terça-feira, 5 de outubro de 2010

AS MARAVILHAS DA LEITURA




Belíssimo livro de Rui Zink. Delicioso divertimento e magnífica lição sobre o que é a leitura e o amor aos livros.

Um menino embarca sem querer num navio que vai à procura de um animal fantástico, um animal leitor de que um remoto explorador deixou notícia num escrito em que por estar constipado troca na escrita (!) os emes pelos bês e, por em vez de “animal leitor” escreve “anibaleitor”.

Num naufrágio, o menino naufraga e vai ter à caverna do Anibaleitor, um imenso gorila que Lê e come seres humanos. Não como o protagonista porque precisa de alguém para falar dos livros que lê.

Os diálogos entre os dois são não divertidíssimose carregados do humor e do uso brilhante do non-sense habituais em Rui Zink. Simultaneamente são uma lição fantástica sobre a leitura que vai derrubando um a um todos os lugares comuns que se interpõem entre os jovens e a fantástica aventura que é a leitura.

Este é daqueles livros que pode e deve ser lido por todas as idades, dos 12 aos 82 anos. E todos terão motivo para um tempo útil e muito bem passado.



Por puro acaso li de seguida estes dois livros com muitos pontos de semelhança. Afonso Cruz (também magnífico ilustrador de livros para a infância) serve-se também de uma imaginação e de um humor notáveis para nos dar a história de um homem que dedica a sua vida a ler e morre com um problema cardíaco. O filho vai percorrer o caminho das leituras do pai para o encontrar.

Da Ilha do dr. Moreau de Wells, passa ao Médico e o Monstro de Stevenson, deste chega a Crime e Castigo de Dostoievsky, passa pelo Barão Trepador de Italo Calvino e pelo “Farenheit 451” de Ray Bradbury. Conversa e discute com as personagens, irrita-se com elas, vai aprendendo que a leitura nos questiona ou ilumina a vida, como acontece no caso da sua amizade pelo gordo Bombo ou no amor por Beatriz, ambos seus colegas.

Outro livro que devia ser obrigatório (se é que faz sentuido falar de livros obrigatórios…), construído com uma ironia notável e que constitui também uma magnífica lição sobre o supremo prazer da leitura.

domingo, 3 de outubro de 2010

Val McDermid - Um Eco Distante




Este é um policial absorvente, lê-se numa assentada, sem respirar. Val McDermid é uma escritora escocesa que foi jornalista, talvez por isso retracta tão bem um jornalismo mediático e sensacionalista cada vez mais comum e onde uma pessoas poderá ser acusado, nas primeiras páginas de um jornal, de um crime que não cometeu.
“Um Eco Distante” conta-nos a história de amizade de um grupo de quatro jovens universitários passado nos anos 70 numa pequena cidade Escocesa e que numa noitada de festa e de boémia encontram uma rapariga quase morta num atalho que costumavam fazer. Um dos jovens, estudante de medicina, tenta salvar a rapariga enquanto outro procura socorro de um patrulha da policia com quem tinham cruzado anteriormente. O facto dos jovens ficarem com o sangue da rapariga são levados a interrogatório policial e ficam na lista dos suspeitos, para a imprensa e consequentemente para o público são considerados culpados. Embora as relações de amizade fossem grandes, a pressão leva a quebrar alguma ligação e suspeitarem também uns dos outros. É interessante como a escritora faz-nos envolver no ambiente emotivo e psicológico de forma a nós compreendermos todas as suspeitas e todos os pontos de vista. O assassínio nunca não foi descoberto e as suspeitas irão continuam nestes quatro jovens. 25 anos mais tarde o caso é aberto pela policia local para com as novas formas de investigação forense e á luz das descobertas dobre o DNA tentarem encontrar o criminoso, no entanto, as provas desapareceram nos armazéns da policia. Surge na história um filho desconhecido da vitima muito interessado em vingar o assassinato da mãe e quem foi o assassino. Duas das testemunhas que encontraram a vitima (dois dos jovens universitários) são estranhamente e violentamente assassinados o que leva aos outros dois a procurarem saber o que aconteceu. O livro tem mais intriga, mas intriga que estimula a nossa inteligência, sensibilidade e criatividade e não a outra. Claro que o final é muito surpreendente.

Tal como Mankell e Stieg Larsson, Val McDermid dá-nos um policial intenso, dramático e emocionalmente rico. Consegue caracterizar uma imprensa muito formatada e instrumentalizada por interesses puramente economicistas. O seu valor também esta da forma como apresenta os problemas e vivencias da nossa época assim como os preconceitos e os estados de alma das personagens. Não se esquece dos pormenores e as descrições de um ambiente paisagístico da Escócia. Assim como o ambiente cultural dos anos setenta e na entrada deste século.
Alem deste livro de Val McDermid em Portugal está traduzido muitos outros que tenho como perspectiva de ler, entre eles o “O Canto das Sereias” que é considerado um excelente livro policial.
Uma série na TV “Wire in the Blood” também escrita pala autora está a ser um êxito no Reino Unido. 

sábado, 2 de outubro de 2010

GARCÍA MÁRQUEZ: AS HISTÓRIAS DO REALISMO MÁGICO



Esta crónica tem como finalidade dar notícia de uma obra de Gabriel García Marquez, “A Incrível e Triste História da Cândida Eréndira e da Sua Avó Desalmada”, publicada recentemente pela D. Quixote. Obra que agrupa seis contos e uma novela de um dos mais considerados autores da literatura da segunda metade do século XX. Textos escritos nos anos sessenta, princípios de setenta e considerados como exemplos perfeitos de uma corrente literária que se celebrizou sob a designação de realismo mágico.
Histórias em que a magia irrompe para além dos limites impostos pela realidade, aprofundando o significado dos actos mais triviais do quotidiano. O que confere um sentido simbólico à linguagem e a impregna de uma aura poética. Veja-se, como exemplo , o início do conto “A Última Viagem do Navio Fantasma”:
“Agora vão ver quem sou, disse para si mesmo, com o seu novo vozeirão de homem, muitos anos depois de ter visto pela primeira vez o transatlântico imenso, sem luzes e sem ruídos, que uma noite passou em frente da aldeia como um grande palácio desabitado, mais comprido que toda a aldeia e muito mais alto que a torre da sua igreja, e continuou a navegar no escuro até à cidade colonial fortificada contra os corsários do outro lado da baía, com o seu antigo porto negreiro e o farol giratório cujas lúgubres riscas de luz, de quinze em quinze segundos, tranfiguravam a aldeia num acampamento lunar de casas fosforecentes e ruas de desertos vulcânicos(...)”
Atente-se no caudal impetuoso da escrita, uma das características mais marcantes do realismo mágico em García Márquez. Outra das características é a temática das histórias, a assemelharem-se a lendas ou a sagas medievais, em que o Bem e o Mal , encarnados pelas personagens principais, são postos em confronto.



