quinta-feira, 4 de setembro de 2008

DE FLANNERY O'CONNORS À LITERATURA LIGHT




Andei algum tempo com “Um homem bom é difícil de encontrar” de Flannery O’Connors debaixo de olho. Namorámo-nos quase um ano. Tinho já lido muitos contos daquelas várias e muito interessantes contistas americanas, Dorothy Parker, Edith Warton, Katherine Mansfield. No entanto, para dizer a verdade, apesar de as apreciar imenso, nunca me senti exactamente da mesma família. Li-as, gostei e ponto final.

Não esperava ser arrebatado e, por isso, precisava de esperar pela maré certa para atacar os contos desta autora que muito me tinham elogiado.

Calhou este Agosto. E foi uma verdadeira tempestade que me abanou. Torceu. Incomodou. Deixou de rastos. A autora escreve, meu Deus, que até dói. Fala-nos de uma América rural, sulista, racista, mesquinha, obscura. E em cima desse cenário faz-nos mergulhar na cabeça de pessoas obsessivas, desconfiadas, medrosas, limitadas. Gente terrível, gente carregada daquilo de que se faz a humanidade em todas as suas vertentes. Gente sem horizontes. Encerrada numa imensa paisagem, num imenso país que parece uma grande colmeia com muitos pequenos favos completamente isolados entre si.

A narração faz-nos mergulhar num estado de espanto, por vezes com alguma ternura, muita melancolia, e momentos de pura surpresa e pavor.

A história da rapariga da perna de pau e do vendedor de Bíblias é arrasadora. Outra, de um avô que leva o neto à cidade para que ele conheça a maldade e nunca mais lá queira voltar é dos momentos em que melhor vi misturar-se a literatura e a dimensão ética das personagens.

A seguir a Flannery O’Connors, ainda sem os pés no chão, deu o acaso para me virar para o belga Eric-Emannuel Schmitt, “Odette Toulemonde – Lições de felicidade”. Também mo tinham elogiado. O título fazia-me sonhar com uma escrita ligeira e histórias felizes. A capa é divertida. Havia ali talvez uma promessa de ambiente Monsieur Hulot, quem sabe…

O problema é que não foi nada disso que encontrei. Ou melhor, foi exactamente isso que encontrei, isso e nada mais. E o que me veio à boca foi: isto é light! Disse-o várias vezes enquanto levava o livro até ao fim. Light, light, light!

Mas, afinal, o que é uma escrita light? E é esse é um desafio que proponho como reflexão aos caros amigos e comparsas desta aventura e também aos que nos visitam. O que é ser light?

Light será ser previsível e linear como sinto que é este livro correcto, bem escrito e provavelmente bem intencionado de E-E. S.? Light será contar histórias “reais”, histórias que podiam ser assim mesmo, histórias que já ouvimos contar tantas vezes no autocarro ou no café, histórias que servem para construir os enredos das vulgares novelas televisivas?

Lembro-me da frase do Semprún que diz que a realidade só interessa à polícia. A literatura está para lá disso. Ou melhor, a grande literatura situa-se noutro patamar se bem que faça da realidade o seu barro primeiro.

A verdade é que ainda estou debaixo daquela tempestade que a escritora americana provocou em mim, não uma tempestade real, mas uma tempestade parecida com as que Turner pintava em que ele construía uma distância em relação ao retrato do real para nos situar no grande espectáculo da arte.

Será que tive o azar de ler estes dois livros nesta ordem. E se tivesse sido ao contrário, se tivesse começado pelo Schmitt? Teria sentido o mesmo?

A sensação que tenho é de que o que há em O’Connors que não há em Schmitt é um trabalho profundamente elaborado sobre a linguagem e sobre a forma de narrar. Será esta a diferença entre grande literatura e literatura light? A diferença está lá, nos livros, ou nos meus olhos de leitor? Pode ser definida? Quantificada? Poderemos dizer: este aqui é mais light, estoutro é menos light?

A ler Flannery O’Connors lembrei-me por vezes de outro grande contista que me foi apontado pelo Albano Estrela: o Givanni Papini. Havemos de falar dele. Esse também pertence às grandes estrelas obscuras e descobri que há uns 40/50 anos foi muito publicado em Portugal. Vale mesmo muito a pena.



6 comentários:

Vera Vê disse...

Já que foi feito um convite aos participanbtes neste blog, deixo aqui a minha opinião, que vale o que vale: literatura light, a meu ver, são os textos de ficção escritos sem arte. Neles abundam as banalidades e, como foi dito e muito bem, as personagens parecem ter conversas de café, de todos so dias. No entanto, um escritor com algum calibre poderá escrever um excelente livro, tratando de temas tão banais como o amor, o ciúme ou a frustração.Os livros light são aqueles que não nos fazem pensar. São descartáveis - das nossas mãos e da nossa memória - sem acrescentarem nada ao nosso universo imaginário ou à nossa sensibilidade.Apesar disso, penso que merecem um lugar nas estantes, assim como a música, que nos serve de forma mais erudita ou simplista, servindo os diferentes estados de espírito.

Rita Carrapato disse...

