domingo, 18 de julho de 2010

ENTRE O PASSADO E O FUTURO



O meu amigo Mário de Carvalho, o excelente escritor, dizia numa entrevista à revista LER que hoje em dia diminuiu muito o interesse pela escrita e pela leitura dos romances de ficção científica porque nós já estamos a viver no futuro.

Eu diria de outra forma. Já temos à mão de semear computadores, telemóveis, nets, DVDs, câmaras de vídeo, multi-mensagens, enfim, toda uma parafernália que era o material de que se serviam os escritores da ficção científica.

Não estou convencido que estamos no futuro mas num presente sem aparente caminho à nossa frente.

Deixámos de ser capazes de criar utopias, deixámos de ser capazes inventar o futuro. Não temos futuro e relacionamo-nos pouco com o passado. Passeamos por centros comerciais, todos iguais. Comemos fast food. Vestimos roupas iguais a toda a gente, convencidos de que somos muito diferentes e muito senhores das nossas escolhas. Estamos de facto presos no presente.

Este romance delicioso de Ignácio Martinez de Pisón é primo (digo eu) daquela série "Conta-me como foi". Traz-nos cheiros, ambientes, sons de um tempo que se não foi o nosso, foi-nos tangente e lemos como se o pudéssemos por uma vez habitar.

E traz-nos o grande prazer de ler. Escrita rápida, curta, incisiva, clara e límpida. E a voz de uma pequena narradora a caminhar para a adolescência, olhando o mundo a partir dos seus desejos e sonhos, da sua ingenuidade, da sua imensa seriedade de criança.

A história é a da menina que se confronta com a pobreza na Espanha franquista dos anos 60/70, com os sonhos de brilhos e luxos com que convive brevemente através de uma tia que lhe traz tanto de deslumbre como de inquietação.

A história é também a da relação àspera da mãe com todos, marido, irmã, filho e filha. Empregada de limpeza, mulher naufragada, entregue à sua condição de quase miséria sem aceitar a revolta política do marido que é preso e finge que não perdeu o emprego para que ela não o critique ainda mais.

História do ódio de uma menina pela mãe e da sua redenção.

Tudo isto numa Vila Operária dda Catalunha, nas ruas de Madrid, nos Hoteis do Estoril.

Um passado, que sem o ser, também é nosso. E é bom visitá-lo. para sabermos melhor de onde vimos e para onde vamos.

terça-feira, 13 de julho de 2010

QUE COISA É LER?




Muitas vrezes pergunto-me que coisa é ler. Porque quando falamos de ler, falamos de coisas muito diferentes

Há leituras leves, distraídas, leituras que se podem dreixar a meio, esquecer e repegar quase sem reatar o fio umbilical que liga o leitor ao livro. Leituras que nos devolvem a brisa ligeira do quotidiano, leituras que não nos questionam, nem inquietam, não nos apaixonam nem nos fazem tremer.

Outras há que nos exigem uma entrega intensa, uma atenção cuidadosa, uma adesão visceral, que nos acendem o fogo da dúvida, o negrume do pavor, o deslumbre da maravilha.

São escritas muito diferentes que solicitam leituras e, porventura, leitores muito diferentes, e entre os seus extremos haverá toda uma série de variantes que vão do mais denso e absorvente ao mais ligeiro e evanescentes.

"SANTA MARIA DO CIRCO" exige uma leitura intensa. David Toscana exige-o. O meu amigo Marcelo, editor responsável por esta notável colecção da OFICINA DO LIVRO dedicada à divulgação de grandes escritores latino-americanos contemporâneos, já tinha proporcionado a leitura entusiástica de "ÚLTIMO LEITOR" do mesmo autor, que era também um livro desenhado numa escrita poderosa, densa, intensa e apaixonante.

O novo livro de David Toscana conta-nos uma história metafórica sobre a condição humana, constituída por um tapete de pequenas histórias e sonhos pessoais, diálogos, monólogos, que nos surpreendem permanentemente e se sucedem numa multiplicidade de olhares como se de uma obra musical de contraponto se tratasse.

A uma aldeia abandonada no deserto que só tem uma igreja vazia, meia dúzia de casas desoladas, uma sanita de porcelana e a estátua de um heroi no meio da praça.

Chegam alguns miseráveis artistas que decidiram abandonar o circo e começar uma vida estável. Para se instalarem na aldeia entendem que cada um deve exercer uma profissão. Para tanto resolvem tirar as profissões à sorte. E há uma jornalista, um militar, o anão a quem cabe ser padre, a Barbarela, a mulher barbuda, calha ser médica, a Hércules, a prostituta, a Flexor, calha ser o preto, porque todas as aldeias têm um preto.

Cada um veste com mais ou menos convicção o seu papel de uma forma onírica, delirante, perversa, terna. Vão constatando a sua incapacidade de sobreviver, o que se torna mais evidente com a chegada do dono do circo que volta a contratar alguns deles e segue rumo à próxima povoação onde o circo vai apresentar o seu espectáculo.

Ficamos com o gosto amargo deste mundo-circo onde muitas utopias se esboroam amargamente na areia do deserto.

domingo, 4 de julho de 2010

O GATO DE UPPSALA



Há livros de que começamos a gostar antes de começar a lê-los.

Li excelentes referências críticas a este livro. Pensei que Cristina Carvalho era uma jovem e prometedora escritora. Coloquei o livro na lista das urgências não excessivamente urgentes.

Conheci a Cristina na Literatura Em Viagem, esse magnífico encontro de literatura na Biblioteca de Matosinhos, organizado pelo Francisco Guedes. Descobri que eu e a Cristina somos da mesma idade. Mais ainda. Que ela é filha de um dos poetas que mais me marcou a mim e à minha geração. Nada menos que António Gedeão. Ficámos logo amigos. Aliás, já éramos amigos há 40 anos segundo a Cristina, só não nos conhecíamos pessoalmente.

Peguei no livro e fiquei rendido à primeira página. A prosa simples e doce conduz-nos por uma história delicada e encantadora que nos faz viver o ambiente alegre de uma primavera sueca no séc. XVII.

Elvis, um jovem à procura de noiva, parte da sua terra no Norte da Suécia e vai encontrar Agnetta em Uppsala.

Para obter o consentimento do pai dela, necessário ao noivado, tem de passar uma prova terrível: enfrentar um urso na floresta. E Elvis mergulha na floresta e infrenta um urso talvez apenas em sonhos, mas, mesmo assim, conquista o direito ao namoro com a bela Agnetta.

Acompanhados pelo gato que se chama Gato e do qual nunca se separarão, partem a pé para Estocolmo para assistir ao lançamento ao mar do famoso Vassa, o maior navio de guerra construído até então.

O livro anuncia na capa que se trata de uma história maravilhosa para todas as idades. É verdade. Qualquer um, tenha que idade tiver, deixa-se encantar com a simplicidade feliz desta história. E nós precisamos e muito de histórias felizes para que a vida faça um pouco mais de sentido.

Diz a Cristuina a certo passo: "... umas vezes o tempo caminha, outras vezes o tempo dança, outras vezes o tempo cansa, outras vezes o tempo pisa, calca, amolga..."

O tempo de leitura deste romance é um tempo que dança. E isso é talvez o melhor que se possa dizer da leitura de um livro.

terça-feira, 22 de junho de 2010

O TEMPO A ESCORRER ENTRE OS DEDOS



A ecrita da minha amiga Filomena Marona Beja é construída como um painel de azulejos que vai crescendo numa multiplicidade de apontamentos, pinceladas, breves retratos, avanços e recuos, frases e momentos suspensos no ar, acontecimentos entrevistos numa espiral que nos guia através de vários pontos de vista para o centro da narrativa.

Na sua escrita a Filomena põe o tempo a escorrer por entre os dedos. É assim em "As cidadãs", "A duração dos crepúsculos" ou nesse excelente "A cova do lagarto" que venceu o prémio de romance da APE em 2007 (os romances dela que li).

