quinta-feira, 16 de julho de 2009

LAURENT GAUDÉ, UM CONTISTA CHEIO DE VIRTUDES





Laurent Gaudé é um escritor francês, relativamente jovem, que publicou vários romances e alguns contos. Contos que a ASA editou sob o título “Noite Dentro, Moçambique e Outras Narrativas”. Quatro histórias, abordando diversos temas, em contextos diferentes. De entre essas quatro histórias, destacarei a primeira, “Sangue Negreiro”, não só pelo tema, mas também pelo modo como é tratado.
No porto de Saint-Malo, um escravo negro foge do navio em que vinha e vagueia pelas ruas daquela cidade francesa. Cidade que se mobiliza para lhe dar caça, em cooperação com a tripulação do barco. Como não se lhe consegue encontrar o rasto, a população entra em pânico, temendo que o fugitivo possa vir a cometer os crimes mais hediondos. Um medo antigo, feito de irracionalidade, que se intensifica e alastra quando começam a aparecer, pregados nas portas das casas das pessoas gradas da terra, dedos ensanguentados de um negro. O oficial, que exerce as funções de capitão do veleiro de que se escapuliu o negro, sente-se responsável pela situação e crê que as gentes da cidade assim o consideram. E que o olham com desconfiança e hostilidade, o que lhe provoca uma forte insegurança – e um medo crescente. O que o leva ao enlouquecimento, lento mas inexorável. Numa linguagem nervosa e eivada de humanidade, mas primando pela obediência a um cânone clássico, Laurent Gaudé descreve com rigor e profundidade as grandes emoções das multidões e nelas enquadra os sentimentos e as acções dos indivíduos que com elas interagem (ou nelas se incluem). Sempre dentro de um clima de mistério, a roçar o sobrenatural. Enfim, um exemplo de um bom conto, simultaneamente clássico e moderno. E, acima de tudo, muito bem escrito.