Mas nem todas as histórias deste livro estão subordinadas aos cânones estritos do realismo mágico. E estas, em minha opinião, não são os menos interessantes. É o caso de “Morte Constante para Além do Amor.” História que poderemos designar como se situando na fronteira do realismo mágico. Nela se relata a viagem do senador Onésimo Sánchez, em campanha eleitoral por terras de todos os compromissos, ao encontro do Amor e da Morte, que acaba por dar sentido à sua Vida, purificando-a, ao despojá-la do ruído que as vicissitudes sociais a vinham conspurcando, ao longo dos anos.
A aura poética a que me referi é um elemento central da última história ( a que dá o título à obra), transportando-a para um mundo surreal, em que o onírico ressitua personagens, conferindo-lhes uma realidade simbólica. Entre outros, veja-se o seguinte exemplo:
“ Dispunha-se a regressar à tenda quando viu Ulisses de pé, sozinho, no espaço vazio e escuro onde antes estivera a fila dos homens. Tinha uma aura irreal e parecia visível na penumbra graças ao fulgor próprio da beleza.
E tu – disse-lhe a avó - ,onde deixaste as asas?
Quem as tinha era o meu avô – respondeu Ulisses com naturalidade - , mas ninguém acredita.
A avó voltou a examiná-lo com uma atenção enfeitiçada. “Pois eu acredito, disse.”Amanhã vem com els postas”. Entrou na tenda e deixou Ulisses a arder no seu lugar”
Estamos, pois, perante uma obra situada no tempo, mas de uma força e de uma beleza que a faz ser de todos os tempos.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

A HISTÓRIA E A FICÇÃO



O meu amigo Zé Jorge Letria disse-me uma vez que a sua preocupação é ser eficaz. E ele é eficaz com muita frequência. Jornalista de origem, leitor indefectível, a sua memória e a sua organização de trabalho permitem-lhe acumular uma imensa quantidade de conhecimentos que depois articula, potencia, transporta do mera quadrícula do conhecimento para o voo da criação ficcional, dando-lhes assim uma beleza e uma eficácia que atingem frequentemente uma enorme intensidade emocional.

Fernando Pessoa adorou (talvez a palavra seja excessiva) ou admirou quase até ao limite a figura de Sidónio, a quem chamou o Presidente-Rei e em quem viu um D. Sebastião aparecido de um nevoeiro de confusão civil para salvar uma pátria exausta.

Sidónio Pais é sem dúvida uma notável figura dos anos 20 em termos nacionais e internacionais, tendo-se tornado num modelo estudado e seguido por alguns dos ditadores que estavam a nascer pela Europa sob as diversas variantes do fascismo, como foi, nomeadamente, o caso expresso de Benito Mussolini.

Idolatrado ou odiado por homens, Sidónio era amado pelas mulheres. A sua figura sofisticada, autoritária, distante, alimentava sonhos e desejos impossíveis

Curiosamente, no filme de Ettore Scola “Una giornata particolare”, a protagonista (Sofia Loren), sofrida dona de casa italiana nos anos 30, mostra igual fascínio por Mussolini de quem recorta e guarda fotografias e notícias num acto de devoção excessivo e deslocado.



O Zé Jorge cria neste romance uma voz que, caminhando para a frente e para trás no tempo, dá espessura à figura do ditador que se torna em muito mais que uma simples figura da História, um ser humano com medos, inseguranças, sonhos, desejos, um homem que sonha para si um desígnio que vai naufragar nos dois tiros com que será assassinado.

Uma promessa de tragédia envolve Sidónio como envolve a cidade num tom de desgraça e fado.

José Jorge Letria vai-nos deixando entrever a vida da Lisboa da época onde reinam miséria, violência e morte ( guerra e a epidemia da gripe “espanhola”), onde a permanente revolta das classes trabalhadoras abandonadas pelos políticos republicanos produz confrontos diários, onde a classe política se envolve num jogo decadente de conjuras e conluios, e onde, por cima da tragédia de Sidónio, se anuncia uma outra ditadura chegada do mais profundo e retrógrado soa de dentro do Portugal rural.

Que mais dizer senão que é bom visitar a História assim para melhor a sentir e respirar, ou seja, para melhor a conhecer?

domingo, 26 de setembro de 2010

Ponto Omega




The true life is not reducible to words spoken or written, not by anyone, ever. The true life takes place when we're alone, thinking, feeling, lost in memory, dreamingly self-aware, the submicroscopic moments.

...

"Haiku means nothing beyond what it is. A pond in summer, a leaf in the wind. It's human consciousness located in nature. It's the answer to everything is a set number of lines, a prescribed syllable count. I want a haiku war", he said. "I want a war in three lines. This was not a matter of force levels or logistics. What I wanted was a set of ideas linked to transient things. This is the soul of haiku. Bare everything to plain sight. See what's there. Things in war are transient. See what's there and then be prepared to watch it disappear."

...

"We're a crowd, a swarm. We think in groups, travel in armies. Armies carry the gene of self-destruction. One bomb is never enough. The blur of technology, this is where the oracles plot their wars. Because now comes introversion. Father Teilhard knew this, the omega point. The leap out of our biology. Ask yourself this question. Do we have to be human forever? Consciousness is exhausted. Back now to inorganic matter. This is what we want. We want be stones in a field."

Don Delillo

Tendo como foco o Ponto Omega do pensador e paleontólogo jesuíta Pierre Teilhard de Chardin (1881-1959), o ponto de exaustão da consciência humana, o ponto a partir do qual seguirá o paroxismo ou a sublime superação espiritual, a décima-quinta, e mais recente, novela do aclamado autor norte-americano, coloca-nos diante duma intrigante visão do mundo.

Autor de novelas e romances sobre a violência e a angústia, sobre a desumanização causada pela tecnologia e sobre a invasão da vida privada pela pseudo-cultura popular, Delillo descreve a trajectória de personagens que gravitam em torno das ideias dum pensador independente que é recrutado pelo Pentágono como consultor para conceptualizar, forjar uma visão completamente nova e encontrar o ponto central de toda a actividade bélica. Ao pensador é permitido o acesso aos documentos ao mais alto nível decisório e operacional da guerra. É-lhe permitido expandir o seu pensamento em todas as direcções, e explorar as nuances das palavras do léxico bélico.

A novela desenvolve-se no deserto da Califórnia, onde o pensador procura o silêncio e a substituição do tempo humano pelo quase inerte tempo geológico, e um cineasta procura convencê-lo a ser protagonista do seu segundo filme. Um filme sem maquilhagem, o pensador com nome próprio, a ser filmado contra uma parede marcada pelo tempo e a apresentar a sua visão de tudo, a esboçar uma biografia, a delinear uma radiografia do nosso tempo e das nossas guerras.

