quinta-feira, 27 de novembro de 2008

EUDORA WELTY PARA ALÉM DOS LIMITES DA ESCRITA


Quando acontece é um milagre. E acontece nos contos de Eudora Welty (1909-2001), acontece a escrita irromper para além dos seus limites, a criar um mundo mágico de sensibilidade e inteligência, em que o indizível se faz palavra e a sua transcendência. De entre os seus contos, agora publicados em Portugal (“Os Ventos e Outros Contos”, em edição da Antígona), escolho “Os Ventos”, pela singularidade da estrutura narrativa e pela mestria no “manuseio” de um género de fronteira – a prosa poética. Prosa poética de uma mulher que, através das suas personagens, dá testemunho de si e da sua condição. Escrita no feminino, sim, mas sem concessões ao feminismo. Escrita em que coexistem várias narrativas (portanto, leituras), que se entretecem ou se autonomizam, conforme o ângulo em que se situa o leitor.
O que dito foi aplica-se integralmente ao conto citado, “Os Ventos”. Ventos trazidos pelo equinócio de fim de Verão, a anunciar a época das chuvas e a fazer oscilar a casa onde vive uma menina e a sua família. Ventos que, numa noite de tempestade e insónia, varrem o que resta do Verão e as emoções, os desejos de uma menina e lhe anunciam a entrada na adolescência.
Um livro que anuncia uma escrita nova, advento do minimalismo literário. Li e reli este livro de contos (bem traduzido, bem prefaciado por Diana Almeida) e, quanto mais o fazia, mais me interrogava sobre o paralelismo que ia encontrando entre a sua escrita e a de escritoras europeias suas contemporâneas, como Virgínia Woolf. O que me surpreendeu, dada a inserção da autora nos padrões da cultura do sul dos Estados-Unidos. Como é questão que não vi referida nos que têm analisado a sua obra, a minha dúvida subsiste: influência ou mero paralelismo cultural?
Uma última nota, para mim de grande relevância: o universo weltyano concretiza-se preferencialmente através dos seus contos, género considerado menor na época em que escreveu a maior parte desses contos. Foi preciso esperar algumas dezenas de anos para que este género literário fosse “reabilitado” e passasse a ser um “género maior”, para que se fizesse inteira justiça ao seu espólio literário.
Algum dia, o conto, a novela curta, a crónica serão considerados género maior, em Portugal? Talvez já não seja para os meus dias…




2 comentários:

Paulo Ventura disse...

Também eu li com um indizível prazer estes contos soberbos!!!!

Beverley de Graustark disse...

Este ano Virginia Woolf tornou-se domínio público, e eu fiquei imaginando quando será a vez de Eudora Welty. Mas a mulher viveu muito, até 2003. Então só em 2074!
Não estarei vivo!

Eu sinto que a escrita mais próxima da Welty é realmente a da Woolf. A Flannery O´Connor leu bastante Woolf e não tem qualquer traço disso em sua escrita. Se Eudora leu ou não, no final das contas, não tem importância né? Quantos aí lêem Woolf, Faulkner, García Márquez, e não deixam sombra da qualidade deles...

Eu amo o conto "Sem lugar para ti, meu amor", dessa compilação. Aqui no Brasil só temos dois romances dela traduzidos, mais nada. Esses dias tentei traduzir A Worn Path, o resultado está aqui:

umcaminhousado.blogspot.com

(tem o original pra comparar lá em baixo, e uma entrevista com a Eudora sobre o conto).

Bom, cheguei aqui procurando a Eudora de outros e já estou anunciando a minha Eudora! Vergonha.. kkkk

obrigado pelo texto!

Enzo