O mel do leão




Apesar de ser o livro mais publicado de sempre, e supostamente o mais lido, a Bíblia é muito possivelmente uma das mais misteriosas reuniões de textos. A origem dos vários livros que a compõe, a sua laboriosa reunião, a ética e lógica subjacentes compreendem uma elaborada explicação histórica, e pressupõem um conjunto extraordinário de circunstâncias para garantir a continuidade do exercício de elaboração, compilação e reunião.
Naturalmente, o facto de serem algumas de suas partes instrumentos fundadores de três das mais representativas religiões da Humanidade, não permitiu durante muitos séculos, que os vários aspectos deste fundamental livro fossem objecto de estudo. A impermeabilidade da fé, não exige maiores questionamentos. A palavra de deus existe simplesmente e não requer explicações. Mas para além do carácter fundador, há objectivos histórico-políticos muito bem definidos. Visa a Torá hebráica, ou o Velho Testamento, garantir a coesão e a continuidade do povo de Israel através da sua adesão a um código ético explícito com deliberações negativas e positivas. O Novo Testamento, tem como objectivo difundir os ensinamentos do rebelde Jesus tornado deus na terra, estendendo e universalisando o código ético do Velho Testamento, procurando desta forma elevar o nível ético da Humanidade. As implicações histórico-políticas desta expansão são bem conhecidas.
É bem sabido que o património intelectual do Judaísmo compreende também exegeses e discussões rabínicas de episódios da Torá, da lei e da ética, reunidos no Talmud ou Gemara. Porém, estas discussões tendem a aguçar ainda mais o extraordinário da narrativa e o seu mistério. Por sua vez, o Novo Testamento é composto por uma selecção "politicamente correcta" de relatos da vida de Jesus de Nazaré, sendo assim um texto mais depurado. Mas não podemos esquecer que para muitos, a modernidade teve início no século XVII quando Spinoza, defende a necessidade de uma leitura exclusivamente secular da Bíblia. Educado no seio da ortodoxia judáica, que acaba por renegá-lo em 1656, Spinoza distancia-se das correntes espirituais do seu tempo ao defender que Judaísmo e Cristianismo deveriam ser reestruturados através da crítica racional e dum programa de reforma fundado na leitura crítica da Bíblia. É este espírito que motiva o livro de David Grossman sobre o mito de Sansão.
Sansão, o israelita que matou com as próprias mãos um leão e que, cerca de um ano depois, tirou o mel das abelhas que se instalaram na carcaça do leão morto para regalar os seus pais, é sem sombra de dúvida, digno de dissecação literária, histórica e psicoanalítica.
Enviado por Deus, para libertar os Israelitas da opressão dos Filistinos, um povo guerreiro que vivia a oeste de Israel, às margens do Grande Mar e que adorava o ídolo Dagon, uma criatura com corpo de homem e cabeça de peixe, Sansão exemplifica a derrocada de um homem que apesar da sua força física sobrenatural, nunca foi capaz de conciliar a sua vida adulta com a tarefa divina que lhe havia sido incumbida. Como Samuel, que acabou por liderar os Israelitas e impor a derrota aos Filistinos, Sansão foi declarado pelo anjo mensageiro de Deus, um nazarita, um homem consagrado a Deus, um "que tem um juramento" e, dada essa condição, a sua mãe foi explicitamente exortada: estão vetados a Sansão o vinho e as bebidas fortes, e o seu cabelo não deve jamais ser cortado.
Paradoxalmente, o Sansão adulto procurou deliberadamente a convivência com os Filistinos, que pela lógica das circunstâncias nunca ser-lhe-iam fiéis. Assim, responde com o brutal assassinato de 30 homens em Ashkelon por ter a sua esposa filistina revelado o segredo de um enigma por ele proposto aos Filistinos. Posteriormente, arrependido procura uma reconciliação com a sua esposa, mas quando esta não é mais possível, Sansão responde uma vez mais de forma brutal e desproporcional. A vingança demonstra que a Sansão não faltava engenho: captura 300 raposas atando-as duas a duas pela cauda, amarrando-lhes uma tocha; finalmente, após incandescer as tochas liberta os pares de raposas nas vinhas, oliveiras e campos de grãos dos Filistinos. Mas faltava-lhe claramente uma bússola moral para travar de forma madura e sensata a sua incapacidade de gerir as frustrações.
Dalila, é a última das suas mulheres filistinas. Uma mulher dividida entre a paixão por um homem infantilizado e a lealdade para com o seu povo. Este último sentimento acaba por prevalecer, também por força da necessidade que tinha Sansão de ver-se traído para poder então vingar-se usando a sua força sobre-humana. Desta vez contudo, o jogo dos amantes vai mais longe, pois Sansão acaba por revelar o segredo do seu poder físico: os caracóis do seu cabelo até então nunca cortado. Dalila corta-os enquanto Sansão dorme, e os Filistinos aprisionam-lhe e acabam por cegá-lo.
A captura do gigante trouxe júbilo aos Filistinos, que se juntam aos milhares para festejar a queda do formidável inimigo. Finalmente, é imposta a Sansão a humilhação de dançar para os senhores Filistinos. Mas Sansão aproveita a oportunidade e pede para ser conduzido para junto dos pilares e aí clamar a Deus para que lhe restitua a força. Tendo sido ouvida a sua prece, acaba por destruir o templo de Dagon desestabilizando o seu pilar principal. Um acto final desesperado que lhe custa a vida e a dos senhores Filistinos.
O mito de Sansão ilustra, a vários níveis, a inadequação da força puramente física e revela a inutilidade duma vida desprovida da percepção do seu verdadeiro propósito. O heroísmo vazio de Sansão só podia redundar em actos desesperados e despropositados. Só através da ética é que a liberdade pode ser verdadeiramente conquistada.

Orfeu B.

Um conto que me marcou profundamente


O conto "Baleia" de Graciliano ramos é um dos contos que mais me marcou e impressionou. É simultaneamente simples e de uma força impressionante. Ontem Baleia veio ter comigo revisitar-me e gostaria de partilhar convosco este pequeno - enorme -texto.



