sexta-feira, 25 de julho de 2008

"FIRMIN" de SAM SAVAGE



“… encontrei conforto na ideia ridícula de que tinha um Destino . E comecei a viajar no espaço e no tempo, através dos livros, para o procurar.”


Firmin é o 13º filho de uma ratazana alcoólica que só tinha 12 tetas. Nasceu, tal como os irmãos no sótão de um alfarrabista. Como era o mais fraco entre todos os irmãos nunca chegava às tetas da mãe. Assim se safou do alcoolismo e, para sobreviver, começou a comer livros, tornando-se num rato culto.

Este é um ponto de partida notável. Mas há melhor.

Firmin tanto lê e vê filmes num cinema miserável de sessões contínuas, que sofre graves crises de identidade. Sonha ser Fred Astaire e hesita entre o traseiro da ratazana, sua irmã, e as “Beldades” que enchem os filmes pornográficos que vê depois da meia-noite e em que inventa uma Ginger Rodgers apaixonada por si, numa mistura delirante com referências ao “Amante de Lady Chaterly”

Firmin é um ser enternecedor na incapacidade de odiar, na vontade de amar, na vontade de entender as regras do mundo e o comportamento dos homens, ou seja, dos outros.

O romance relata a sua via num mundo que está em acelerada mutação. Podia ser a história de qualquer um de nós, com os seus sonhos, o seu desejo de amar e ser amado, a sua paixão pelos livros que o leva, inclusivamente a imaginar-se um extra-terrestre. E para acabar, qual de nós, obsessivos leitores, é que não se sentiu já um extra-terrestre nesta sociedade tão afastada das maravilhas e da excelência da grande ficção.

(O livro é a primeira obra de ficção de um professor americano universitário de Filosofia. Não existe edição em português. Há em espanhol e está à venda no El Corte Inglês)

“Ajuda muito, nas noites de solidão, poder olhar as estrelas e não ver nelas apenas umas meras escamas do céu ardente no grande Vazio, mas janelas iluminadas da nossa própria casa.”

11 comentários:

Paulo Ventura disse...

Ai, ai, a minha vida está a rornar-se complicada (mas cada vez mais interessante do ponto de vista literário): fui a correr ao corte inglês comprar o livro - pareceu-me fascinante; conto dar a minha impressão brevemente.
Paulo

Paulo Ventura disse...

Não sei o que aconteceu ao meu comentário anterior em que dava conta de ter terminado o livro e de me ter perdido de amores pelo rato Firmin. Fiquei em tal estado de Firmino-dependência e com tantas saudades dele que imprimi a capa do livro e colei-a na porta do meu gabinete de trabalho.
Se tiverem um tempinho, leiam, por favor.
Abraços
paulo

LOBO disse...

Sou radicalmente contra a nova reforma da língua portuguesa, que os magnatas do setor editorial têm articulado com tanta astúcia e argumento, e por isso magino que talvez a tradução em português de Portugal traga ainda mais poesia à beleza nostálgica de Firmin, mas também me encantei com a tradução brasileira, com desenhos do chileno (e depois nova-iorquino e, nos últimos 30 anos, catalão) Fernando Krahn. Ah, fico contente também de saber da existência deste blog. Parabéns.

Raul Oliveira disse...

saiu o livro em portugues. Comprei hoje, já na orelha percebe-se ser um ótimo texto.

A editora é Planeta.

Waldirene disse...

Terminei a leitura deste que percebi ser um livro muito mais apaixonante no que imaginei ser. Todos nós somos um pouco Firmin.

Tiago Carvalho disse...

Uma verdadeira ratazana de alfarrabista, não como os convencionais ratos de biblioteca que são bem comportados e não sonham. Esta ratazana tem todos pecados do mundo. frustrado nas tentativas de comunicar com os humanos, fantasioso e apaixonado. Existe um tempo antes de ler Firmin e o depois, nunca mais vou ser o mesmo.