Não menos sugestivo é o encapsulamento da novela numa instalação que apresenta Psycho num vídeo que dura 24 horas e que é observado obsessivamente por um anónimo numa galeria em Nova Iorque. O congelamento do horror na reacção de Janet Leigh ao ataque de violência psicótica de que é vitima. Uma imagem que salta das páginas e acende a imaginação de qualquer leitor que tenha visto o filme de Hitchcock.

Uma novela rica em ideias, original e instigante. Uma excelente leitura.


Orfeu B.


RODEADO DE AMERICANO POR TODOS OS LADOS.


Começa por ser divertido, torna-se absorvente, depois inquietante, finalmente deixa muito que pensar.

Num futuro próximo, as abelhas desapareceram da face da terra.

Inesperadamente 5 jovens em 5 pontos diversos da Terra são picados por abelhas.

Cientistas vão tentar analisar cada um dos 5 jovens para saber o que é que têm de especial e em comum para terem atraído as 5 abelhas.

Depois de lhes vasculharem o corpo de uma ponta a outra, resolvem juntá-los no norte do Canadá e pô-los a contar histórias. Estranhamente as histórias parecem sair da mesma imaginação que junta violência, sexo básico, insegurança relativa ao descontrole da natureza.

Parece-me difícil fazer um resumo porque há uma catadupa de pormenores por vezes delirantes, muitas vezes sem nenhuma continuidade.

As personagens parecem de papel. E talvez de papel químico. Venham de onde vierem, Sri Lanka, Nova Zelândia, França ou dos próprios Estados Unidos, os 5 personagens centrais pensam americano, comem americano, falam americano, estão rodeadas de americano por todos os lados.

Talvez seja o tempo da globalização total. Mas são personagens de papel. Sem profundidade. Com particularidades divertidas, trejeitos delirantes, linguagem minimal.

O livro fala americano num tom pop, pós-moderno, Pulp Fiction, e fala dos receios (ou trágicas certezas) que um homem informado sente em relação ao futuro próximo de um mundo dominado pela tecnologia, pela biologia transformacional, pela palavra arrancada a qualquer possibilidade poética, pela falta da palavra amor.

Talvez esta não seja grande literatura, aquela a que gosto de chamar grande literatura, a que nos arrasa, que penetra na alma humana desde os subterrâneos às grandes alturas, a que nos deixa nus no meio do mundo ou nos faz subir ao alto das montanhas ou das catedrais,

Eu diria que por aqui não passa a literatura. Ou que por aqui não passa a humanidade. Ou que por aqui talvez passe uma tentativa desesperada de encontrar um resto de humanidade em jovens de vinte e tal anos



Numa entrevista ao Ypsilon, Douglas Coupland, autor canadiano, afirmava há poucas semanas:

“Acredito que ou temos informação ou temos uma vida, não podemos ter ambas. Por isso construo uma vida fora da inforcloud.”

E este é talvez o melhor comentário a um livro que me provocou, que me irritou, que me absorveu e que me fez reflectir muito.

domingo, 19 de setembro de 2010

MAVIS GALLANT, A TENSÃO QUE SE ESCONDE NAS PREGAS DA ESCRITA




Este texto tem como finalidade apresentar aos leitores portugueses uma contista desconhecida entre nós.
Mavis Gallant é um dos monstros sagrados da literatura canadiana, candidata permanente ao prémio Nobel. Com obra publicada em inglês, acaba de ser traduzida para espanhol (Lumen), com o título “ Los Cuentos”, uma colectânea de 35 contos, que ocupam 934 páginas, com temas variados, que incidem sobre múltiplos aspectos da vida quotidiana de diferentes grupos sociais, com predomínio da vida francesa actual (a autora reside em Paris).
Contos de construção aparentemente tradicional, apresentam peculiaridades muito próprias, como uma tensão permanente que cria uma dinâmica subterrânea que torna expectante o leitor. Outra peculiaridade é o intenso sentido visual da sua escrita. Mavis Gallant tem de “ver” para escrever. Um exemplo flagrante é o conto “Em Trânsito”, assente num conjunto de “flashes” de cariz cinematográfico, de dois casais na sala de espera de um aeroporto, a que a autora confere conteúdo novelístico. Desta sua fonte de inspiração dá noticia Mavis Gallant, no prefácio da obra, quando nos diz que “a primeira rajada de ficção chega sem palavras. Consiste numa imagem fixa, como um diapositivo, ou melhor ainda, como um instantâneo congelado que mostra personagens numa situação simples. Por exemplo, a visão de Bárbara, Alex e os seus 3 filhos descendo de um comboio no Sul da França anunciará “Sem Remissão”. A cena em questão não sai na história mas permanece como uma velha fotografia de um jornal com uma legenda em que se dão todos os nomes”
Outra técnica utilizada é o recurso a memórias (familiares, mas não só) de momentos marcantes da vida psicológica de personagens, como é o caso do ex-legionário (conto intitulado“Ernest de Campesino”), em deambulação alucinada por Paris e outros locais. Diferente mas igualmente elucidativa da variedade de recursos técnicos que Mavis Gallant mobiliza é o conto “O Verão de um Homem Solitário”, no qual se põem em confronto diversas concepções de personagens que integram a história e nos dão testemunho das suas convicções sobre a transitoriedade das relações humanas e dos laços privilegiados que juntam ou separam as pessoas.


Em última instância, poderemos dizer que estamos perante uma obra que nos apresenta um precioso conjunto de retratos psicológicos de homens e mulheres do nosso tempo, fazendo-nos reflectir sobre a nossa condição humana, enquanto seres vulneráveis porque dependentes de teias relacionais, dependência essa de que muitas vezes não temos consciência.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

"O PAI DA BRANCA DE NEVE" OU A HISTÓRIA DE UM AQUÁRIO



Incomodou-me, provocou-me, emocionou-me, fez-me pensar muito mas cerca de um terço do livro pareceu-me estar a mais. A história é curta e a escrita anda à volta e à volta, cheia de informação, de reflexão, de repetição. Mas não chega para agarrar quando a história fica a marinar.

Belén Golpegui oferece-nos quilos de informação. Sociológica, biológica, informática, política no sentido da vida colectiva dos cidadãos e não da pequena e mediática política dos partidos instituídos. Estes são os territórios grandes lutas de hoje.



Belén Golpegui não nos dá descanso. Duros, graves e muitíssimo acertados são os ataques que lança contra a sociedade ultra-liberal em que vivemos e as suas consequências na vida dos sujeitos individuais, das famílias de classe média, dos jovens, dos trabalhadores a prazo e a recibo verde, e, sobretudo dos que sonham, dos que querem justiça, dos que querem ser úteis, dos que querem amar.

Não se trata de um panfleto, no entanto. É literatura. Boa literatura que não vira as costas a uma visão pura e crua sobre a sociedade espanhola actual, parecida em muitos aspectos com a portuguesa.