Baleia

Graciliano Ramos
A CACHORRA Baleia estava para morrer. Tinha emagrecido, o pêlo caíra-lhe em vários pontos, as costelas avultavam num fundo róseo, onde manchas escuras supuravam e sangravam, cobertas de moscas. As chagas da boca e a inchação dos beiços dificultavam-lhe a comida e a bebida.
Por isso Fabiano imaginara que ela estivesse com um princípio de hidrofobia e amarrara-lhe no pescoço um rosário de sabugos de milho queimados. Mas Baleia, sempre de mal a pior, roçava-se nas estacas do curral ou metia-se no mato, impaciente, enxotava os mosquitos sacudindo as orelhas murchas, agitando a cauda pelada e curta, grossa nas base, cheia de moscas, semelhante a uma cauda de cascavel.
Então Fabiano resolveu matá-la. Foi buscar a espingarda de pederneira, lixou-a, limpou-a com o saca-trapo e fez tenção de carregá-la bem para a cachorra não sofrer muito.
Sinhá Vitória fechou-se na camarinha, rebocando os meninos assustados, que advinhavam desgraça e não se cansavam de repetir a mesma pergunta:
- Vão bulir com a Baleia?
Tinham visto o chumbeiro e o polvarinho, os modos de Fabiano afligiam-nos, davam-lhes a suspeita de que Baleia corria perigo.
Ela era como uma pessoa da família: brincavam juntos os três, para bem dizer não se difereciavam, rebolavam na areia do rio e no estrume fofo que ia subindo, ameaçava cobrir o chiquiro das cabras.
Quiseram mexer na taramela e abrir a porta, mas sinhá vitória levou-os para a cama de varas, deitou-os e esforçou-se por tapar-lhes os ouvidos: prendeu a cabeça do mais velho entre as coxas e espalmou as mãos nas orelhas do segundo. Como os pequenos resistissem, aperreou-­se e tratou de subjugá-los, resmungando com energia.
Ela também tinha o coração pesado, mas resignava-se: naturalmente a decisão de Fabiano era necessária e justa. Pobre da Baleia.
Escutou, ouviu o rumor do chumbo que se derramava no cano da arma, as pancadas surdas da vareta na bucha. Suspirou. Coitadinha da Baleia.
Os meninos começaram a gritar e a espernear. E como sinhá Vitória tinha relaxado os músculos, deixou escapar o mais taludo e soltou uma praga:
- Capeta excomungado.
Na luta que travou para segurar de novo o filho rebelde, zangou-se de verdade. Safadinho. Atirou um cocorote ao crânio enrolado na coberta vermelha e na saia de ramagens.
Pouco a pouco a cólera diminuiu, e sinhá Vitória, embalando as crianças, enjoou-se da cadela achacada, gargarejou muxoxos e nomes feios. Bicho nojento, babão. Inconveniência deixar cachorro doido solto em casa. Mas compreendia que estava sendo severa demais, achava difícil Baleia endoidecer e lamentava que o marido não houvesse esperado mais um dia para ver se realmente a execução era indispensável.
Nesse momento Fabiano andava no copiar, batendo castanholas com os dedos. Sinhá Vitória encolheu o pescoço e tentou encostar os ombros às orelhas. Como isto era impossível, levantou um pedaço da cabeça.
Fabiano percorreu o alpendre, olhando as barúna e as porteiras, açulando um cão invisível contra animais invisíveis:
-Ecô! ecô!
Em seguida entrou na sala, atravessou o corredor e chegou à janela baixa da cozinha. Examinou o terreiro, viu Baleia coçando-se a e esfregar as peladuras no pé de turco, levou a espingarda ao rosto. A cachorra espiou o dono desconfiada, enroscou-se no tronco e foi-se desviando, até ficar no outro lado da árvore, agachada e arisca, mostrando apenas as pupilas negras. Aborrecido com esta manobra, Fabiano saltou a janela, esgueirou-se ao longo da cerca do curral, deteve-se no mourão do canto e levou de novo a arma ao rosto. Como o animal estivesse de frente e não apresentasse bom alvo, adiantou-se mais alguns passos. Ao chegar às catingueiras, modificou a pontaria e puxou o gatilho. A carga alcançou os quartos de Baleia, que se pôs latir desesperadamente.
Ouvindo o tiro e os latidos, sinhá Vitória pegou-se à Virgem Maria e os meninos rolaram na caca chorando alto. Fabiano recolheu-se.
E Baleia fugiu precipitada, rodeou o barreiro, entrou no quintalzinho da esquerda, passou rente aos craveiros e às panelas de losna, meteu-se por um buraco da cerca e ganhou o pátio, correndo em três pés. Dirigiu-se ao copiar, mas temeu encontrar Fabiano e afastou-se para o chiqueiro das cabras. Demorou-se aí por um instante, meio desorientada, saiu depois sem destino, aos pulos.
Defronte do carro de bois faltou-lhe a perna traseira. E, perdendo muito sangue, andou como gente em dois pés, arrastando com dificuldade a parte posterior do corpo. Quis recuar e esconder-se debaixo do carro, mas teve medo da roda.