A autora trabalha extensamente a matéria do tempo em que situa as suas ficções. Trabalha-o por dentro, de uma forma tão cuidadosa que nos faz sentir por dentro a respiração desse tempo que porventura apenas conhecemos de uma certa forma de frieza característica dos manuais de História.

Este "Bute daí, Zé" li-o com paixão. Porque o tempo deste livro é o tempo da minha vida. E das minhas paixões. Frequentei grupos de jovens nalgumas coisas semelhantes ao grupo em que se envolvem os principais personagens deste romance. Passei por algumas inquietações aqui retratadas.

Momentos da leitura houve em que me identifiquei muito com a narrativa. Também eu sonhei assim, reagi assim, fiz aqueles disparates. Páginas à frente já achava que aquela narrativa estava errada, não era assim o que a minha memória me conta desse tempo.

É o problema do romance histórico sobre uma História que ainda se pode escrever com o próprio sangue e memória do leitor.

Intensamente voei neste romance e, ao chegar ao fim, pareceu-me que o grande personagem do romance é o próprio tempo. Esse tempo fantástico que agradeço ter vivido como jovem anti-fascista a rebentar de raiva nos últimos anos do Estado Novo e a voar em sonhos loucos e utopias desmedidas nos anos de fogo da revolução de 25 de Abril de 1974.

Um tempo que desaguou numa ressaca que nos deixou um sarro muito azedo na boca. E é já nesse outro tempo fosco da ressaca e melancolia que se deu o trágico acontecimento sobre o qual a Filomena construiu o seu romance: o assassinato de um militante de extrema-esquerda por um skin no final dos anos 80.

Não sei se a Filomena, neste seu romance, teve a explícita intenção de deixar as personagens resguardadas na sombra da voragem das suas própias acções.

Sei que a princípio, na primeira metade do romance, os personagens confundiram-se-me como se pertencessem a um mesmo corpo. Como se os seus papeis pudessem ser desempenhados alternadamente por um e outro. Como se todos fossem apenas facetas de um mesmo tempo.

É a fase do imediatamente antes e do imediatamente depois da revolução. Talvez esse tempo fosse demasiado vivo e as pessoas que o habitavam se dissolvessem nele e, só mais tarde, no tempo cinzento do desencanto começassem a reconhecer a sua própria individualidade.

Talvez tudo isto venha dos cenários onde dança a minha memória, que se confronta e se interroga com as memórias que fazem a matéria deste romance.

Mas os livros servem justamente para cada um construir e reconstruir o romance da sua própria vida, não é?

sábado, 19 de junho de 2010

Até sempre!




Correram assim os rios, quatro estações pontuais por ano, que essas estão certas, mesmo variando. A grande paciência do tempo, e outra, não menor, do dinheiro, que, tirante o homem, é a mais constante de todas as medidas, mesmo como as estações variando. De cada vez, sabemos, foi o homem comprado e vendido.

Levantado do Chão


Ricardo Reis sentiu humedecerem-se-lhe os olhos, ainda há quem diga mal dos médicos, que por estarem acostumados a ver doenças e infelicidaddes levam empedernidos os corações, veja-se este que desmente a asserção, talvez por ser poeta, embora de espécie céptica, como se tem visto.

O Ano da Morte de Ricardo Reis


... e dos países do Norte navios inteiros carregados de tabuado para andaimes, telheiros e casas de acomodação, e cordas e amarras para os cabrestantes e roldanas, e do Brasil pranchas de angelim incontáveis, para as portas, e janelas do convento, para o solho das celas, dormitórios, refeitório e mais dependências, incluindo as grades dos espulgadoiros, por ser incorrompível, madeira, não como este rachante pinho português, que só serve para ferver as panelas e sentar-se nele gente de pouco peso e aliviada de algibeiras.


Tudo no mundo está dando respostas, o que demora é o tempo das perguntas.

Memorial do Convento


Então a Península Ibérica moveu-se um pouco mais, um metro, dois metros, a experimentar a força.

A Jangada de Pedra


Mas primeiro é preciso limpar esta cidade dos ímpios católicos e dos luteranos rebeldes.

A mim anabaptistas! Juntai na praça quantos, papistas ou protestantes, recusaram o baptismo novo, expulsemo-los como a cães danados.

Antes que a ira de Deus desça do céu e os queime a todos, e também a nós por nos mostrarmos compassivos e tolerantes.

In Nomine Dei


Se cumprires bem o teu papel, isto é, o papel que te reservei no meu plano, estou certíssimo de que em pouco mais de meia dúzia de séculos, embora tendo que lutar, eu e tu, com muitas contrariedades, passarei de deus dos hebreus a deus dos que chamaremos católicos, à grega, E qual foi o papel que me destinaste no teu plano, O de mártir, meu filho, o de vítima, que é o que há de melhor para fazer espalhar uma crença e afervorar uma fé.

O Evangelho segundo Jesus Cristo


A distribuição das tarefas pelo conjunto dos funcionários satisfaz uma regra simples, a de que os elementos de cada categoria têm o dever de executar todo o trabalho que lhe seja possível, de modo que só uma mínima parte dele tenha que passar à categoria seguinte.

Todos os Nomes


Se tivesses descido comigo compreenderias, ..., Não é fácil deixar-se de ideias depois de ter visto o que eu vi, Que viu, quem são essas pessoas, Essas pessoas somos nós, ...

A Caverna


..., mas naquele momento foi tão intensa a sua impressão de solidão, tão insuportável, que lhe paraceu que só poderia ser mitigada na estranha sede com que o cão lhe bebia as lágrimas.

Ensaio sobre a Cegueira


A comunicação foi breve, Fala o presidente da mesa da assembleia de voto número quatorze, estou muito preocupado, algo francamente estranho está a acontecer aqui, até este momento não apareceu um único eleitor a votar ...

Ensaio sobre a Lucidez


No dia seguinte ninguém morreu. O facto, por absolutamente contrário às normas da vida, causou nos espíritos uma perturbação enorme ...

As Intermitências da Morte


... a única decisão séria que será necessário tomar no que respeita ao conhecimento da História, é se devemos ensiná-la de trás para diante ou, segundo a minha opinião, de diante para trás ...

O Homem Duplicado


Têm toda a razão os cépticos quando afirmam que a história da humanidade é uma interminável sucessão de ocasiões perdidas. Felizmente, graças à inesgotável generosidade da imaginação, cá vamos suprindo as faltas, preenchendo as lacunas o melhor que se pode, rompendo as passagens em becos sem saída e que sem saída irão continuar, inventando chaves para abrir portas orfãs de fechaduras ou que nunca a tiveram.

A Viagem do Elefante


Desesperado, o pobre homem tentou, sem resultado, tragar o bocado da maçã que o delatava, mas a voz não lhe saiu, nem para trás nem para diante. Responde, tornou a voz colérica do senhor, ao mesmo tempo que brandia ameaçadoramente o ceptro. Fazendo das tripas coração, consciente do feio que era pôr as culpas em outrem, adão disse, A mulher que tu me deste para viver comigo é que me deu do fruto dessa árvore e eu comi.

Caim


Compensação

Caminho de palavras vou abrindo,
Ao coração das coisas apontando.
Mas não me pesará o desencanto
Se, no ponto em que parar o meu arado,
Rombo na pedra que a morte houver lançado,
Puder ainda, com os ecos deste canto,
Já no coração das coisas afastado
Mover um coração, se valho tanto.