Um aquário é talvez a grande metáfora do romance. Um aquário às vezes confortável mas nunca solidário. Um aquário em que todos nós vivemos isolados do sentido mais belo e puro que devia vestir a vida dos homens. O aquário onde se deixam afogar os que desistem da generosa e urgente respiração das pequenas e grandes utopias.

domingo, 12 de setembro de 2010

A VIOLÊNCIA QUE VEM DO NORTE



Mankell é obviamente uma importante fonte de inspiração para outros autores de policiais suecos e nórdicos como Jo Nesbo, Camila Lackberg ou Stieg Larsson no retrato que dão da sociedade sueca, dos seus preconceitos, dos seus crimes, da corrupção, do racismo, da solidão, da violência escondida que impregna essa sociedade.

A diferença é que Mankell é um homem que não só retrata essa sociedade através dos seus enredos policiais como a questiona. A partir de um ponto de vista ideológico e crítico Mankell abre janelas que os outros autores deixam fechadas.

Wallander, o detective de Mankell tem muito em comum com Maigret. É intuitivo, reflexivo, precisa de sentir a ”alma” dos sítios, a motivação das pessoas, o seu perfil psicológico, a que dá mais importância do que às provas materiais.

Wallander é um homem como qualquer um de nós. Tem angústias, insónias, sofre ainda pelo divórcio imposto pela ex-mulher, mantém uma relação ambígua com o pai que ficou furioso quando soube que ele queria ser polícia, preocupa-se com a filha pouco mais que adolescente que ainda não escolheu um curso ou uma profissão, mantém um namoro à distância com Baiba, uma professora universitária que vive em Riga, na Letónia.

O ritmo da narrativa é razoavelmente lento, por vezes algo repetitivo, mas muito envolvente. Nestes dois romances vamos acompanhando os preparativos dos criminosos para os seus terríveis homicídios. Mas não sabemos tudo. Só sabemos parte dos rituais dos assassinos. Só a pouco e pouco vamos conhecendo as suas motivações e obsessões.

Digamos que o percurso do leitor é paralelo ao percurso dos investigadores e penso que é aí que Mankell conquista os leitores, não tirando revelações fantásticas do chapéu de mágico, mas desenvolvendo uma arte muito própria de fazer com que a matéria dos crimes vá sendo revelada ou até partilhada degrau a degrau.



Em “A FALSA PISTA” há um momento notável em que o criminoso, um serial killer de 14 anos, cai de joelhos a chorar frente ao corpo da irmã que ele adorava e que morreu. Esgotado e carregado de humanidade, Wallander cai de joelhos a chorar ao lado dele.



Em “A QUINTA MULHER” há uma denúncia fortíssima da violência de que as mulheres são alvo na Suécia e sobre a violência latente de uma sociedade que começa a ter dificuldade em respeitar as suas instituições, nomeadamente a polícia.

A violência resulta sempre de uma sociedade incapaz de dar resposta às suas mais profundas angústias e que se confronta com uma auto-imagem de violência em que não quer reconhecer-se.

Mankell faz uma crítica severa da sociedade ultra-liberal, ainda longe da crise actual, mas já eivada de um sentido economicista em que o bem público, passo a passo, vai sendo ignorado e delapidado com as inevitáveis consequências humanas e sociais.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

O MUNDO ALUCINANTE DE REINALDO ARENAS




Foi publicada este ano a 2ª edição, revista, (D. Quixote) da obra “O Mundo Alucinante”, de Reinaldo Arenas (1943- 1990). Já conhecia outras obras deste autor cubano, mas esta tem características específicas. É um fresco baseado na vida de Frei Servando Teresa De Mier, frade domonicano que viveu nos séculos XVIII e XIX, fresco “alucinante” que se pode representar sob a forma de um grande painel cénico de vários planos sobrepostos. Planos correspondentes às cenas da vida de um frade pícaro que percorreu vários países da Europa, da América do Norte e da América Central, onde, em fuga ao braço comprido da Inquisição, lhe aconteceram múltiplas desventuras, sempre marcadas por equívocos e tragédias que não o destruiram, pois o segredo é “nunca nos darmos por derrotados.” Uma biografia romanceada que o autor considera, no que é essencial, idêntica à sua própria. Estamos, pois, perante um processo de identificação levado aos seus limites. Texto “alucinante” sob vários aspectos, nomeadamente pelo ritmo da história e pela exponenciação do sentido latente da narrativa, a sair abruptamente da descrição de uma realidade, para entrar no campo do fantástic e do onírico. Apenas um exemplo, o de uma situação em que o frade Servando perorava em latim (op. cit, p 48):
“Os noviços bombardeavam-no com velas acesas, que eram certeiras a bater no alvo. E estava no meio de uma destas capelares batalhas, quando entrou pela porta central ( de lado e a custo) o arcebispo em pessoa. Deslumbrante, de púrpura vestido, de modo que parecia uma baleia ao pôr do Sol”. (...) “E como Servando, ao mesmo tempo que seguia o fio do discurso, continuava a remeter os projécteis que lhe enviavam, um deles veio direitinho de encontro à sereníssima testa do prelado. O arcebispo olhou para o púlpito encostado ao tecto. Abriu a boca e deixou escapar um grupo de cobras. Caiu de costas como um grande sapo, flagelado pelos lançamentos do pregador” (...).
Trata-se, pois, de uma obra eivada de humor, decorrente do absurdo de situações sociais que têm tanto de terrível como de negação do que é essencial ao Homem. Tal como o herói do livro, também Reinaldo Arenas nunca se dá por derrotado nas inúmeras vicissitudes da sua vida (oposição política ao regime que havia apoiado, fuga do país...), nunca abdica do que considera ser o caminho certo que, em última instância, é o seu compromisso com a escrita. Compromisso bem expresso em obras anteriores, como é o caso de “Antes que Anoiteça” (Asa), a autobiografia da tragédia que foi a sua vida. E só quando o agravamento da doença (sida) e o sofrimento dela decorrente o impedem de escrever é que desiste da vida
Em suma, “O Mundo Alucinante” é uma obra aliciante que se pode incluir no âmbito da literatura fantástica, construída com recurso a alegorias de grande beleza literária.