Encaminhou-se aos juazeiros. Sob a raiz de um deles havia uma barroca macia e funda. Gostava de espojar-se ali: cobria-se de poeira, evitava as moscas e os mosquitos, e quando se levantava, tinha as folhas e gravetos colados às feridas, era um bicho diferente dos outros. Caiu antes de alcançar essa cova arredada. Tentou erguer-se, endireitou a cabeça e estirou as pernas dianteira, mas o resto do corpo ficou deitado de banda. Nesta posição torcida, mexeu-­se a custo, ralando as patas, cravando as unhas no chão, agarrando-se nos seixos miúdos. Afinal esmoreceu e aquietou-se junto às pedras onde os meninos jogavam cobras mortas. Uma sede horrível queimava-lhe a garganta. Procurou ver as pernas e não as distinguiu: um nevoeiro impedia-lhe a visão. Pôs-se a latir e desejou morder Fabiano. Realmente não latina: uivava baixinho, e os uivos iam diminuindo, tomavam-se quase imperceptíveis.
Como o sol a encandeasse, conseguiu adiantar-se umas polegadas e escondeu-se numa nesga de sombra que ladeava a pedra.
Olhou-se de novo, aflita. Que lhe estaria acontecendo? O nevoeiro engrossava e aproximava­se.
Sentiu o cheiro bom dos preás que desciam do morro, mas o cheiro vinha fraco e havia nele partículas de outros viventes. Parecia que o morro se tinha distanciado muito. Arregaçou o focinho, aspirou o ar lentamente, com vontade de subir a ladeira e perseguir os preás, que pulavam e corriam em liberdade.
Começou a arquejar penosamente, fingindo ladrar. Passou a língua pelos beiços torrados e não experimentou nenhum prazer. O olfato cada vez mais se embotava: certamente os preás tinha fugido.
Esqueceu-os e de novo lhe veio o desejo de morder Fabiano, que lhe apareceu diante dos olhos meio vidrados, com um objeto esquisito na mão. Não conhecia o objeto, mas pôs-se a tremer, convencida de que ele encerrava surpresas desagradáveis. Fez um esforço para desviar-se daquilo e encolher o rabo. Cerrou as pálpebras pesadas e julgou que o rabo estava encolhido. Não poderia morder Fabiano: tinha nascido perto dele, numa camarinha, sob a cama de varas, e consumira a existência em submissão, ladrando para juntar o gado quando o vaqueiro batia palmas.
O objeto desconhecido continuava a ameaçá-la. Conteve a respiração, cobriu os dentes, espiou o inimigo por baixo das pestanas caídas. Ficou assim algum tempo, depois sossegou. Fabiano e a coisa perigosa tinham-se sumido.
Abriu os olhos a custo. Agora havia uma grande escuridão, com certeza o sol desaparecera. Os chocalhos das cabras tilintaram para os lados do rio, o fartum do chiqueiro espalhou-se pela vizinhança.
Baleia assustou-se. Que faziam aqueles animais soltos de noite? A obrigação dela era levantar-se, conduzi-los ao bebedouro. Franziu as ventas, procurando distinguir os meninos. Estranhou a ausência deles.
Não se lembrava de Fabiano. Tinha havido um desastre, mas Baleia não atribuía a esse desastre a importância em que se achava nem percebia que estava livre de responsabilidades.
Uma angústia apertou-lhe o pequeno coração. Precisava vigiar cabras: àquela hora cheiros de suçuarana deviam andar pelas ribanceiras, rondar as moitas afastadas. Felizmente os meninos dormiam na esteira, por baixo do caritó onde sinhá Vitória guardava o cachimbo.
Uma noite de inverno, gelada e nevoenta, cercava a criaturinha. Silêncio completo, nenhum sinal de vida nos arredores. O galo velho não cantava no poleiro, nem Fabiano roncava na cama de varas. Estes sons não interessavam Baleia, mas quando o galo batia as asas e Fabiano se virava, emanações familiares revelavam-lhe a presença deles. Agora parecia que a fazenda se tinha despovoado.
Baleia respirava depressa, a boca aberta, os queixos desgovernados, a língua pendente e insensível. Não sabia o que tinha sucedido. O estrondo, a pancada que recebera no quarto e a viagem difícil no barreiro ao fim do pátio desvaneciam-se no seu espírito.
Provavelmente estava no cozinha, entre as pedras que serviam de trempe. Antes de se deitar, sinhá Vitória retirava dali os carvões e a cinza, varria com um molho de vassourinha o chão queimado, e aquilo ficava um bom lugar para cachorro descansar. O calor afugentava as pulgas, a terra se amaciava. E, findos os cochilos, numerosos preás corriam e saltavam, um formigueiro de preás invadia a cozinha.
A tremura subia, deixava a barriga e chegava ao peito de Baleia. Do outro peito para trás era tudo insensibilidade e esquecimento. Mas o resto do corpo se arrepiava, espinhos de mandacaru penetravam na carne meio comida pela doença.
Baleia encostava a cabecinha fatigada na pedra. A pedra estava fria, certamente sinhá Vitória tinha deixado o fogo apagar-se muito cedo.
Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes.
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Fonte: RAMOS, Graciliano. Vidas secas, 82ªed. Rio de Janeiro: Record. 2001. p. 85-91.