Os Poemas Possíveis



Orfeu B.

sábado, 12 de junho de 2010

AS PERTURBAÇÕES QUE NOS CHEGAM DE ESPANHA




“Perturbaciones. Antología del relato fantástico español actual” é o título de uma obra organizada e prefaciada por Juan Jacinto Muñoz Rangel e publicada pela “Salto de Página”.
Publicação que me surpreendeu por várias razões: em primeiro lugar, pela qualidade de grande parte dos textos seleccionados; em segundo, pela quantidade de obras deste género literário editadas em Espanha; em terceiro, pela relevância que o contismo tem actualmente em Espanha, como se comprova, não só pelos numerosos prémios concedidos a este género (prémios nacionais, provinciais, locais, institucionais), como também pelo interesse que as casas editoras manifestam por livros de contos.
Antes de entrar no conteúdo da obra, propriamente dita, queria fazer uma referência ao prefácio de Muñoz Rangel. É um texto muito bem elaborado, que analisa e aprofunda o conceito de literatura fantástica, mostrando a sua especificidade em relação a outros géneros (ou subgéneros) afins, como o realismo mágico ou a literatura maravilhosa, ou, ainda, a literatura de terror (e a literatura gótica). Literatura fantástica que se distingue, também, da ciência-ficção (em português será mais correcto o termo “ficção científica”?) e da literatura surrealista propriamente dita.
Não me compete, neste escrito, desenvolver o conceito de literatura fantástica e sua distinção de géneros afins. Mas, para uma primeira abordagem, transcrevo a seguinte nota apensa ao prefácio:

É o Doutor Jekill o primeiro que se surpreende com a sua transformação em senhor Hyde, uma surpresa semelhante à das outras personagens da história que vão deparando com o insólito fenómeno; pelo contrário, Gregorio Samsa e, sobretudo, o resto da sua família encaram com uma certa naturalidade a sua (respectiva) transformação. Por outro lado, nenhum dos Buendía revela (qualquer) assombro perante os prodígios que vão acontecendo à sua volta, tal como, naturalmente, não o fazem elfos ou hobbits. E, no entanto, as duas primeiras leituras provocam nos leitores uma inquietação e uma hesitação intelectual distintas das sensações provocadas pelas obras do realismo mágico ou da literatura maravilhosa. Assim, a perplexidade existe independentemente da conduta das personagens, porque radica na concentração, na forma como se enfatizam determinadas anomalias.

O fantástico não se situa, pois, fora da realidade. Aceita-a e explora-a até aos seus limites (ou, até, para além dos seus limites). A perplexidade, a inquietação que o leitor experimenta (o leitor, note-se, não as personagens da história) decorrem da “concentração, na forma como se enfatizam determinadas anomalias ”.
No final do seu prefácio, Muñoz Rangel dá uma panorâmica dos temas abordados nesta sua obra:

Como o leitor poderá comprovar, decidido a empreender a leitura destas páginas, as temáticas do fantástico espanhol são tão amplas quanto as anomalias, lacunas e interrogações que a nossa explicação do mundo deixa por responder. Encontramos de tudo. Anomalias e perturbações para todos os gostos. Num constante braço de ferro com os limites da nossa realidade. Entrem. Entrem e leiam. Leiam sobre a morte e a vida depois da morte, os ressuscitados, os espectros, a imortalidade, o paraíso, o limbo e o inferno. Sobre Deus e o Diabo, a origem e o fim. Leiam sobre os mundos paralelos, os laços no tempo, a predestinação ou as viagens no tempo. Sobre a duplicidade, a simetria, a identidade e as conexões invisíveis. Leiam tudo sobre as interacções entre realidade e ficção, metaficção e metaliteratura. Sobre os sonhos e os pesadelos. Sobre as transformações impossíveis de homens e mulheres, de objectos e animais. Leiam acerca da pré-ciência, da telepatia, da telecinesia, e de todas as alterações das capacidades cognitivas, as da memória, as da personalidade, as da percepção. Leiam. Leiam e desfrutem o calafrio e a vertigem sentidos ao aproximarmo-nos da beira do abismo.

Ao acaso e apenas como exemplo, citarei alguns dos textos que mais me impressionaram. Textos em que a imaginação é o suporte para as construções imprevistas, que nos fazem viajar por mundos desconhecidos. Assim, em “Una cita aplazada sine die”, Luis García Jambrina fala-nos da leitura como forma – absoluta – de vida. Alguém que sente a Morte aproximar-se e lamenta que ela surja naquele momento em que ainda não tinha terminado o livro que estava a ler. O que deixa a Morte surpresa, pois não é a vida que se lamenta deixar, mas um livro, cujo desfecho ficará a desconhecer-se, assim, para todo o sempre. Esse livro e todos os outros livros da biblioteca desse leitor, que, assim, não terá tempo de ler. Livros que ele considera imprescindíveis para tudo conhecer o que à Vida e à Morte respeita. O que surpreende ainda mais a Morte e a deixa curiosa, a querer saber o que os livros dela dizem. E a fim de ficar a saber o que dela se tem escrito, a Morte adia o fim daquele leitor, com a condição de ele lhe ir lendo e contando as histórias que a ela se referem. Um conto que é um hino à leitura e ao leitor que dela faz a razão de ser da sua vida, e, assim, da lei da morte se vai libertando. Ou, porque não, uma versão moderna de “As Mil e Uma Noites”?
De Ángel Olgoso publica-se o conto intitulado “Los Palafitos”, uma história que nos fala da porosidade das fronteiras entre o mundo actual e o mundo passado. Um passeante, que deambula pela natureza, encontra um indivíduo estranho, mas amável, que o convida para a sua casa, uma construção lacustre de tempos pré-históricos, ao que ele acede, com curiosidade, espanto e prazer. História de um tempo que não se dilui no passado, mas que persiste ao longo dos tempos – o que hoje existe não anula o que já existiu. Ou seja, o tempo concebido não como uma linha recta, mas como algo circular, que nos permite voltar ao que já foi.
“Biológicas: una lectura circular” de Óscar Esquivias é um exemplo mais do fantástico que se constrói com a mesma lógica que assiste ao mundo “real”. Um jornal de província não apresenta aos seus leitores notícias “necrológicas”, mas sim “biológicas”: não noticia mortos (e respectivos elogios fúnebres dos finados), mas, sim, nascimentos e futuras carreiras dos que acabaram de vir a este mundo (carreiras fulgurantes, pejadas de êxitos e brilhantismos). O que, claro, agrada sobremaneira às famílias dos ditosos rebentos. A pergunta que o leitor poderá formular é muito simples: qual das “notícias” é mais verosímil? A da retrospecção de uma vida terminada ou a da prospecção de uma vida a despontar? Uma história deliciosa, plena de uma ironia tão subtil quão acutilante.
Que estas notas sobre os contos “perturbados” (e “perturbadores”) desta obra constitua o estímulo necessário à sua leitura, é este o meu desejo, a finalidade a que me proponho com estas linhas.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

A MÚSICA DA LÍNGUA



Há algumas semanas, no "Ypsilon", suplemento do jornal "O Público" que não dispenso, dei por uma tentativa de assassinato literário deste livro e da própria obra de Manuel Alegre. Tratava-se de uma crítica que, entre uma a cinco estrelas, atribuía um ponto negro,ou seja, um zero, a este livro.

Era óbvio que a negra classificação tinha muito de censória. Já assisti a outros actos deste tipo por parte de um ou outro crítico. Acho-os profundamente lamentáveis e entendo tratar-se de um péssimo serviço ao público, seja qual for o livro sobre o qual a ira classificativa se abata. Sempre pensei que é inútil falar mal deste ou daquele livro. Gasta-se papel e dinheiro para dar soltura à bílis e perde-se espaço para falar dos muitos autores e livros que bem pedem para ser referidos e elogiados.

É claro que este tipo de classificações cheiram sempre ajuste de contas pessoais, políticas, institucionais, etc. Mas além da classificação o que me incomodou ainda foi o argumento de que a poesia de Manuel Alegre assenta no ornamento e na decoração, dá primazia quase absoluta á musicalidade, ao ritmo e rima sobre a necessidade do sentido, características que transporta para a prosa tornando-a por vezes num "non-sense".

Nem tenho mandato do poeta Manuel Alegre para esta conversa, nem lhe sou íntimo de perto ou de longe. A minha irritação é genuína. Já ouvi velhas e relhas discussões que opunham ornamento, musicalida e rima, de um lado, e, do outro, o sagrado exercício da busca de sentido.

Esta discussão que deve muito a uma vulgata romântica, sempre me pareceu ter algo de teologia que se põe em bicos de pés na defesa paladina dos misteriosos caminhos do sentido a que só uma elite teria acesso, por oposição à música das palavras que seria coisa baça, do vulgo, da rua, do povo e das suas cantorias.

