quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

O apocalipse dos trabalhadores


A história de uma mulher-a-dias de Bragança que é abusada e explorada pelo patrão e pelo marido. Ambos não acreditam na existência desta mulher, dos seus desejos, das suas vontades. Para eles ela é apenas um objecto de uso. O patrão, um senhor culto, depois do seu suicídio, vai revelar algum amor pela personagem principal, algum respeito por esta mulher que descobre afinal que este é o amor da sua vida. É interessante o padrão desta personagem, um homem abastado, culto, mas obscuro e abusador. Para que serve a cultura, para que serve tudo, se não encontramos um ponto de encontro? Como Israel, uma sociedade tão culta, tão desenvolvida e apresentam-se fazer este massacre, esta barbárie. Que contradição esta. Os judeus sempre foram homens diplomatas, inteligentes, cultos, perseguidos, atacados e massacrados. Porque fazem isto agora, por estarem em posição de poder? 

Voltando ao livro, a Maria da Graça tem como única confidente, a sua amiga Quitéria, lutadora, esperançada na felicidade. Maria da graça sonha com a sua morte, com a sua chegada à porta do céu, um lugar confuso, cheia de vendedores e de gente, que se empurra, a querer entrar nas estreitas portas, mais parece uma feira. Que fantástica esta imagem das portas do céu.

Um ucraniano que faz um percurso de humanização, que tinha perdido na saída do seu país, fez-se querer que era uma máquina, para aligeirar o seu sofrimento de ter deixado uma mãe a cuidar de do pai profundamente doente. Um cão magrinho cheio de pulgas chamado Portugal entra no meio da história, talvez para nos fazer lembrar do que se trata, afinal, esta história. No fundo este “apocalipse dos trabalhadores” é um épico do nosso Portugal, desta nossa tragédia, das nossas crenças, das novas crenças. Um Portugal presente e frágil mas cheia de heróis, de anónimos heróis. No fim há um fundo de esperança. Maria da Graça consegue morrer de amor. Quitéria vai com Andriy, à Ucrânia, revelando totalmente o seu amor por Andriy. Esta nossa esperança de encontrarmos uma ponta de felicidade dentro desta caixa de cartão, contendo este produto muito frágil que é Portugal. 

Bom ano para todos.

2 comentários:

ana lima disse...

Olá Tiago!
Eu sou a Ana Lima, colaboradora do ESAGBIB. Vim aqui dar uma olhada (já tinha visto o Geométricas, que achei muito bonito..)e .. senti-me em muito boa companhia!:-)

Ando precisamente a ler um livro do V.H.Mãe: o remorso de baltazar serapião, que não encontrei o 'apocalipse'. Gostava de trocar ideias sobre este autor que me tem trazido absolutamente fascinada. O Saramago apelidou o "remorso de B S" de tsunami, no sentido da revolução que provoca/provocará no universo da escrita literária portuguesa, e eu só posso é concordar.
Encontro em V. H. M. uns pontos de contacto com o J.L. Peixoto, sobretudo no que respeita aos cenários em que se movem os personagens, àquela estranheza/ aceitação perante uma vida que se multiplica e se clona em acontecimentos impossíveis, naquele caminhar para lugar nenhum..
Na linguagem, acho-o ainda mais ousado, mais improvável, e genial. Parecem-me os dois ir 'beber' ao Cortázar, q tb só conheci recentemente..

Então .. parabéns pelo blogue, fico à espera de uma visita (um comentário?:-)lá pelo esagbib (que tal no post do Cortázar?)
Abraço,
ana

ana lima disse...

Olá Tiago!

Obrigada pelo comentário no post do Cortázar. E lê o Rayuela, sim, está fora de tudo o que se lê por aí.. e por um homem q nasceu em 1914!!

Em relação ao que aqui deixei sb o VHM, é apenas uma leitura pessoal, pelo muito que me intriga (e me faz sentir pequena, pequena) o arsenal de recursos, o potencial criativo, a originalidade, deste escritor. Não achas, tb, aquela escrita, uma reinvenção absolutamente deslumbrante? E ñ lhe encontras um cheirinho a Mia Couto, em pequenos pormenores? O que é estranho, porque, ainda que o V Hugo Mãe tenha nascido em Angola, veio de lá muito novo..

E, sabes? Tb eu (li por aí q te acontece o mesmo:-)fico obcecada com escritores que me encantam, e leio tudo, tudo, o que apanho deles - ou sb eles. Hoje, em pesquisas sb o VHM, descobri um site oficial com uma autobiografia imprescindível, e um blogue – se calhar já conheces..
Aqui, se te apetecer ver:

http://www.valterhugomae.com/?p=27

http://casadeosso.blogspot.com/

Abraço,
até..,
ana