terça-feira, 14 de julho de 2009

O fato cinzento



Há livros que nos acompanham muito para além da sua leitura. Ambientes que nos revisitam, personagens que revivem, frases que se reescrevem. Um livro que me tem visitado é "O fato cinzento" de Andrea Camilleri. E é o fantasma do personagem principal que me visita. Ele é um alto funcionário da banca que conhecemos no primeiro dia da sua reforma. É casado com Adele, muito mais jovem e muito bela. Acompanhamos um percurso de traição anunciada que é acompanhado por mudanças físicas no apartamento conjugal, com as aparências mantidas intactas. Envolve-nos uma intensa solidão, um vazio muito grande que se acentua com a reforma. Essa solidão é acompanhada de um grande cansaço físico que se vem a revelar fruto de uma doença incurável. Assistimos ao lento arrastar para a morte.
Muito mais tonalidades passam pelo livro. Por exemplo, o jogo de Adele com uma renovada aproximação física e respectivas mudanças no apartamento, mantendo talvez só as aparências (pelo menos para ela própria), o simbolismo do casto fato cinzento que só é usado em ocasiões de morte, etc, etc. Na capa do livro vem um excerto do Corriere della Sera: "Camilleri segue o batimento da alma feminina como ninguém". Mas é a alma vazia do marido preenchida pelo pouco que Adele lhe reserva que me revisita.

sábado, 11 de julho de 2009

A Queda


Através de um monólogo, Albert Camus conta-nos a história de um advogado de sucesso que inicia uma viagem aos meandros da sua consciência. A sua confissão a um outro homem é iniciado num bar num bairro de marinheiros e percorre em 4 ou 5 dias as ruas dessa cidade. Esta é um julgamento de todos, porque sentimos perfeitamente essa queda do confessor. O autor empurra-nos para um lugar pouco agradável, onde nós, juízes e inocentes, somos também culpados dessa acusação que fazemos aos outros. É portanto um livro pequeno mas muito pesado e que só devemos ler se estivermos num andar de baixo, acusados do pior. Se for o caso, então este livro é um tónico regenerador que não nos deixa indiferentes quando subirmos as escadas, porque ao subir, mesmo poucos degraus, podemos sempre cair, principalmente se subirmos com muita confiança, sem olharmos para os nossos próprios pés. Além de tudo, esta história fala-nos sobre a arte: "Sei o que está a pensar: é muito difícil destrinçar o verdadeiro do falso naquilo que conto. Confesso que tem razão. Eu próprio... Olhe uma pessoa das minhas relações dividia os seres em três categorias: os que preferem não ter nada a escondera serem obrigados a mentir, os que preferem mentir a não ter nada que esconder, e, finalmente, os que amam ao mesmo tempo a mentira e o segredo. Deixo à sua escolha o compartimento que mais me convém. Que importa, no fim de contas? As mentiras não conduzem finalmente à via da verdade? E as minhas histórias, verdadeiras ou falsas, não tenderão todas para o mesmo fim, não terão o mesmo sentido? Que importa, então, que sejam verdadeiras ou falsas, se, nos dois casos, são significativas do que fui e do que sou? Vê-se mais claro, por vezes, naquele que mente que no que fala verdade. A verdade cega, como a luz. A mentira, pelo o contrário, é um belo crepúsculo que põe cada objecto em realce." Ao ler lembra-me um pouco aquele poema de Fernando Pessoa "O poeta é um fingidor".

