão das obras do compositor, em particular, os Quarteto de Cordas, no. 13, op. 130 e no. 16, opus 135. Reflexos de uma recém forjada ideologia baseada no antagonismo automático ao passado:

"Antes havia negros que queriam ser brancos.
Agora há brancos que querem ser negros.
É o mesmo segredo."


E no contexto desta complexa dinâmica, Nadine Gordimer, explora os grandes eixos existencias ao tratar de temas como os da raça, identidade, memória, amor e sexualidade, demonstrando, por vezes de forma extremamente subtil, que nunca estamos libertos do passado. E a realçar a profundidade da análise há uma escrita de grande elegância, na qual as palavras sucedem-se umas às outras com uma precisão matemática, e cujo resultado é uma mosaico particularmente rico de vivências e, acima de tudo, profundamente humano e comovente. Pois há de tudo nesta colectânea: as paradoxos intelectuais de um sonho que envolve Susan Sontag e outros artistas a conversar num restaurante chinês; um escritor, esteticamente próximo de Proust e Kafka, às voltas com um insecto (Gregor) real-imaginário no ecrã da sua máquina de escrever eléctrica; o complexo processo de adaptação por que passam os que vêm de Europa para a África do Sul contemporânea; a história das habilidades linguísticas de um papagaio que durante décadas reproduzia as disputas e conversas amorosas dos clientes em um restaurante; e por fim, três hipóteses para um epílogo envolvendo os sentidos da visão, da audição e do olfato.

Uma última reflexão. Pessoalmente, não posso evitar a associação de Nadine Gordimer com outro escritor sul-africano que eu muito aprecio e admiro, John Coetzee, Prémio Nobel de Literatura de 2003. Têm em comum a elegância, a precisão e a economia de seus estilos. Ambos exploram temas que invarialmente têm como foco as contradicções, a violência e as profundas transformações do seu país natal. Mas há, a meu ver, pelo menos uma diferença fundamental: Coetzee apresenta-nos uma visão da realidade marcadamente masculina, em perfeita complementaridade com a ultra subtil perspicácia feminina de Gordimer.


Orfeu B.


1 comentário:

portal disse...

Quando fiz meu post sobre este livro fiz a mesma associação com Coetzee, claro que não com a mesma riqueza de elementos... parabéns...