A poesia de Manuel Alegre foi um instrumento de comunhão na revolta que unia muitos jovens contra o regime salazarista durante os anos 60. E teve o notável poder de trazer a palavra literária pra a rua e para o canto.

Sem deixar de lado os magníficos poetas dos anos 50 e da Poesia 61, digo que alguma da poesia mais intensa e mais viva dos anos 60 em Portugal terá sido a de Manuel Alegre, José Afonso, António Gedeão, Manuel da Fonseca, Ary dos Santos, António Quadros (o pintor), e vários outros entre os quais Hélia Correia ou José Jorge Letria. Gente da musicalidade da língua. Gente que, na ressaca do 25 de Abril, foi excomungada, colocada fora dos cãnones e dos manuais, fora da literatura. Gente "suja", da rua, da música.

E em defesa da musicalidade da língua e da capacidade que tem de transportar sentido em si própria, basta ler alguns dos textos de Georges Steiner em que ele defende a oralidade como produtora de sentdo, ao afirmar, nomeadamente, que quando não compreende o sentido de um poema, decora-o e repete-o em voz alta tantas vezes quantas necessárias para que o sentido se lhe torne claro.

É verdade que a prosa deste "Miúdo que gostava de pregar pregos..." ´parece por vezes excessivamente circular e "martelada". Mas não podemos deixar de nos comover com a busca permanente do ritmo da terra, do corpo, da poesia e do mundo. E embora o autor vá semeando pelos seus livros episódios da sua vida repetidos uma e outra vez, a verdade é que só repete memórias quem as tem.

Além do mais, sou de opinião que o exemplo de Manuel Alegre deve ser seguido por muitos outros. Num mundo que vai perdendo a memória, precisamos de agarrar no passado e escrevê-lo à maneira de cada um, e reinventá-lo como é mister de todos os que o escrevem e reescrevem, para que um dia não acordemos apenas com bolas pretas à nossa frente.

sábado, 5 de junho de 2010

O homem que era 5ª feira.


Você tem essa ideia fixa e idiota que a anarquia virá dos pobres. Porquê? Os pobres têm sido rebeldes, mas nunca foram anarquistas, têm mais interesse que quaisquer outros na existência de Governos decentes. Quem está verdadeiramente ligado à pátria é o homem pobre ... Os pobres às vezes repontam por serem mal governados, os ricos têm repontado sempre contra qualquer governo. Os aristocratas foram sempre anarquistas ...

O homem que era 5ª feira.

Prolixo, incisivo, inquietante, irónico e cómico. A sua inteligência, os seus 1.93 m e 135 Kg. eram provavelmente intimidantes. Numa ocasião, disse ao seu amigo Bernard Shaw: "Ao olhar para si, poder-se-ia pensar que houve fome em Inglaterra". Bernard Shaw, bem conhecido pela sua argúcia, respondeu imediatamente: "Ao olhar para si, poder-se-ia pensar que foi você a causá-la". Também proverbial em Chesterton era o seu desligamento do mundo, pois em várias ocasiões chegou a telegrafar para a esposa indicando que estava em certo sítio, mas que ao lá chegar descobrira que não era este o seu destino correcto, necessitando então de indicações para onde teria que se dirigir.

O homem que era 5ª feira é possivelmente o livro mais conhecido da sua obra considerável e que compreende praticamente todos os géneros literários. Um clássico da língua inglesa do início do século XX, que mantém ainda alguma actualidade temática, mas que se destaca sobretudo pela sua originalidade linguística e plástica.

No início da segunda metade do XIX, a ordem estabelecida era ameaçada por movimentos niilistas que não viam qualquer aspecto positivo na vida e na sociedade. Movimento de cariz intelectual, ficou registado na literatura com os Pais e Filhos de Ivan Turgenev em 1862. O movimento teve também raízes filosóficas e representantes influentes como Kierkegaard e Nietzsche, e ganhou dimensões de movimento político e social, principalmente na Rússia. Depois do assassinato do Tsar Aexandre II em 1881, o movimento adquire uma dimensão europeia e passa a ser considerado inimigo declarado da sociedade moderna, dado o seu apelo à violência e à destruição da ordem burguesa. Para os niilistas e os seus descendentes ideológicos, os anarquistas, a ênfase estava necessariamente na destruição do aparelho do Estado. "O prazer de destruir é muito maior" proclamava o grande teórico do anarquismo, o russo Mikhail Bakunin, rival de Marx no controle do movimento operário no século XIX. Mas se do ponto de vista do movimento operário, a dicotomia jazia entre o socialismo estatal advogado por Marx e a ideia duma sociedade sem Estado conforme defendida por Bakunin, do ponto de vista burguês estes movimentos não eram mais do que assunto de polícia.

O homem que era 5ª feira, retrata a batalha da ordem estabelecida, representada por um jovem idealista e intelectualmente dotado, 5ª feira, enquanto infiltrado no topo hierárquico duma célula anarquista. Os seus sete membros, designados pelos dias da semana, são liderados pelo temível Domingo, a "estrela fixa do grupo", um homem com poderes intelectuais maquiavélicos, para além da sua estatura e peso descomunais.

Com destreza, inteligência e cavalheirismo, move-se 5ª feira no seio da temível organização visando evitar o próximo ataque bombista do grupo, a ter lugar em Paris. Contudo, ao longo do processo, e através de aventuras rocambolescas, descobre 5ª feira que os seus cinco colegas de célula são também polícias! Resta-lhes então desmarcar Domingo e prendê-lo pela ameaça que representa para a sociedade. Este contudo, acaba por lhes revelar que haviam todos sido recrutados por ele, que também era um influente e poderoso estratega da Scotland Yard!

E com o que ficamos? Para além do prazer da leitura da prosa elegante e irónica de Chesterton, possivelmente com a conclusão que a ordem e a sua antítese, o terrorismo, estão muito mais que dialecticamente ligados, e que podem muitas vezes se confundir no que refere às causas e aos efeitos dos males que semeiam. Para as vítimas, possivelmente não importa se o terrorismo é originado pelo estado ou pelo que se lhe opõe. Mas esta não é uma questão de todo simples.



Orfeu B.


quinta-feira, 3 de junho de 2010

TRADUZIR



O primeiro livro de poesia comprado com o meu dinheiro foi, em 1969, a "ANTOLOGIA BREVE" de Pablo Neruda, nº 2 dos notáveis Cadernos de Poesia, editados pela D. Qixote, propriedade à data de Snu Abecassis e que tinha como director literário Carlos Araújo que é hoje uma história viva da edição portuguesa e de quem sou um devotado amigo.

Tradutor: Fernando Assis Pacheco, grande poeta, neto de galegos e que dominava magnificamente o castelhano.

Neruda foi e é um dos poetas da minha vida. Li-o em castelhano e acompanho as traduções que dele se vão fazendo e, entre elas, as de Jorge de Sena, Eugénio de Andrade, José Bento, Albano Martins e agora, Nuno Júdice.

Não por acaso todos eles são poetas. E creio que para ser tradutor de poesia tem de se ser poeta, com ou sem obra própria publicada. Porque traduzir poesia é encontrar uma convergência da matéria das palavras na música de outra língua. E isso só pode ser ofício de poeta.

As traduções de Assis Pacheco tinham um sabor a mar. Sentia-se o rugir sereno da Ilha Negra. Adivinhava-se o Chile de Neruda.

Há alguns anos ouvi uma gravação de Neruda a declamar. E a sua voz trazia um som muito próximo das traduções de Assis Pacheco.

Também gosto muito da tradução que Eugénio fez de uma poema excepcional de Neruda, "Ode a Frederico garcía Lorca". A voz poética de Eugénio era muito forte. Talvez por isso ele se tenha apropriado em parte do corpo sonoro do poema. Mas manteve o delírio verbal, a cavalgada violentíssima de metáforas que Neruda derramava sobre o papel à época do livro fantástico que foi "Residência na terra".