quinta-feira, 9 de julho de 2009

UM GRANDE ESCRITOR PORTUGUÊS DO SÉC. XX - QUE NINGUÉM CONHECE





Sílvio Lima foi meu professor de cadeiras de Psicologia, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Há cinquenta e quatro anos, exactamente. Dele, guardo várias imagens, por vezes, de sentido contraditório. Professor de verbo brilhante, o seu discurso tinha a finura da inteligência crítica e o peso do conhecimento erudito. Os assuntos abordados nas aulas eram actuais e, a maioria das vezes, apresentados de uma forma interessante e pessoal. Ora, todas estas características deveriam fazer dele um grande professor, por todos reconhecido. Mas, na verdade, assim não era. A inquietação que nele se adivinhava, as perspectivas ideológicas subjacentes às suas prelecções (e que ele não ocultava), o constante jogo de palavras, por vezes, a sobrepor-se à profundidade da análise, levavam alguns de nós, jovens de vinte anos, a tomar algumas precauções - pelo menos, um certo distanciamento...
De tudo isso eu me recordei, agora, ao ler uma dissertação de mestrado apresentada na Universidade de Coimbra. Dissertação curiosa, decorrente da "descoberta" de cerca de cem artigos sobre desporto, que Sílvio Lima publicou em "O Primeiro de Janeiro", entre 1935 e 1942, ou seja, no período em que esteve compulsivamente afastado da docência universitária, por razões políticas. Estes artigos e perto de vinte ensaios, que publicou sobre desporto, constituem uma obra ímpar na cultura portuguesa do segundo quartel do século XX. E mais rara ainda por vir de um professor da Universidade de Coimbra, nessa época tão fechada em si mesma, tão tradicional e refractária a tudo o que fosse inovação. Principalmente, quando essa inovação tinha uma nítida intenção de intervenção social. Creio, mesmo, que se trata do primeiro conjunto de estudos, que têm o desporto como tema, escritos por um professor universitário português.
A referida dissertação, apresentada por Pedro Falcão, levou-me à leitura (e à releitura) desses textos e a uma conclusão verdadeiramente surpreendente: Sílvio Lima é um dos grandes escritores portugueses do século XX. E totalmente desconhecido da nossa literatura. Se algum conhecimento ainda há, hoje em dia, das suas obras (nos meios universitários), tal se deve à edição das suas "Obras Completas", organizada por José Ferreira da Silva e publicada pela Fundação Calouste Gulbenkian. O que é muito e, ao mesmo tempo, pouco, pois continua a faltar a abordagem da obra do autor, sob outros ângulos, como, por exemplo, o do seu lugar na história do ensaísmo português. Quer concordemos, quer não, com as suas posturas intelectuais, as suas teses, a pertinência das suas polémicas, não podemos deixar de concluir que Sílvio Lima é um dos maiores ensaístas portugueses do século XX – e um dos mais prolíferos. E não estou a esquecer nem o António Sérgio, nem o Fernando Pessoa, nem o Eduardo Lourenço.
E esta conclusão entristece-me: quantos escritores estarão esquecidos no limbo dos nossos arquivos, à espera que a sua fada madrinha os faça reviver da letargia em que nós, os viventes desatentos, os vamos sepultando? Se ao menos se perfilasse, no nosso horizonte, alguma preocupação pela elaboração de estudos temáticos sobre os principais géneros literários, entre nós cultivados... Se tal acontecesse, ainda haveria alguma esperança de que o nome de Sílvio Lima fosse enaltecido, como um dos grandes escritores dessa forma portuguesa de fazer ensaio - brilhantemente iniciada por Moniz Barreto, no final do século XIX. Mas quem é que, hoje, ainda sabe quem foi Moniz Barreto?

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Do sucesso e da mafia



Muitas vezes o sucesso de um escritor afasta-me da sua obra. Aconteceu, por exemplo, com o italiano Roberto Saviano. O sucesso de "Gomorra", o filme premiado no Festival de Cannes e a posterior vida em clandestinidade foram demais para mim.
Recentemente encontrei um pequeno livro (os primeiros escritos após Gomorra), "O contrário da morte". São dois pequenos contos. O primeiro, que dá título ao livro, começou a despertar o meu interesse. A história de jovens do sul de Itália, de aldeias esquecidas , que partem nas várias missões do exército italiano pelo mundo fora (muitas vezes para amealhar algum dinheiro, no caso para um casamento e uma hipoteca) é uma via para nos mostrar a Itália sulista profunda, plena de códigos, tradições e de um peso de chumbo que impregna a atmosfera. Há uma noiva - viúva antes do tempo que encarna essa atmosfera.
O outro conto, "O anel", arrebatou-me mesmo. O ambiente é o mesmo, e estamos perantes vários conhecidos que se juntam a um domingo na praça da terra. Todos, com excepção de um, labutam por pouca recompensa. O outro trafica droga para um chefe mafioso. O domingo decorre na modorra densa que impregna o livro até que somos confrontados com a inevitabilidade dos códigos mafiosos. A descrição que começa com a chegada de dois individuos aramados e drogados, a perseguição que se segue, e o desfecho com a inevitável lei do silêncio é muito cinematográfica mas excelente.
Acabei o dia a ver o filme.

domingo, 5 de julho de 2009

O RISO AMARGO




Senti-me repartido ao acabar de ler este livro. Terrivelmente divertido. Comicamente incómodo. O autor fez-me rir mas rapidamente fez com que o riso se tornasse muito amargo.