sábado, 4 de setembro de 2010

SOMERESET MAUGHAM NO FIO DA NAVALHA - UM APELO




Toda a literatura vive no fio da navalha, a navalha do tempo. Lugar comum esta minha consideração, que se me impõe agora que estou a ler uma versão completa dos contos e novelas de Somerset Maugham, publicada em França, pela Omnibus. S. Maugham foi um ícone da literatura europeia durante algumas décadas do século XX. Não só pelas suas novelas como, principalmente, pelos seus romances. “Servidão Humana” e “ O Fio da Navalha” (Livros do Brasil), talvez os mais conhecidos em Portugal, exerceram uma forte influência entre os nossos escritores, nomeadamente em Joaquim Paços d’Arcos. Livros esses que eu e os da minha geração transformaram em objecto de culto, não só pela mestria da escrita mas também pelo mundo novo de valores, ideias e sentimentos que nos trouxeram.
Ora, a leitura da obra editada pela Omnibus fez-me reflectir sobre o que há de diferente neste autor da primeira metade do século passado. O estilo? Sim. O poder narrático? Evidentemente. O sentido de humor? Sem dúvida. O mistério e a aventura que se escondem nas descrições? É bem possível. E, por que não, um toque de snobismo britânico que atravessa personagens e as situações por elas vividas? Para não falar do exotismo dos ambientes em que a acção mergulha.
Obra do passado? Obviamente. Mas obra de todos os tempos , como bem compreendeu a editora francesa que se aventurou a publicar em papel bíblia uma obra de 1429 páginas.
E um apelo: para quando a edição portuguesa? Se não for viável a tradução integral das novelas, que se editem as mais longas, pois S. Maugham é fundamentalmente um romancista que precisa de espaço para a descrição de situações, ambientes, sentimentos. Por isso, talvez fosse de traduzir a novela de Mr. Ashendem, um conjunto de peripécias de um escritor inglês transformado em agente secreto durante a guerra de 14-18. O pitoresco das situações, o imprevisto da acção caracterizam com propriedade e humor os métodosde actuação dos serviços de espionagem inglesa. Aqui fica, portanto, o apelo.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Lustrum


It's like fighting the Hydra – no sooner do I lop off one head than another two grow back in its place.

Comentário de Cícero sobre seus oponentes políticos.

Na novela Império, Robert Harris descreve a ascensão de Cícero, o grande advogado e estadista romano e possivelmente o maior orador da antiguidade, à posição de Cônsul da República de Roma, cargo equivalente ao de primeiro-ministro excepto que ao longo de um único ano e exercido em meses alternados com um colega eleito. A narrativa é devida a Tiro, escravo de Cícero, mas que na verdade era seu secretário, representante e conselheiro, e que deixou o seu nome gravado na história pela invenção da taquigrafia e pela autoria duma biografia de Cícero, entretanto perdida.

No segundo livro da trilogia, Lustrum, Tiro descreve-nos as dificuldades do consulado de Cícero desde o seu discurso inaugural em 63 A.C., e as implicações da sua governação que o levaram ao exílio em 58 A.C. O título refere-se em latim, ao sacrifício expiatório oferecido a cada cinco anos. Lustrum é um livro vertiginoso, que apresenta ao leitor uma fascinante anatomia dos meandros do poder e da corrupção. Um thriller onde a inteligência e a capacidade de cálculo político de Cícero são testadas até o limite do possível, numa eloquente demonstração da precariedade e volatibilidade do exercício da política em tempos de crise. Em 63 A.C., a Republica está à véspera de aumentar consideravelmente a sua influência e riqueza, mas paradoxalmente, corre o risco real de ser dilacerada e arrastada para a ditadura pelas alianças, traições, crimes e seduções de homens imorais e inescrupulosos. O mais proeminente de todos, César, um homem cruel, maquiavélico e imprevisível, com uma ambição sem limites pelo poder. Para além de César, também: Pompeio, o maior general da república; Crasso, o homem mais rico de Roma; Cátulo, um político íntegro, mas fanático ao ponto da inconsequência, e na prática um aliado dos inimigos de Cícero; Catalina, um sociopata obcecado pela riqueza e pelo exercício da corrupção; e Clodius, um jovem ambicioso, adulador e traiçoeiro. Lustrum retrata de forma épica a luta desigual destes homens contra o íntegro, embora complexo e não completamente imaculado, Cícero, cuja ambição era deixar o seu nome gravado na História da República.

Lustrum é um livro que propicia uma leitura excitante e que, para além das reflexões acerca do seu conteúdo, suscita uma inevitável questão de outra ordem, nomeadamente se um bestseller pode ter um incontestado valor literário. Embora eu não seja de todo um leitor de livros mais vendidos, penso que a qualidade literária não é o maior apanágio desses livros. E julgo que é uma grande pena, pois estou convicto que a humanidade estaria muito melhor se Stendhal, Swift, Dostoevsky, Tolstoi, Kafka, Eça de Queiros, Graciliano Ramos, García Marquez, etc. fossem consistentemente os autores dos livros mais vendidos.

Mas considero justo referir que há também entre os mais vendidos, livros que são estimulantes e muito bem escritos. E que há autores de bestsellers que têm a capacidade de escrever livros de grande qualidade, de criar novos géneros literários, e reflectir sobre a cultura contemporânea de forma crítica e original. Muito particularmente, julgo que Robert Harris é um autor com uma enorme capacidade criativa e literária no género da ficção de natureza histórica. Na verdade, tendo tido a oportunidade de ler todos os seus livros de ficção, Pátria, Enigma, Archangel, Pompeia, Império, Escritor Fantasma (que considero o menos interessante de todos) e agora Lustrum, tenho que dizer que os considero todos muito bem conseguidos literáriamente e que são invariavelmente óptimas leituras. E estou ansioso por ler o livro derradeiro desta trilogia sobre a vida de Cícero que supostamente será publicado em 2011. Mas até lá, felizmente, não faltarão livros excitantes!