Anónimo disse...

O livro é muito bom, a história fascinante, mas a edição em português possui erros de tradução e edição imperdoáveis. NAda que comprometa muito o desenvolvimento da leitura, mas são coisas que não podem existir. Dou tanto valor a esses "detalhes" que resolvi me desfazer do livro após o término da leitura. É uma pena.

Anónimo disse...

Quando pesquisava na net o nome do inventor do Firmin (o qual me tinha olvidado), deparei com este blog.
Desta feita, fiquei a ganhar duplamente: relembrei o nome do autor da ratazana do meu coração e passei a conhecer um blog que pressinto vir a integrar o meu quotidiano.
Sobre o Firmin apenas tenho a dizer que colei a sua imagem (aquela em que ele se encontra a ler 1 livro) na minha Pen. Firmin passou a fazer parte do meu quotidiano.
Diana

Anónimo disse...

Comprei o livro ontem, dia 25/11/2010, pois pareceu-me ser muito interessante e encantador. E pelo que li nos comentários anteriores é uma literatura fascinante. Assim que eu concluir a leitura, postarei aqui minhas considerações.
Parabéns pelo blog.
ass. Tutis

Mara disse...

Realmente, uma pena que a edição brasileira tenha erros, mas fazer o que, é tão comum isto que nem vale comentar.
O livro é realmente o retrato do que está em cada um de nós, ratos de bibliotecas, ávidos pelo mundo criado que por vezes nos parece muito melhor do que o real, a ponto de nos perdermos neles.
Li Firmin em dois dias, e me identifiquei totalmente com o pobre rato. Ou seria rico rato, por toda sua realidade?
Seja de que modo for, é um livro que vale a pena ser lido. Muito bom.

Moises Braun disse...

Acabo de terminar a leitura de Firmin... num dia chuvoso e úmido... o clima de impotência diante de um mundo sendo desmanchado em pequenos fragmentos, tão pequenos que não é possível nomeá-los – como descrito pelo rato no final da história – é evidente ao meu redor... a “fome de comer livros” perde força diante da fraqueza que sinto ao ver o desprezo crescente dos jovens (e de muitos não tão jovens), aqui em minha terra, o Brasil, para com a literatura daqueles que merecem ser chamados de Grandes... uma sensação ruim, de desesperança e desamparo, me oprime o estômago... Talvez, como o rato humano que sou, eu devesse passar a comer livros – literalmente. Começaria, então, com FIRMIN.
Um livro inesquecível!
Agora, quanto à tradução... será que alguém aí, de além mar, com conhecimento de causa, poderia me dizer, com total franqueza, qual a tradução com mais falhas, se a de Portugal ou a do Brasil?
Não me surpreenderei em nada se a edição brasileira for a pior. Nesta edição (Ed. Planeta) detectei alguns erros composição do texto realmente imperdoáveis (o que sinaliza certa dose de descaso), e, comparando dois parágrafos seus com uma transcrição da edição portuguesa, que encontrei na internet, achei a diferença entre os textos GRANDE demais... Então, a sirena de pânico começou a gritar, mais uma vez...
Como um desenvolvimento natural da “fome de livros” acabei por me interessar o bastante pela questão das traduções para detectar tantas inconstâncias e incongruências nas traduções que me chegam aos olhos, aqui no Brasil (quando consigo o acesso ao original inglês para confrontação) para formar a opinião de que muitas vezes as traduções no “português brasileiro” são LIVRES DEMAIS; permissivas, promíscuas, maculando o original do autor, desde a alteração do ritmo do texto com a mutilação cruel das frases, parágrafos e pontuação, até as inserções e omissões de palavras mais grotescas que chegam a alterar o sentido do discurso...
Também, o que esperar de um país onde os maiores interesses do povo são futebol, carnaval, cerveja, novelas de TV...
Moises Braun
moisesbraun.braun@gmail.com