Num primeiro instante eu diria que um livro light é um bom livro.
Light aparece-nos, vulgarmente, associado ao consumo de produtos de reduzidas calorias, na mira de uma mudança, de uma maior beleza física ou de uma melhor saúde física.
Fazendo o paralelismo com a literatura, e ainda num 1.º arremesso de pensamento, literatura light poderia ser aquela que se “consome” na mira de uma mudança espiritual, de uma mudança dentro de nós.
Mas, por outro lado, light implica a redução de calorias nos produtos, deixando-os mais pobres. E aos livros não se podem retirar “calorias”, sob pena de ficarem muito estéreis no verdadeiro sentido que deve ter a literatura.
Contudo, temos de encontrar nas estantes livros light, “única forma de literatura” acessível a muitos.
E há que haver literatura não light para os que gostam de ter umas “calorias a mais”, para os que gostam de se sentir incomodados, para os que gostam de ficar com “mossas” lá dentro, para os que gostam de se deleitar em profundas reflexões depois dos dedos descansarem fora das páginas dos livros.
Opinião de quem lê light e não light.


Rita Carrapato

Rita Carrapato disse...

Acrescento ainda, depois de ter pegado em Lugares Comuns e depois de ter lido “ O casal da mesa do lado não tocou nas palavras durante o pequeno almoço. Cumpriu-o indiferente sem incomodar o silêncio, sem ter provado sequer uma curta vez que fosse do dissabor das palavras. O casal da mesa do lado já deve ter dito tudo” que para mim, leitora vulgar, isto não é light, (incomodou-me, deixou-me a pensar, assustou-me) sê-lo-á para outros, certamente.

Rita

Tiago Carvalho disse...

Daniel Pennac tem um livro "A Vendedora de Prosa" que aborda esse universo da literatura light, que por vezes não é inconsciente e apresenta um fundamento ideológico intencional. Caracterizava-se pelo género de história simplista onde um homem pobre que lutava e trabalhava muito para no final ser rico e feliz. Muito semelhante a essa mensagem muito vinculada nas telenovelas onde aparece sempre um homem rico muito bom que ajuda os pobrezinhos que são trabalhadores e onde tudo acaba muito bem com os bons felizes e os maus castigados. Neste livro Daniel Pennac caracterizava esta ideologia literária ou pseudo-literária de capitalista ou neo-liberal.
No entanto é muito difícil identificar a linha que separa entre a literatura light e a literatura mais abundante de conteúdo. Só sei que há livros que me entusiasmam muito. É o caso do livro que estou a ler de Albano Estrela uma série de contos "O Enterro do Conde de Orgaz - Sete histórias em desassossego" que está muito longe de ser uma literatura light, são contos formidavelmente bem escritos e que mostram um certo sentido de humor do seu autor.

JOSÉ FANHA disse...

Estou preocupado. Desconfio que o meu comentário possa passar por elitista. E acho que não é. Procuro sinceramente entender os textos que leio e entendê-lo num círculo maior que esta blog permite.

Vejamos...

Quando digo light não falo da leitura nem é sobre o leitor que pretendo fazer cair o labelo. Nem talvez sobre o escritor embora saibamos que alguns escritores apenas pretendem produzir um objecto sem alma, apenas com conta bancária (conheço alguns assim).

Não vamos falar desses porque não merecem.

Falemos deste. Ou melhor, da sua narrativa. Da escrita. Aí é que me parece que reside aquilo a que chamo light. A forma como se conta uma história, fazendo-nos apenas sobrevoar ou, então, mergulhar nas águas fundas da matéria de é feito o seu discorrer.

Não creio que este autor seja propriamente um escritor light. Mas este livro parece-me escrito de forma light. Como a Rita muito bem diz, light é menos. Menos calorias. E foi isso que senti nesta leitura.

Repare-se nesta frase:

“… perante aquela vénus negra de corpo perfeito fizera questão de se mostrar bom amante..."

São frases como esta que me fizeram parar na palavra light.

Há pouco li a “Seda” de Baricco e lembro-me da carta final em que uma descrição erótica é tratada de forma magnífica e delicadíssima. Uma descrição no oposto da grosseira simplificação do light.

Algumas das histórias deste livro até são curiosas. Divertidas. Bem intencionadas. Doces.

No entanto, as personagens são traçadas por fora, sem espessura, através de adjectivos banais. Isto é, há momentos em que esta escrita se aproxima da linguagem rápida da publicidade, apelando a modelos simplistas e pobres de belo, elegante, erótico. A escrita deixa-nos fechados num voo pequenino da nossa imaginação.

E é pena porque há personagens que prometiam. Odette Toulemonde poderia ser uma personagem extraordinária. É pobre, viúva e generosa. Cose plumas nos fatos das grandes vedetas. Tínhamos aqui tanto pano para mangas! Tanta pluma para mangas… Tanto para passear pelos sonhos de Odette, pela sua prometida grandeza humana…

Quando a escrita se torna óbvia não deixa espaço para que o leitor construa o seu próprio livro nos interstícios da leitura.

Cito outro livro de leitura recente: “O primeiro amor”, pequena novela exemplar, simples até onde o quisermos, complexa até onde o desejarmos, do russo Ivan Turguéniev.

É um quase nada mas tão bem escrito que nos faz pensar, sonhar, lembrar, refazer um bocadinho do próprio livro da nossa vida.

Beijos e abraços,

Caçadora de Emoções disse...

José Fanha,
Com o seu texto de "resposta", o comentário que tinha pensado deixar aqui perdeu o significado. Gostei em especial deste "Post". Lançou uma espécie de desafio estimulante aos participantes neste Blog. Fomentou o diálogo e a comunicação entre quem escreve e quem lê.
Fico a aguardar mais ideias deste género.

Um abraço :)