Orfeu B.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

AS FALSAS E AS "VERDADEIRAS" MEMÓRIAS




De William Boyd foi publicado recentemente, em português, uma obra intitulada “Viagem ao fundo de um coração” (Casa das Letras) que me colocou a questão das falsas e das verdadeiras memórias. Trata-se de um romance assente na memória da personagem principal que nos relata muitas das peripécias da sua vida social e dos seus encontros com figuras históricas marcantes dessa época, tentando dar à narrativa um tom de verdade, e que tem para o autor a finalidade de reconstituir o espírito do século XX, o que consegue, aliás, de maneira digna de admiração. É uma ideia interessante mas comum que abre grandes possibilidades sobretudo no romance histórico. Contudo, para ser válida, carece de um fundo de autenticidade que lhe confira coerência ou verossimilhança interna e externa (ou contextal). Ora, a leitura das primeiras dezenas de páginas leva-nos a duvidar dessa verossimilhança: o herói está sempre nos pontos cruciais dos acontecimentos e o seu encontro com personalidades históricas relevantes é de uma coincidência espantosa. Na verdade, Boyd tem uma cultura apreciável e um conhecimento de fontes históricas e sociais que lhe permite criar ambientes e manusear com desenvoltura personagens e acontecimentos. A impressão de uma falsa memória é algo que se vai impondo e tirando credibilidade à narrativa, o que me levou a reflectir sobre as”falsas” e “verdadeiras” memórias que a literatura nos pode apresentar, concedendo embora que todas as memórias têm o seu quê de reconstrução e, portanto, de criação. Cito apenas dois exemplos tirados do livro mencionado. Um refere-se aos episódios pretensamente passados com o Duque de Windsor (ex-rei Eduardo VII) e a Duquesa , sua esposa, no qual o duque é apresentado como uma personalidade fraca, sendo totalmente dominado pela mulher. Ora, este é um conhecimento comum que a pequena História nos tem trazido. Mas o que podia ser um factor de verossimilhança é enfraquecido pelas aventuras mirabolantes do herói do romance com a família Windsor e, em especial, com a Duquesa. O outro exemplo que não é muito diferente, refere-se a E. Hemingway, escritor de personalidade arrebatada, capaz de transformar o seu maior amigo num inimigo de estimação. Estou a pensar na relação de Hemingway com Saroyan. Essa faceta arrebatada daquele escritor tem sido relatada por vários contemporâneos, inclusivamente pelo próprio Saroyan que refere em escritos seus essa característica de Hemingway.
Estes dois exemplos, entre muitos outros possíveis, que atestam a apropriação por Boyd de lugares comuns da História, levam-nos a pôr em causa o procurado carácter testemunhal e a verossimilhança de um relato pretensamente factual. Ora essa pretensa factualidade não é, nem pode ser, a verdadeira carcterística do romance histórico, a qual assenta na verossimilhança dos acontecimentos relatados.
A referência a Saroyan levou-me, por contraste, a evocar uma história que o escritor nos relata e se passa em Lisboa, nos anos quarenta, durante a 2ª guerra mundial. E cito essa história pelo seu duplo interesse: como forma de apresentação, baseada num testemunho pessoal, de uma personagem histórica – Calouste Gulbenkian e por ser pouco conhecida.
Saroyan passou por Lisboa nessa época e hospedou-se no Hotel Avis, o melhor da cidade, onde Gulbenkian reservara para si o último piso do hotel que ocupou durante vários anos. Nessa noite, Gulbenkian deixou a sua sala de jantar privativa e foi à sala de jantar do hotel, onde se encontrava Saroyan, o qual assistiu a uma cena curiosa: a entrada do capitão de um barco ancorado no Tejo que tentava convencer GulbenKian a comprar a carga do barco que ele capitaneava. As autoridades marítimas haviam dado ordem para o barco deixar Lisboa nessa mesma noite, o que teria como consequência a apreeensão da carga, mal saísse a barra. O negócio que o capitão propunha era o seguinte: a venda a Gulbenkian pelo valor de cinco mil contos (hoje, pelo menos cem vezes mais ) da carga do navio que no dia seguinte Gulbenkian poderia vender pelo dobro do preço, atendendo ao valor que essas matérias primas tinham para qualquer um dos beligerantes (ingleses e alemães). Este argumento não convenceu Gulbenkian que apenas lhe respondeu não estar interessado em fazer mais negócios. Este encontro testemunhado por vários presentes dá-nos, de uma pincelada, a imagem de um homem extremamente rico, para o qual o dinheiro já não tem a mínima importância. Este, sim, é um episódio que se apresenta com cunho de veracidade. Em suma, há uma grande diferença nas memórias de que a literatura se serve quando elas se baseiam na recolha documental, por mais minuciosa que seja, ou quando expressam vivências do autor, como é o caso de Somerset Maugham, em geral, e, em especial na novela ”Mr Ashendem”. Nesta novela pretende-se também dar uma visão de aspectos históricos do século XX, confessando declaradamente o autor, no prefácio que a antecede, ter-se inspirado na sua experiência de agente secreto ao serviço da Inglaterra, na 1ª guerra mundial, experiência remodelada “ao serviço da ficção” (Mr Ashendem et autres nouvelles, p. 797, Omnibus).

sábado, 21 de agosto de 2010

Roteiro para uma cave em chamas


Naquele breu onde nada se via, subterrâneo onde era suposto habitarem todos os animais da terra, apenas se ouvia um riso fino. Vindo do nada, um riso. Quem és tu que não te vejo? Quem sou eu que não me conheço?

Vi-a tecer uma teia entre as raízes das árvores e estendê-las às árvores vizinhas. Estendê-las, mais e mais, ligando árvores, até serem todas em rede. Segredou-me que tinha que ser assim, uma teia invisível à superfície.

...

Quase me perco na tranquilidade daquele deixar-me ir e o ficar. Enquanto o corpo sara lentamente. Prolongo a imobilidade até ser completamente reestabelecida. Acordo em paz, com Miriam sobre o meu ombro, quase se despedindo. A folha desfaz-se ser ter sido preciso queimá-la. Um fogo invisível está agora presente dentro de mim. E também o ser que o guarda.

Ana Viana

Instalação que incorpora uma obra literária, fotografia, vídeo, desenho, pintura e objectos, "Roteiro para uma cave em chamas", é a síntese do trabalho colectivo de Ana Viana, António Paulo, Francisco Condessa, Gila, Manuel Álvaro e Miguel Brazete. Uma manisfestação múltipla que se materializa na exposição patente no Centro Cultural de Cascais até 10 de Outubro de 2010.

Trata-se mais concretamente dum trabalho colectivo que tem como ponto de partida um texto de Ana Viana. Ponto de partida ou de chegada, pois as múltiplas manifestações artísticas presentes nesta composição podem ser vistas como que dispostas segundo uma espiral que pode ser percorrida do interior para o exterior, ou vice-versa. Pouco importa, importa acima de tudo é a leitura, intelectual e sensorial. Importa, na minha óptica, deixar-se enredar na urdidura da aranha Miriam, que laboriosamente procura limpar-incendiar a cave repleta de textos por organizar. Textos reais? Textos potenciais? Suponho que a resposta é muito menos relevante do que a postulação da pergunta. Mais correctamente, das perguntas.

Uma singela hipótese, para estimular o aparecimento doutras mais elaboradas:

Miriam, nome etimologicamente derivado do egípcio Myrhiam, que significa "princesa", e que também é equivalente a Maria. Miriam, irmã de Moisés e Arão, que salva o primeiro das águas do Nilo. Personagens que na Torá hebraica protagonizaram o salto da escravidão para a liberdade, e que desencadearam os inevitáveis e essenciais descaminhos decorrentes.

Orfeu B.


segunda-feira, 16 de agosto de 2010

O pintor de batalhas

...

Un largo camino. Había una trama subyacente, una perspectiva fabulosa e interminable como un bucle, que recorría el círculo del mural sin detenerse nunca, integrando cada uno de los elementos, relacionando entre sí las naves que zarpaban bajo la lluvia, la ciudad en llamas sobre la colina, los fugitivos, los soldados, la mujer violada y el niño verdugo, el hombre a punto de morir, los bosques con ahorcados, colgantes como frutos, la batalla en el llano, los hombres acuchillándose en primer término, los jinetes a punto de entrar en combate, la ciudad durmiente y confiada entre sus torres de acerro, hormigón y cristal. El universo visible y la inmensidad concebible de la naturaleza. Todo lo que había querido pintar estaba allí: Brueghel, Goya, Uccelo, el doctor Atl y los demás, cuantos dispusieron la mirada y las manos para expresar lo qua a lo largo de su vida había penetrado por el visor de la cámara hasta la caverna de Platón de su retina ...

