domingo, 3 de agosto de 2008

A Prisão de Jesús Zárate

A partir da leitura de O último Leitor do David Toscana, e da consulta da colecção Ovelha Negra da Oficina do Livro, fui parar (guiado também pela mão do José) ao excelente e belíssimo A prisão de Jesús Zárate. Para vos falar deste livro tomo de empréstimo as palavras de Urbano Tavares Rodrigues no também excelente prefácio ao livro (A filosofia na Cela).
“Liberdade, justiça, encarceramento, eis as três questões quase incessantemente vividas, sentidas, discutidas por quatro presos numa pequena cela de uma prisão colombiana, longe das grandes cidades.
Antón Castán, o mais jovem, inocente do crime de que o acusam e que ele acabou por confessar após várias sessões de tortura sem saber sequer de que se tratava, entretém-se a relatar num diário, que bem pode tornar-se num romance, o dia-a-dia daquele espaço fechado habitado por mais três homens. Mister Alba, já velho, zarolho majestoso, vestido a rigor, é um burlão de alto coturno, aliás culto, versado em leis, com mil histórias para contar, talvez mitómano. David Fresno, jovem com estudos universitários, loucamente apaixonado por uma quase mítica Nancy, merecedora de todos os carinhos e desvarios, foi condenado por falsificar a assinatura de um tio rico e sedentário. O quarto recluso, Braulio Coral, pintor de paredes, foi ali parar por crime de bigamia. É naturalmente menos instruído do que os outros, mas o facto de com eles conviver permanentemente, de os escutar, de ter por vezes que dar opiniões, fê-lo evoluir e ganhar até meios de expressão. A atmosfera daquela cela é assim desconcertante para o leitor desprevenido. (…) E de tão irreal que tudo isto é, o filosofar dos presos, o seu humor por vezes de arame farpado, o seu relacionamento entre si e com os funcionários e carcereiros, privados que estão das duas horas de sol no pátio do recreio, o irreal e o absurdo tornam-se imensamente reais.” A história sofre evoluções, mas deixo ao leitor o prazer da descoberta de como se quebra a monotonia pesada da prisão. Na opinião do Urbano Tavares Rodrigues há fortes marcas borgesianas neste romance tão complexo e interrogativo; e há outras: as de O Processo de Kafka; de Crime e Castigo, de Dostoiévski e, acima de tudo, de O Estrangeiro, de Albert Camus. Urbano Tavares Rodrigues termina com uma afirmação que subscrevo: “E por aqui me fico, na certeza de que nenhum leitor inteligente, exigente e sensível deixará de amar A prisão de Jesús Zárate.

1 comentário:

Tatiana disse...

O Meu livro favorito! Adorei-o! não me farto de o aconcelhar! Aliás, esta colecção a Ovelha Negra tem-se mostrado fantástica!