Com um ritmo preciso e meticuloso, uma escrita eficaz, Adiga traça o retrato radical, absurdo e doloroso de uma Índia contraditória, miserável, tradicionalista, avançada tecnologicamente, progredindo às cavalitas do capitalismo ultra-liberal assente na corrupção a níveis quase impensáveis.

O protagonista é um escroque que sobe da miséria absoluta a pequeno empresário através da sabujice, do assassínio, da corrupção, e que se orgulha dos seus crimes e da sua miséria moral.

A estratégia é divertida e foi utilizada de forma superior por Hazek com o seu valente soldado Shweik. Mas aí, o que nos fazia identificar-nos com o soldado era a sua humanidade e o facto de dirigir todas as suas “maldades” contra o poder. Aqui, e ao contrário do que diz a propaganda (ou alguma crítica) não cheguei a experimentar qualquer simpatia pelo protagonista. É repelente desde o início. E o livro acaba por ser uma espécie de hino inverso à repelência.

Simultaneamente vi o filme “Quem quer ser bilionário” que dá uma ideia semelhante da Índia actual. Violência e miséria em todos os sentidos.

A diferença é que no filme há uma humanidade que ressalta de vários personagens (chamem-lhe demagogia, se quiserem, mas é humanidade) . Aqui não. Não há saída. E, o que mais me incomoda, fica uma suspeita de que o autor o escreveu numa estratégia em que se coloca a si própria num degrau acima da podridão do mundo. E assim, através da descrição obsessiva da miséria está a vender-se a si próprio como figura intocável. Boa para receber prémios… estarei a ser injusto?

Este é o primeiro livro de Aravind Adiga e a escrita é uma maratona. Vamos ver, daqui a 10 ou 15 “kilómetros”, onde é que ele andará.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

UMA CORÇA EM FUGA




A Quetzal acaba de publicar uma obra póstuma de Cabrera Infante (1929-2005), “A Ninfa Inconstante”. Neste livro, Cabrera Infante, um dos mais notáveis escritores cubanos, a viver na Europa desde 1965/1966, recria, por um exercício de memória, a Havana da sua juventude, onde circulariam as personagens da sua história. A história de uma jovem, muito jovem, e de um jornalista e crítico cinematográfico, não tão jovem. Uma história que tanto pode ser considerada como um romance, uma novela ou um conto comprido – o que, em última instância, não tem importância de maior.
Um texto atravessado pela emoção, muito bem construído, pleno de referências, de remetências, para a coisa literária, cinematográfica ou musical, o que lhe confere uma forte densidade cultural e humana.
Um texto armadilhado pelos múltiplos sentidos que os léxicos (e as suas decomposições e recomposições) vão adquirindo, numa permanente reinvenção da linguagem, que o aproxima do James Joyce das últimas fases. O que equivale a dizer que estamos perante um texto passível de diferentes interpretações e, consequentemente, de difícil tradução. Dificuldade de que se saiu brilhantemente Salvato Telles de Menezes, que realizou um excelente trabalho, que dignifica a tradução que se faz em Portugal (por vezes, tão mal tratada).
Vejamos alguns exemplos:

“Esta Estelita – Estela, Estelita, a moça, a jovem corça permanentemente em fuga, por quem o jornalista se apaixona – Estalactite, Estalagmite: a sua cova súcubo, de entrada íncubo, antes arrepio, arrepiante, espelunca nunca. Imagina vagina. Porque ela é impúbere, púbere. Púbis. Ver virilhas e motivo do V: V de virgem mas também de virago, ver efígie no verão emotivo do V. Há em todas as mulheres um triângulo. Pode formá-lo com dois homens. Mas tem de ser adulta para ser adúltera.”

Ou, ainda:

“- Dizem que vai chover.
Sorri.
- Dizem que vou ver.
Aproximei-me das persianas.
- Persicum malum ou talvez bonum? Tudo depende de quem olha.
- E isso tem a ver com quê?
- Com nada, é claro.
- Sabes uma coisa, às vezes penso que não estás muito bom da cabeça.”