Arturo Pérez-Reverte


Do autor de La tabla de Flandres, esta novela intensa sobre a violência da guerra e a devastação psicológica que esta engendra. Um texto sobre a busca da geometria invisível subjacente a tudo, e sobre como por entre o caos da guerra agregam-se a arte, a ciência, o amor, a lucidez e a solidão.

Um livro sobre a busca da síntese: numa torre junto ao Mediterrâneo, um fotográfo de guerra procura, depois de três décadas a fotografar batalhas, pintar num fresco circular a paisagem intemporal que nunca fora capaz de capturar por meio da fotografia.

Uma novela de grande actualidade e que se lê de um jacto, mas que não deixa de plantar sementes de inquietação no leitor. Uma reflexão absolutamente necessária sobre o tempo em que vivemos.

Orfeu B.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

ALGUMAS QUESTÕES ACERCA DE PUBLICAÇÕES PÓSTUMAS




A publicação do texto de Vladimir Nabokov, “ O Original de Laura” (numa bela edição da Teorema), vem uma vez mais suscitar a questão da publicação de obras inéditas de autores falecidos, autores que, declarada ou implicitamente, não queriam essas obras publicadas. E fá-lo com uma agudeza gritante, não só pelo conteúdo do texto ( apenas fichas, por vezes esparsas), como também por ser publicado contra o pedido expresso da sua destruição, caso ele não tivesse sido concluído antes da sua morte.
Se há casos em que se justifica uma publicação que o autor não queria que o fosse (KafKa é o exemplo clássico) e se noutros se pode descortinar uma razão, outros há em que se não vislumbra qualquer justificação. Caso interessante é o da obra de Truman Capote, “Travessia de Verão”, obra de juventude editada pela D. Quixote, uma novela cheia de frescura mas de escrita por vezes um tanto incipiente, embora promissora. Texto que não acrescenta à glória do autor mas que permite compreender a evolução do seu estilo. Enfim, questões a discutir, com respostas variáveis , consoante a postura dos intervenientes. O que não é o caso da “obra”(?)de Nabokov, que, embora publicada com os cuidados possíveis, nem de perto nem de longe apresenta qualquer semelhança com uma obra literária. Creio que a melhor solução teria sido depositá-la numa biblioteca para consulta de estudiosos interessados em aprofundar o mundo obsessional do autor ( a morte, o sexo, o amor).
Esta é apenas uma opinião que vale o que vale, e que tem como finalidades provocar a reflexão dos meus leitores sobre o problema da pertença da obra literária ao seu autor e da legitimidade de dispor livremente dela, sabendo que a sua vontade será respeitada mesmo para além da sua vida e levá-los a discutir as condições em que ela pode (e deve) ser desrespeitada em função de um juízo de interesse público. Feito por quem e com que legitimidade? E com que critérios?

terça-feira, 10 de agosto de 2010

O LIVRO DO SAPATEIRO


Bela viagem através de um conjunto de poemas de grande qualidade e emoção. A profissão do sapateiro é aqui tomada como metáfora ou como paralelo da profissão do escritor.

A mão do sapateiro e a mão que escreve. O enclausuramento na cave do sapateiro e do escritor. A luz que vem apenas da janela ao alto. O ofício que fica gravado nos sapatos e no andar de quem os leva.

A metáfora é trabalhada quase até ao limite, o que leva a que alguns poemas percam em grandeza para se aterem à construção desta relação circular e quase obsessiva da palavra com o ofício do sapateiro.

Apesar disso, ou também com isso, Pedro Tamen é um dos poetas que mais me emociona, pelo rigor do ofício e pela espessura intensa do olhar.

Este excelente e seriíssimo poeta reforça a ideia da poesia como ofício e arte de voar para dimensões exteriores ao registo cru e curto da poesia do quotidiano tão na moda ultimamente.

sábado, 7 de agosto de 2010

CADERNOS DE UM CAÇADOR



Tento enumerar algumas características que fazem um grande romance ou uma grande colecção de contos. Haverá mais, por certo, mas proponho-me pensar nestas:

a capacidade de efabulação, de montar com eficácia a máquina narrativa;

a capacidade de criar personagens que transportem o leitor para uma dimensão inesperada e intensa da diversidade humana;

a requintada e rara arte da escrita que surpreende, amarra e conduz o leitor independentemente da própria linha central da narração.

a capacidade de nos transportar para uma dimensão superior da experiência estética.

Os grandes escritores russos do século XIX, como é o caso de Turgueniev, tinham estes atributos em larga escala.

Muitos bons e sublinhados escritores da actualidade têm várias destas qualidades em maior ou menor grau. Com frequência conseguem ser eficazes porque seguem as regras e o o fluir dos consabidos tempos da novela, tão repetidos em cursos da chamada escrita "criativa", e fazem correr a sua história com o devido asseio e despacho.

Mas falta-lhes muitas vezes a arte da grande escrita. É por isso que, na leitura de muitos romances actuais chegamos a cerca de metade, dois terços, e temos o sentimento de que o escritor não anda nem desanda, a história fica a marinar, as personagens não saem da mesma, as situações repetem-se, as palavras parecem sair de uma máquina a funcionar em seco.



Turgueniev era um mestre na grande arte da escrita. As suas descrições de paisagens, animais, poderosas personagens, delicados ou tremendos estados de alma, são primorosas. Levam-nos a emoções que não tínhamos experimentado.

Talvez a escrita de um escritor como Turgueniev exija um leitor diferente da maior parte dos romances actuais. Exige, talvez,um outro tempo de leitura. O tempo de saborear as palavras,de nos deixarmos embalar pela sua paixão pela natureza e, mais, pelas palavras com que nos oferece essa paixão e connosco compartilha essa emoção pelo drama dos homens e das mulheres e esplendor da paisagem sem fim da sua Rússia.

Turgueniev leva-nos através da história de uma personagem. mas logo a interrompe a propósito das árvores de um bosque, da pesca num rio, de uma lebre que foge, de um homem que canta... Leva-nos aonde nos quer levar e traz-nos de volta à história interrompida páginas e páginas depois e fá-lo porque a sua arte é deslumbrante e irrecusável.

Há poucos dias li que o escritor norueguês Kjeill Asklidsen perguntava em que é que a alegria é interessante para uma história. Pois em Turgueniev é permanente a alegria pelas maravilhas da natureza e essa alegria não o impede de desenhar com dureza a drama dos servos e de denunciar a organização de uma sociedade a viver ainda nas faldas do feudalismo

Na contracapa deste livro cita-se Harold Bloom, o conhecido crítico americano, que o coloca entre as grandes obras da literatura de sempre.