A José Bento temos de agradecer as muitas traduções que tem feito da língua castelhana e o rigor que tem posto nesse labor. E traduzir de uma língua próxima de nós exige uma atenção especial porque essa semelhança transporta frequentes armadilhas que, com frequência, apanham o tradutor desprevenido.

Albano Martins fez alguns trabalhos de tradução de Neruda que ficarão na História, nomeadamente "Canto geral". E, entre outros, acrescento um livro de que gosto muito particularmente, "Os versos do capitão", cuja tradução brilhante não rouba um sopro à comoção com que sempre me entreguei à leitura destes poemas.

Nuno Júdice mostra uma oficina notável, um grande rigor e um cuidado muito grande para não fugir à dinâmica prosódica de Neruda.

Resumindo, pela sua beleza e pelo cuidadoso trabalho de Nuno Júdice, este é um livro excelente para quem conhece a obra de Neruda e também, muito especialmente, para quem não a conhece. Não se pode sair daqui sem querer ler mais, muito mais, deste poeta que não pára, verso a verso, de me levar a grandes alturas.

NOTAS

1. Pequena crítica. Faz falta nesta edição a identificação dos livros de onde foram seleccionados os poemas traduzidos.

2. Grande crítica O Livro intitula-se "Poemas de Amor de Pablo Neruda". A capa é muito bonita mas talvez de leitura difícil. A editora acrescentou-lhe um auto-colante que acrescenta tratar-se de "Grandes poemas de Pablo Neruda". Poderíamos ironizar à volta desta duplicação pouco elegante. Cheira a anúncio de super-mercado e não respeita a inteligência e bom gosto do leitor.

NOTA POSTERIOR

Esqueci-me do poeta Luís Pignatelli que traduziu excelentemente as maravilhosas "Odes elentares", primeira edição da D. Qixote lá pelos anos 70, ceio eu.

domingo, 30 de maio de 2010

Mário de Carvalho - A Arte de Morrer Longe



Tenho uma grande admiração pele escrita de Mário de Carvalho, principalmente porque está latente sempre um humor, uma ironia e paródia muito peculiar e extraordinária.

Neste livro Mário de Carvalho faz novamente um retrato de uma Lisboa (um Portugal) contemporâneo mas com semblantes de um mundo fechado, enfiado em si mesmo. As personagens estão extremamente bem caracterizadas, um casal em fase de separação mas impedidos de concretização por um argumento pouco importante (a tartaruga de estimação); a mãe burguesa, obtusa cheia de estereótipos; o amante da mãe, um policia oportunista; o ambiente de trabalho de Bárbara e de Arnaldo (o casal) lugares aborrecidos em que impera o oportunismo e a manipulação onde a única escapadela são as redes sociais da internet.

Devo dizer que comecei realmente desperto para a leitura, a sentir a leitura como objecto artístico, como interesse quando me apresentaram a escritor de Mário de Carvalho, foi um professor da minha escola secundária que perante o livro que eu estava a ler disse-me, “é pá! Esse livro é muito chato!” e emprestou-me “Casos do Beco das Sardinheiras”. Foi óptimo, porque eu tinha a convicção de que havia livros enfadonhos, não tinha ainda a convicção que a leitura podia ser um divertimento como foi para mim ler qualquer livro de Mário de Carvalho.

Há pouco tempo encontrei num Workshop um ilustrador Canadiano que se apaixonou por Portugal e mudou-se para cá (ainda bem porque o ilustrador é muito bom), entre as coisas que achei fantástico é que nos disse que o primeiro livro que leu em português foi exactamente “Casos do Beco das Sardinheiras”, que apresentava tudo o que lhe fez gostar de Lisboa e que depois até o ilustrou.

Os Livros de Mário de Carvalho podem ser sempre uma forma de um adolescente iniciar o prazer da leitura, podem até ser a forma de um estrangeiro se apaixonar por Portugal. Além de tudo afirmo aqui que Mário de Carvalho é um grande escritor, digo eu, que percebo pouco de Literatura e posso estar profundamente enganado. Como leigo digo-vos que este livro encantou-me e tem todos os ingredientes para nos divertir durante uma horas. O fim não conto, ficariam a saber quem morreu longe, se querem saber ponham-se a ler.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

A LEITORA REAL



A ASA teve uma excepcional colecção de livros intitulada "Colecção Pequenos Prazeres". Aí deu a conhecer em língua portuguesa alguns autores e obras de imenso relevo. Luís Sepúlveda aportou a Portugal nessa colecção. E lembro-me de outros: OLivier Rolin, Mário Aparaguín, Carlos María Dominguez, Patrick Modiano, Lars Gustafsson, Agotha Kristof... E por ali passaram muitos outros, de Graham Greene a João Aguiar, de Milan Kundera a Somerset Maugham.

Eram livrinhos simpáticos, transportáveis, fáceis de ler em qualquer sítio.

Livros dessa colecção encontram-se agora aí pelas prateleiras de pequenas livrarias mais espertas e atentas aos livros e à literatura. Ou então, nas feiras do livro a preço baixo que vão brotando por estações de metro ou de comboio.

Dessa colecção bebi avidamente muitos livros. Um deles foi "Só lhes deixaram a roupa que vestiam..." de um autor inglês, Alan Benett. Era uma delícia de ironia, humor muito inglês e arte de bem contar uma história.

Pois apareceu nas bancas há pouco tempo mais um livrinho de Alan Benett. Peguei nele e só o deixei quando acabei de o ler.

A Rainha de Inglaterra entra pela primeira vez numa biblioteca itinerante (um bibliomóvel) parado nas traseiras do palácio e sente-se na real obrigação de levar um livro para a escolha do qual pede a sugestão a um moço de cozinha que é um furiosíssimo leitor.

A partir daí a Rainha transforma-se numa leitora avassaladora. Devido a este vício ou devoção, vai-se descurando nalgumas das suas reais obrigações pra se dedicar aos encantos e inquietações que a leitura lhe proporciona.

O humoré uma constante. Senão, veja-se:

"Nessa note, ao passar pelo quarto dela, agarrado à botija de água quente, o Duque ouviu-a rir alto. Passou a cebeça pela abertura da porta: - Tudo bem, cara amiga?
- Claro. estou a ler.
- Outra vez? - E for-se embora a abanar a cabeça."

A leitura da Rainha torna-se motivo de vários aborrecimentos e confusões não só para o pessoal da Corte como para o primeiro-ministro e leva até que se pense que ela está com Alzheimer.

O próprio Presidente da França fica sem saber o que dizer quando, numa recepção oficial, a Rainha lhe pergunta a sua opinião sobre Jean Genet (escritor que ele nem conhecia).

Da leitura, a Rainha chega à escrita e conclui da necessidade de "ter uma voz". E cnclui que só se tem voz quando se escreve.

E mais não conto. Mas garanto que é de ler e chorar por mais.

terça-feira, 25 de maio de 2010

LIVROS DE QUE SE PRESCINDE, VOCÁBULOS DE QUE NÃO SE PODE PRESCINDIR





Há muito que me habituei a ler a “Babelia”, o suplemento semanal de “El País” que trata de livros e dos seus autores. E sempre o faço com gosto e algum proveito. Estão neste caso dois dos seus últimos números (948 e 953), os quais trazem vários artigos dignos de referência. Um deles, da autoria do escritor boliviano Santiago Gamboa, tem por título “Os livros que não acabei de ler” e fala-nos dos livros de que gostamos, mas que não precisamos de ler até ao fim. Após a leitura das primeiras dezenas de páginas, “sabemos” que o livro já não tem muito mais para nos dar. Livro que pomos de lado, adiando a sua conclusão para data posterior – que talvez nunca chegue.
Um outro artigo, da autoria de Emílio Llego (professor da Universidade de Zaragoza), tem por tema o envelhecimento lexical e a morte dos vocábulos considerados obsoletos e, por isso, eliminados dos diccionários. Artigo que é, em última instância, um apelo à preservação desses vocábulos, pois “os resíduos das palavras desactivadas dormitam sempre no fundo de nós”. Eliminar palavras, mesmo as que não são utilizadas na linguagem de hoje, constitui sempre o empobrecimento de uma língua e a perda de um património cultural que é parte integrante da história de uma comunidade. E não posso deixar de me lembrar dos livros de Camilo Castelo Branco, riquíssimo repositório de léxicos do passado, que transformam essas obras em algo de vivo – e eterno – livros cuja leitura eu nunca pude interromper, muito menos adiar para as calendas gregas.
Mas como os diccionários, quer queiramos quer não, vão sofrendo um empobrecimento progressivo, sou obrigado a ter na minha estante os diccionários, os vocabulários, os léxicos de outras épocas, pois só com o seu concurso é que consigo resolver alguns problemas de linguagem, nomeadamente quando, no meio da escrita, me surge um termo que “dormitava” no fundo de mim, mas cujo sentido se foi perdendo ou alterando ao longo dos tempos. Termo, construção verbal, de que não posso prescindir, pois, se o fizer, empobreço o meu pensamento, o meu sentir, em suma, a minha língua.

