sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

A VOZ DA ÁFRICA ACTUAL


Diz-se entre os editores que os livros de contos não se vendem em Portugal. Muito poucos haverá de autores portugueses. No entanto, nos últimos meses deu à estampa um número muito significativo de livros de contos de outras literaturas. De memória cito Don DeLillo, Juan Ramon Rybeiro, Carlos Fuentes, Carson McCullers, Linda Davies.

A arte do conto é uma arte delicada e muito própria. Exige uma carpintaria cuidada, sem espaço para que a escrita se possa espraiar excessivamente, o domínio rigoroso do uso da surpresa, do desenlace eficaz e do punch final.

Jovem de 35 anos, várias vezes premiada, Chimamanda é uma bela escritora com um excelente ritmo de escrita e um universo narrativo muito próprio, que nos situa entre a Nigéria das tradições, a dos abusos, da corrupção, da violência, a de uma classe média de intelectuais e professores universitários (a que parece pertencer a autora) e a relação com a América, sonho primeiro de todos os que querem emigrar, estudar, mudar de vida.

A primeira qualidade de Chimamanda é a de agarrar o leitor com unhas e dentes. Começado a ler um conto o leitor tem dificuldade em afastar-se da sua leitura. A autora amarra-nos a partir de uma frase inicial... "A primeira vez que nos assaltaram a casa...", "Hoje vi Ikenna Okoro, um homem que julgava morto há muito.".

Depois, a autora estabelece um ambiente aparentemente normal onde vamos conhecendo uma intensa verdade interior de cada personagem (sobretudo as femininas) e um ponto de vista, um olhar sobre aquele mundo particular que muitas vezes nos surpreende até um final forte e frequentemente ambíguo de forma a deixar ao leitor a hipótese de ficcionar o depois da última frase.

Muito curiosa é a forma como mostra o contraste entre a cultura nigeriana e a americana, sem falsos preconceitos nem para um lado nem para outro, embora fique uma imagem ingénua da América, capaz de muita eficiência e pouca espessura.

Gostei muito e gostava que os meus amigos gostassem. Porque a leitura tem esta vantagem. Não carece de ciúmes. Permite e até exige partilhar os mais belos amores que cada um de nós venera.


1 comentário:

Manolo Ignacio Malpartida -manigna- disse...

Eu estou curioso com os dois ivros ("Hibisco roxo" e "Meio sol amarelo") que por aqui tem daquela escritora africana. Muito provavelmente esse livro de contos também seja editado no mercado brasileiro.

Eu ignorava de alguma edição portuguesa da obra de Julio Ramón Ribeyro; fiquei surpreso e contente que voçê faça menção dele e por que possam conhecer seus escritos, ele é um de nossos maiores escritores.

Abraço!