Li-o em início de férias, quando no peito ainda borbulhava o caldeirão das angústias do dia-a-dia. Com este extraordinário livro de contos saí desse caldeirão para o tempo maravilhoso da grande literatura.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

SAÚDE, CIÊNCIA E RAZÃO




Este romance do meu amigo Francisco Moita Flores lê-se apaixonadamente. Não falo da paixão pelo enredo dramático em si mas pela questão central que atravessa a sua escrita que é a da luta entre razão e ciência, por um lado e, por outro, a fé religiosa e os hábitos incrustados na população e resultantes da falta de cuidados modernos de saúde.

O autor criou uma ficção próxima da realidade em torno da procura do assassino de Sidónio Pais, questão ainda hoje sem resposta, e através dessa ficção faz circular o seu vasto conhecimento sobre a situação da justiça e da investigação policial durante o Período da República e os primeiros e angustiosos passos das Ciências forenses, da Polícia de Investigação Criminal, da Medicina Legal e também da Saúde Pública.

Por aqui passam ou são referidas figuras reais, históricas e míticas de médicos da época: Miguel Bombarda, Ricardo Jorge, Sousa Martins e outros. Homens que construiram alguns os alicerces da modernidade em Portugal.

O ambiente da Lisboa onde se passa este romance é de negrura e miséria atravessadas por um turbilhão de confusões políticas, perseguições e ajustes de contas. Um tempo em que se ancia o falhanço do projecto democrático republicano e se anuncia a emergência da ditadura que tem uma primeira tentativa justamente através da figura de Sidónio Pais, o Presidente-Rei como lhe chamava Fernando Pessoa.

Enquanto ainda se combate e morre nas trincheiras de França a gripe "espanhola" ou "pneumónica" faz uma razia na população, agravada pela falta de cuidados de higiene básica.

A personagem principal é o dr. Asdrúbal de Aguiar, médico legista que procurou a todo o custo fazer os exames necessários para descobrir o assassino de Sidónio usando métodos modernos e científicos contra a incapacidade grosseira da polícia que arranja um culpado que confessa o crime através da pancada pura e dura.

Levada pela mão segura de quem sabe bem entretecer os fios novelescos, a ficção que envolve os factos reais agarra-nos e faz-nos atravessar a trama de uma forma por vezes pungente, por vezes emocionada, terna, cómica ou sarcástica.

Moita Flores é um escritor de bem. Trata bem as suas personagens. Não ingora mas deixa de lado a perversidade, e concentra-se no lado melhor de cada uma dessas personagens. Ana Rosa, o dr. Asdrúbal de Aguiar, o dr. Azevedo Neves, o divertidíssimo dr. Moreira Júnior (actor de magníficas cenas de comédia a pedirem para passar ao écran, grande ou pequeno).

No final fica-nos a certeza de que há pouco menos de 100 anos estávamos em muitos campos em plena pré-história, nomeadamente no que diz respeito à saúde pública e às ciências forenses.

domingo, 1 de agosto de 2010

A Estranha





"El mar no es capaz de sufrir ... Entonces, ¿con qué finalidad fue creado?" Aquel mundo vacío, privado se sentido y finalidad desde tiempos ancestrales, se extendía indiferente a su alredor. " Solo la razón es capaz de doler", se dijo.

La Extraña



Autor duma obra singular, Sándor Márai nasceu em 1900, em Kassa, cidade do Império Austro-Húngaro, hoje Kosice na Eslováquia. Na década de 1930 adquiriu a reputação de ser um dos mais originais escritores húngaros. Sobreviveu à guerra apesar da sua profunda aversão e aberta oposição ao fascismo. Em 1948 foi levado a deixar a Hungria depois da ascensão do comunismo, cuja força destrutiva também repudiava. Viveu de seguida na Suíça e na Itália, até obter a nacionalidade norte-americana e fixar-se em San Diego, Califórnia, na década de 1970. Depois de perder a esposa em 1986 e o filho adoptivo em 1987, Márai suicida-se em 1989. Conta-se que só após a organização dos seus pertences, que a esposa de seu filho e os seus netos se deram conta de quão profícuo e proeminente Márai era enquanto autor.

O homem que nos seus 46 livros, 27 dos quais de ficção, descreveu e dissecou a desintegração material e moral causada pela guerra, pelo fascismo e pelo comunismo, também não exímia o consumismo e o "lixo da economia de mercado" como causas do declínio do humanismo e da sociedade burguesa.

Não sendo ainda muito conhecido entre nós, as recentes e excelentes traduções para o português das suas obras mais representativas, são um agradável exemplo de clarividência e discernimento editorial. No entanto, como recentemente pude constatar, em Espanha há muitos mais títulos traduzidos e a reacção entusiástica da crítica faz antever que muitos outros aparecerão num futuro próximo.

A novela A Estranha foi escrita em 1934. Julgo que se o autor não tivesse sido ostracizado pelo regime comunista húngaro que baniu completamente a sua obra, este livro seria mais conhecido e figuraria, junto com alguns títulos de Dostoyevski e outros de Kafka, como um dos mais representativos antecedentes literários do existencialismo que década e meia mais tarde ganharia corpo enquanto movimento filosófico.

Profunda e evocativa, a escrita de Márai cartografa detalhadamente as paisagens da alma. Há semelhanças notáveis, a nível indagativo e de enredo, dado que ambos envolvem um assassinato cuja responsabilidade nunca é categoricamente assumida ou negada, com o Estrangeiro de Camus, livro escrito em 1942. Na obra de Márai, o protagonista, um brilhante linguista e orientalista parisiense, Viktor Askenasi, a pretexto de imprescindíveis férias, encontra-se num buliçoso hotel em Dubrovnik a examinar as suas duvidosas decisões existenciais, sem contudo ajuizá-las segundo os códigos sociais vigentes. E entre as conversas mundanas das famílias veraneantes e o intenso calor, o seu estado de perplexidade moral é exacerbado pela percepção da pronúncia duma estranha que com um forte acento berlinense solicita, na recepção do hotel, a chave do quarto "Zwoundvierzig".

O acontecimento liberta um fluxo inexorável de sentimentos, levando-o finalmente ao quarto da estranha e ao território ignoto da loucura. Através dum relato tenso, lúcido e analítico, Márai conduz-nos ao âmago das questões fundamentais, ao coração da insatisfação existencial e das questões centrais da identidade, das ambiguidades do amor, por entre os labirintos da solidão, sempre num equilíbrio instável entre a auto-preservação e a dissolução individual.

Enfim, um texto que nos lança para territórios essenciais e que despretensiosamente demonstra a necessidade absoluta da literatura enquanto instrumento imprescindível de reflexão sobre a problemática da existência e sobre os destinos da humanidade.

Orfeu B.