sábado, 15 de maio de 2010

Histórias para Contar em Noites de Luar


"Yacoub era pobre, mas despreocupado e feliz, livre como um saltimbanco, sonhando sempre cada vez mais alto. Em boa verdade, estava apaixonado pelo mundo. Porém, o mundo à sua volta parecia-lhe sombrio, brutal, seco de coração, de alma obscura, e ele sofria com isso. «Como», perguntava-se, «fazer com que seja melhor? Como trazer à bondade estes tristes que vão e vêm sem olharem para os seus semelhantes?» Ruminava estas perguntas pelas ruas de Praga, a sua cidade, vagueando e saudando as pessoas que, no entanto, não lhe respondiam.Ora, uma manhã, quando atravessava uma praça cheia de sol, teve uma ideia. «E se lhes contasse histórias?», pensou. «Assim, eu, que conheço o sabor do amor e da beleza, ajudá-los-ia certamente a encontrar a felicidade.» (O Contador de Histórias)

Não sei se o José Fanha é como o Yacoub, quando conta histórias, mas decerto que ao contá-las ajuda a encontrar esse amor e beleza.

"Histórias para Contar em Noites de Luar", é literatura para os mais novos e para os mais velhos e encanta pela magia de cada percurso, de cada enredo que nos faz viajar pelas emoções, matéria tão difícil de tratar.

sábado, 1 de maio de 2010

Um Embuste Perfeito




Mário Samigli era um literato com quase sessenta anos. O romance que publicara havia quarenta anos poder-se-ia considerar morto se neste mundo soubessem igualmente morrer as coisas que nunca chegaram a estar vivas. Desalentado e um pouco enfraquecido, Mário, por seu lado, continuou durante muitos anos a viver uma vida pachorrenta que um empregozito de poucas chatices e pequeníssimo rendimento lhe proporcionava. Uma vida assim é higiénica e torna-se ainda mais saudável se, como acontecia com Mário, é temperada por um belo sonho. Na sua idade, continuava a considerar-se destinado à glória, não por aquilo que fizera, nem por aquilo que esperava poder fazer, mas assim mesmo, porque uma grande inércia, essa que lhe impedia qualquer rebelião contra a sua sorte, o preservava do cansativo trabalho de destruir a convicção formada na sua alma há muitos anos. E isto acabava por demonstrar que até a potência do destino tem um limite. A vida tinha-lhe partido alguns ossos, mas deixara-lhe intactos os órgãos mais importantes, dos quais certamente depende a glória. Mário atravessava a sua triste vida sempre acompanhado por um sentimento de satisfação.

Italo Svevo



Italo Svevo, que literalmente significa italiano da Swabia, é o pseudónimo do homem de negócios Aron Ettore Schmitz (1861 - 1928) que viveu em Trieste e é o autor de "A Consciência de Zeno", uma obra maior da ficção do século XX. O seu estilo marcadamente confessional foi fortemente influenciado pela psicanálise de Freud. A sua singular obra, praticamente toda publicada em edições de autor, teria muito provavelmente caído no esquecimento se não fosse o esforço de James Joyce em divulgá-la. Joyce conheceu Schmitz em 1907 em Triste enquanto estudante de inglês. Lê então "Senilità" de Svevo, obra que fora publicada em 1898 e que havia sido completamente ignorada. Joyce apoia decisivamente a publicação de "A Consciência de Zeno" em França, onde o livro é acolhido com entusiasmo. Schmitz é também o modelo do judeu convertido Leopold Bloom, protagonista de o "Ulysses", a obra maior de Joyce.


Escrita em 1926, a novela "Um Embuste Perfeito" conta-nos a melancólica história dum literato que aos sessenta anos vive à espera da aclamação do seu romance de juventude, que não havia despertado qualquer reacção de público e crítica quando da sua publicação. A convicção na glória tolda completamente a razão do protagonista e leva-o a adoptar uma atitude arrogante relativamente à literatura do seu tempo. Um pretenso amigo, caixeiro-viajante de profissão, decide aproveitar a ingenuidade do protagonista e submetê-lo a um embuste. Convence-o que uma importante casa editorial de Viena estava interessada na tradução da sua obra. Vivendo entre a ilusão e a realidade, o protagonista acaba por descobrir que tudo não passava dum vil embuste, mas não antes dum irónico desenlace que lhe permite receber metade da quantia acordada no pretenso negócio com o editor austríaco devido a uma brusca variação de câmbio entre a lira e a coroa austríaca.

Uma novela de grande interesse que retrata, apesar das inevitáveis distinções de grau, o estado de espírito de todos os literatos. Há também uma moderada exaltação da literatura enquanto meio de expansão espiritual, independentemente da modéstia das condições materiais e objectivas de vida dos autores. O protagonista vive precariamente e a sua vida não se dilata para além da dependência emocional dum irmão mais velho e doente, e da compreensão benevolente do seu patrão. Esta benevolência suscita-me uma inevitável associação com o patrão Vasques do guarda-livros Bernardo Soares.


Orfeu B.


RICHARD BAUSCH, CONTISTA MAGISTRAL



Não, não me canso de ler – e de admirar – os contistas norte-americanos do nosso tempo. É o caso de Richard Bausch, romancista, novelista, contista, nascido em 1945, na Virgínia e aí residente desde sempre. Retratista de uma América profunda, Bausch é um grande contista, com uma escrita envolvente, que se situa na tradição dos contadores de histórias que fazem da sua palavra um instrumento de encantamento, de sedução.
Li e reli a tradução francesa (“L´homme qui a connu Belle Starr et autres nouvelles”, Gallimard) da sua obra “The stories of Richard Bausch”, publicada em 2003. E, uma vez mais, espantei-me como, neste mundo de globalização, esta obra ainda não seja conhecida em Portugal. Obra que consiste numa colectânea de 19 histórias, todas de estrutura perfeita, com um finíssimo sentido de humor, por vezes a resvalar para a ironia.
A história inicial, “L´homme que a connu Belle Starr”, que dá nome à tradução francesa, é um texto cheio de ritmo, que se inspira nos mitos americanos da violência e liberdade do século XX, e que têm expressão maior na saga de “Bonnie and Clyde”. Uma Bonnie e um Clyde plenos de equívoco e de loucura.
Histórias centradas na caracterização de situações em que as personagens se envolvem, a partir das quais os textos adquirem a inteligibilidade necessária ao desenvolvimento da acção, acção imbuída de um “non-sense” que tem tanto de difuso como de penetrante.
19 histórias que abordam uma multiplicidade de temas que, no seu conjunto, nos dão uma panorâmica de uma América sem valores, perdida num quotidiano sem sentido, em que as ideias feitas e os hábitos estereotipados se sucedem em ritmo impressionante. Exemplo flagrante é a história que, em francês, tem por título “Téléphone rose”, em que a perversão e o absurdo do sexo por telefone surgem com uma evidência que nos desconcerta.
Richard Bausch é um daqueles autores que organizam os seus livros segundo um esquema tradicional: a obra abre com um belo conto e fecha com outro (ou outros), igualmente de grande qualidade. “Le Guatemala” e “Le dernier jour de l´été”, os contos finais, são a expressão do que acabo de dizer. Se no primeiro avulta a crueldade subjacente a um almoço de família que se queria de paz e concórdia, já no segundo é nos dada a dificuldade de relação entre um pai e um filho, espectadores do mesmo jogo de futebol, mas separados por um fosso que não permite o entendimento entre pessoas de gerações diferentes.
Em suma, um livro magistral (construído a partir de situações vividas pela classe média americana), a atestar o virtuosismo de um dos maiores contistas dos Estados Unidos da América de finais do século XX, inícios de XXI.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

LITERATURA, AMOR, AMIZADE E GUERRA



Será muito difícil escrever a guerra para quem não a viveu directamente no campo de batalha. O medo, a morte, o cheiro, a pólvora, a relação entre os soldados, a chuva, a lama, o medo… Talvez a escrita ajude a curar a dor e a irracionalidade que todo o combatente traz agarrada à pele.

Quem viveu a guerra poderá usar a escrita como terapia, testemunho, grito… Que sei eu.

Quem não a viveu terá de fazer um trabalho de reconstituição muito cuidadoso que pode ser mais realista e descritivo ou mais vivencial, mesmo que essa vivência seja apenas ficcional.

O meu amigo Sérgio, professor de História, soube fazer muito seriamente o seu trabalho de casa. Reconstruiu cuidadosamente o ambiente que se vivia em Portugal em plena ditadura Sidonista, evitando muito avisadamente qualquer espécie de preconceito ideológico para que seja o personagem principal a confrontar-se não com a ideologia mas com o resultado da ideologia que foi o matadouro de La Lys, Verdun, etc, etc.

O Capitão Blanc é um jovem sidonista, militar de carreira, filho de outro militar de carreira, que procura cumprir com garbo e eficácia a missão de observador das acções no teatro, ou melhor dizendo, nas trincheiras da I Guerra Mundial.

Blanc mergulha nesse mundo apocalíptico e, a pouco e pouco, a partir do convívio com os soldados esgotados, revoltados e transformados quase em fantasmas, vai passando a olhar para a guerra como um jogo horrível e absurdo, um jogo de políticos e generais que, para ganhar poucas centenas de metros de lama ao inimigo, não hesitam em mandar milhares ou milhões de homens para a morte.

Blanc balança entre as memórias da infância e uma realidade assustadora e não será o mesmo homem depois de passar por um inferno cuja descrição arrasadora, circular e quase obsessiva, nos arrasta e envolve num baile negro de horror e podridão.

Mas nesse cenário terrível há ainda lugar para a humanidade e o romantismo através da amizade viril e limpa com o cabo que o conduz de moto através dos lugares da guerra, e do amor com uma enfermeira americana que se mistura na memória do capitão com a doce preceptora irlandesa da sua infância.

Blanc aproveita a sua missão para procurar alguém no meio da guerra, alguém com quem tem umas contas atrasadas para resolver. E aí, Sérgio Luís de Carvalho mostra todos os seus recursos, criando um desfecho inesperado e muito intenso para essa busca.

Conhecer os tempos da República através da literatura é um exercício muito enriquecedor. Fazê-lo através da pena do Sérgio é uma experiência excelente para conhecermos Portugal e os portugueses há pouco menos de cem anos, tão distantes e tão próximos de nós.

domingo, 11 de abril de 2010

O QUE FICA DO QUE SE LÊ?


O

Um mistério que me tem acompanhado ao longo da vida (vida comprida, de muitas dezenas de anos de leituras feitas), é o de saber o que fica (e por que fica) dos livros que tenho lido. O enredo? O estilo? O inesperado das situações? As características das personagens? É mistério que nunca consegui decifrar, o que me leva a supor que não obterei resposta se vir a questão apenas pelo lado do objecto (isto é, do texto literário) e me esquecer do sujeito (do sujeito leitor e dos seus estados de alma). Dizer que o fenómeno resulta da conjugação destas duas ordens de factores é uma “boutade” de bom senso, que nada explica. E o mistério avoluma-se quando as coisas se passam com os contos que escrevi: se há textos que me continuam presentes, outros há em que dificilmente me reconheço. Enfim, o que não tem explicação, explicado está.
Estas considerações vêm a propósito de uma obra de Lev Tolstói, que acabo de ler: “O Diabo e Outros Contos” (Relógio d’Água, 2008). Textos que eu já conhecia, em traduções (versões?) portuguesas anteriores ou em traduções francesas, mas de que tinha apenas uma pálida lembrança. Ou, para ser mais exacto, dos seis textos que constituem o livro, eu só conhecia cinco, pois havia um (“Depois do Baile”) que me era totalmente desconhecido. É um conto admirável, de equilíbrio notável entre forma e conteúdo. Um pequeno conto de nove páginas, quase exclusivamente centrado na descrição das emoções, nos sentimentos do protagonista, descrição suportada por um fio narrático extremamente subtil. Num baile de sociedade, em São Petersburgo, um jovem apaixona-se por uma beldade, com quem dança, em inebriamento de música, movimento e olhares. O estado de graça em que ele vai mergulhando atinge o seu clímax quando a jovem dança com o pai, coronel do exército do czar, oficial ainda pleno de garbosidade. É um quadro que o faz amar ainda mais a jovem, amor, admiração, que se derrama pelos que com ela estão, o pai em primeiro lugar. Um mundo perfeito que lhe é revelado.
Regressado a casa, a exaltação em que vive não o deixa dormir, o que o leva a sair, em rota de aproximação da casa da sua amada, ainda o dia está a nascer. Num descampado, surge-lhe um espectáculo surpreendente: duas filas de soldados, um rufar de tambores e um desgraçado de um tártaro-soldado fugitivo, violentamente espancado pelos seus irmãos de armas, costas em chaga viva, e que grita: “Amigos, piedade!”. Quem comanda o castigo e incita à crueldade é o coronel da paternidade. Perante esta visão, todo o emaravilhamento da noite do baile se vai esfumando e, com ele, a sua paixão. Para dar lugar a uma interrogação: o que é que ele não sabe e os outros conhecem, para considerarem normal aquele acto de selvajaria?
Interrogação para a qual não encontra resposta, mas que muda a sua vida: não ingressa no serviço militar, como tencionava, nem em nenhum outro serviço em que houvesse chefe e chefiados, pois não se sente com préstimo para coisa alguma em que a relação de violência estivesse presente.
Um texto tão inesperado, tão fora do comum, tão profundamente humano, que não posso deixar de pôr uma questão: será este um dos textos que guardarei, para todo o sempre, na caixa negra da minha memória? Ou terá o mesmo destino dos outros cinco que compõem o ramalhete do livro de Tolstói? Bem, daqui a dez ou quinze anos, se vivo ainda for, direi de minha justiça…

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Sidereus Nuncius



MENSAGEIRO
DAS ESTRELAS
que desvela espectáculos
GRANDES E IMENSAMENTE ADMIRÁVEIS,
propondo a cada um, mas sobretudo
AOS FILÓSOFOS E ASTRÓNOMOS, contemplar o que
GALILEO GALILEI,
NOBRE FLORENTINO,
professor de matemática da Universidade de Pádua,
observou com o auxílio de uma
LUNETA
por ele recentemente concebida, na FACE DA LUA,
AS INUMERÁVEIS ESTRELAS FIXAS, A VIA LÁCTEA,
NEBULOSAS
e, sobretudo,
QUATRO PLANETAS
revolvendo em torno de JÚPITER, a distâncias e
com períodos diferentes, com espantosa rapidez, os quais
ninguém até hoje divisara, e agora pela primeira vez
foram vistos pelo Autor
E POR ELE DESIGNADOS DE
ESTRELAS MEDICEIAS.

Veneza, Tommaso Baglioni, 1610



Nada menos que 400 anos de atraso. No entanto, com a devida pompa e circunstância no encerramento do Ano Internacional da Astronomia. Enfim, antes tarde do que nunca, a primeira tradução em Portugal do Sidereus Nuncius, O Mensageiro das Estrelas de Galileo Galilei. E para tal foi instrumental o Ano Internacional da Astronomia, o maior evento de divulgação científica jamais empreendido, e que por meio de centenas de milhares de actividades levou cerca de 100 milhões de pessoas a participarem em eventos educacionais e na observação do céu em 148 países.

Mas, a bem da verdade, a primeira tradução para o português é devida ao filósofo e historiador brasileiro Carlos Ziller Camemietzki, numa encomenda do Museu de Astronomia e Ciências Afins do Rio de Janeiro, em 1987. Uma edição de bolso foi relançada na primeira metade de 2009 pela revista Scientific American Brasil. Mas este detalhe não impediu a nossa comunicação social de alardear a tradução em Portugal como sendo a primeira para a língua de Camões. E infelizmente, sem qualquer reflexão histórica sobre como foi possível este esquecimento de 400 anos.

Naturalmente, não deve haver qualquer dúvida quanto a importância desta tradução (e para qualquer língua!), pois o Sidereus Nuncius, o De revolutionibus orbium coelestium (1543), Sobre a Revolução das Esferas Celestes de Copérnico, e os Philosophiæ Naturalis Principia Mathematica (1687), Princípios Matemáticos da Filosofia Natural de Newton, são os livros que desencadearam uma das mais profundas transformações da história da humanidade, a revolução científica.

Mas há que se compreender que as traduções deste livro fundamental foram sempre algo tardias dado que, apesar do impacto causado pelas 550 cópias da primeira edição Veneziana de Março de 1610, os que fundamentalmente se interessavam pela sua temática, "os filósofos e astrónomos", eram educados e escreviam sobre as suas ideias e descobertas em Latim, língua na qual praticamente todos os estudantes universitários na Europa tinham que ser proficientes, pelo menos até o final do século XVIII.

As edições imediatamente subsequentes do Sidereus Nuncius são de 1611, esta sob a forma de xilogravura, e possivelmente ilegal apareceu em Frankfurt, e de 1653 em Londres, na qual constava outras obras de Galileo. Para além do facto cultural acima mencionado, há a interdição imposta pela Igreja Católica Apostólica Romana que classificou o livro como "falso" por defender que a Terra girava em torno do Sol e colocou-o no Index dos livros proibidos em 1616, um anátema de grande peso. Assim, a primeira tradução para o francês apareceu em 1681, para o inglês em 1880 e para o alemão só em 1965!

O objecto do livro está descrito no frontespício do opúsculo de sessenta páginas reproduzido acima. Mas para além das descobertas absolutamente notáveis que são ali descritas, há a mente dum cientista em verdadeiro estado de ebulição, e acima de tudo, um princípio de acção. Isto é, uma metodologia, comummente referida como científica, que é baseada na observação dos factos e na construção de hipóteses que os explicam, podendo estas serem confirmadas ou refutadas através de observações suplementares. Foi esta a metodologia que substituiu o modo escolástico medieval de pensar, quase que completamente baseado em argumentos teóricos frequentemente infundados, pelo racionalismo moderno que molda a razão e as teorias em função dos factos e na verificação experimental de hipóteses.

Em suma, o magro livro de Galileo tem no seu seio a raiz de um dos elementos mais fecundos da civilização europeia; muito possivelmente a causa mais fundamental que propiciou à Europa a hegemonia do mundo nos séculos sucessivos. A revolução científica impulsionou não só as ciências e o pensamento, mas foi também um elemento decisivo da Revolução Industrial. Não é por acaso que o poeta místico inglês William Blake culpava Newton por todos os males que assolaram o mundo do seu tempo, e mais concretamente pela transformação do mundo rural e bucólico em um mundo urbano, mecanizado e desumanizado. Muito possivelmente, as suas convicções ficariam reforçadas se lhe fosse dada a oportunidade de vislumbrar o nosso tempo. A revolução científica transformou irreversivelmente o mundo. E curiosamente, a ciência encontra-se hoje numa posição semelhante à da Igreja Cristã no tempo de Galileo. Então, aquela instituição detinha a hegemonia do conhecimento oriundo de Jerusalém, Atenas e Roma, os focos fundadores da nossa civilização, e a sua posição determinava praticamente todas as actividades humanas na Europa, em parte da Ásia, e na Ámerica. Hoje, a ciência está na base de todas as decisões e baliza a nossa visão do mundo e do Universo (é a convicção deste autor que estamos muito melhor desta forma, apesar de todos os malefícios e perigos que hoje enfrentamos).

Assim, na opinião do presente autor, qualquer pessoa que tem a curiosidade de compreender o caminho que historicamente percorremos sairá beneficiada com a leitura deste livro de Galileo. O leitor poderá então entender como os livros deixaram de ser só veículos de ideias para se tornarem em ferramentas de transformação do mundo. E podem os leitores portugueses agora fazê-lo graças à competente tradução do historiador da ciência Henrique Leitão e à generosa edição da Fundação Calouste Gulbenkian que compreende: um elucidativo estudo introdutório devido ao tradutor; uma breve cronologia dos antecedentes e das observações que dão corpo ao livro; a tradução e valiosas notas explicativas; e a reprodução facsimilada da primeira edição de Março de 1610.


Orfeu B.



sexta-feira, 2 de abril de 2010

5 DE OUTUBRO

Estudar História é, ou devia ser também, mergulhar nas histórias de que é feita a História.

A ficção que se constrói sobre temas históricos traz-nos o cheiro de uma época, os tiques, os maneirismos, o recorte das principais figuras, as suas ansiedades e desejos, os seus amores.

A ficção não substiui mas contribui e muito para dar carne à matéria abordada pelo ensaio e pela investigação histórica.

Estamos em plenas comemorações do centenário da República. Têm sido dados à estampa alguns romances cuja acção incide directamente sobre os anos imediatamente anteriores e posteriores à implantação da República. Vale a pena visitá-los e fazer dessa visita uma forma menos pomposa mas mais apaixonante de comemorar o centenário do 5 de Outubro.

Lembro-me de alguns como "Café República" de Álvaro Guerra, "O milagre segundo Salomé" de José Rodrigues Miguéis, e mais recentemente "As Cidadãs" de Maria Filomena Beja, "O destino do Capitão Blanc" de Sérgio Luís de Carvalho, "1910" de António Trabulo e este "5 de Outubro" de Lourenço Pereira Coutinho.





O autor dá-nos neste romance um painel cheio de cor social e humana da teia fervilhante onde, entre encontros e desencontros, se faziam e desfaziam planos de muitos atentados, revoltas, compromissos políticos, conluios, conspirações que enredavam a sociedade portuguesa nos meses anteriores ao 5 de Outubro.

Por aqui se cruzam os republicanos, os monárquicos, os revolucionários, os moderados, os carbonários... A escrita ritmada e ligeira leva-nos a espreitar momentos da vida, das aspirações, dos amores de personagens tão importantes como o próprio Rei D. Manuel, José Relvas, Afonso Costa, Machado dos Santos, Paiva Couceiro...

Do Palácio das Necessidades à redacção do jornal A Lucta de Brito Camacho, do Hotel do Buçaco às barricadas da Rotunda, da casa dos Patudos em Alpiarça aos almoços no Tavares Rico e aos encontros clandestinos nos Banhos de S. Paulo, o autor passeia a nossa curiosidade por uma sociedades ligeirota e talvez pouco consistente, mas carregada de emoções excessivas.

A monarquia cai porque está pronta a cair. E cai sobretudo pela teimosia de Machado dos Santos, um visionário que na noite de 3 de Outubro, contra tudo e contra todos, entra com os seus carbonários pelo quartel de Infataria 16 e começa uma revolução em que parece que ninguém acredita a não ser ele próprio.

Em certos momentos parece ser uma revolução de opereta e nalgumas peripécias inesperadas é inevitável encontrarmos uma ou outra semelhança com a Revolução do 25 de Abril.

Quanto ao romance, deixa-se ler muito bem e isso já é dizer bastante.