Ou:

…“nessa árvore nasciam sumaúmas, falsas orquídeas, que armazenavam água. Alma zenavam…
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Trocámos aquele olhar vermelho de que fala Guidemo Passant. Guido de Maupassant. Guillermo que passa…
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… entrei no cinema Rodi. Estúpido nome. O dono chamar-se-ia Romero Diaz? Ou Rodrigo Diaz? Dessas cavilações tirou-me o filme, que era “A Mulher Fatal.”

A intensidade amorosa do nosso herói jornalista (que conta a história na primeira pessoa) vai esmorecendo. Esmorecendo como nos diz o bolero:

“Estelita, como um bolero na moda, nunca se deixou levar às boas. O bolero continua: ‘É por isso que te amo tanto’. Mas eu não a amo: amei-a e não creio que fosse sequer isso”.

Os trocadilhos, as associações livres constituem o suporte de um ambiente em que o humor dá lugar à paródia e gera um clima de tensão, imprescindível ao desenrolar da trama – em crescendo progressivo.
Em suma, estamos perante um texto que nos dá a conhecer uma das obras mais inovadoras da actual literatura cubana e que, por via da tradução de Salvato Telles de Menezes, vem enriquecer a língua portuguesa.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Leite Derramado



"Mas se com a idade a gente dá para repetir certas histórias, não é por demência senil, é porque certas histórias não param de acontecer em nós até ao fim da vida."
Chico Buarque convida-nos a entrar num quarto de um hospital onde um homem conta a uma mulher inexistente o seu passado, conta a degradação da sua vida, da sua família desde o tetra-avô ao tetra-neto. Por vezes a história repete-se, da forma como ele imagina alguns factos que desconhece, ou talvez não, talvez os queira acreditar assim. Os ouvintes, além de nós, são diversificados, desde dessa mulher, talvez uma enfermeira, até às pessoas que passam no corredor do hospital onde ele foi desterrado. Uma filha e um bisneto ajuda-o a queimar os poucos rendimentos e bens que lhe restam. O homem acaba numa favela a morar antes da queda que o faz ficar acamado numa casa de saúde (hospital).
Mas o melhor está na escrita de Chico Buarque que nos faz devorar este livro, cada palavra, cada frase. O facto de se colocar na cabeça de um homem idoso acamado que narra repetidamente as suas várias histórias de vida e um amor interrompido é um pretexto para a expressão da sua escrita da sua poética. Não é a primeira vez que Chico Buarque nos coloca perante uma personagem que teve um passado glorioso e um presente decadente, assim foi em "Budapeste", e no "Estorvo". Parece ser essa a sua generosidade literária, capaz de se meter na cabeça do homem que cai, dos outros, uma espécie de imagem de marca que de resto é coerente com as suas canções. Sente-se também alguma sátira, pelos rituais sociais, pela corrupção política. Depois há todo um conjunto de acontecimentos, intrigas, problemas que são bem cozinhados e com o tempero certo, que saboroso estava este livro.
Creio mesmo que este livro é mais uma das belas canções de Chico Buarque, a mais bela canção, a mais bela opera. Este romance fica para sempre na memória de quem o lê. Pelo menos eu,acho que só vou esquecer quando ficar senil, ou talvez não, ficará o romance também no meu corpo, porque por vezes senti um arrepio a lê-lo.

domingo, 28 de junho de 2009

MENINA OLÍMPIA E SUA CRIADA BELARMINA





Menina Olímpia e a sua criada Belarmina é um conto de José Régio, publicado nos anos quarenta e inserido em livro seu intitulado "Contos". É uma história portuense, que descreve as andanças da Menina Olímpia pelas ruas da cidade, seguida de perto pela criada Belarmina. Figuras características do Porto em finais dos anos trinta, inícios dos quarenta, que eu ainda conheci, na minha meninice. A Menina Olímpia vestia espalhafatosamente, roupagens de outras épocas, eivadas de rendas, de folhinhos, de tafetás, de peles que teriam pertencido a alguma raposa. Verão e Inverno, quase as mesmas indumentárias, usadíssimas, quase esfarrapadas, de cores que tinham sido berrantes. Uma demonstração pública do seu desequilibro mental e da sua decadência social - o "espantalho" dos garotos que a seguiam a distância. A criada, essa, quase mendiga.
E a propósito dessas figuras, Régio faz-nos percorrer ruas, largos e praças do burgo comercial (e residencial), faz-nos, inclusivamente, entrar numa "ilha" portuense - pessoas, hábitos e falas. Para mim, portuense que sou, o conto tem em encanto especial, pela revivescência de uma época, por esse encontro com um passado longínquo. Mas, para além desse encanto, também me causou um certo mal-estar: o texto é extremamente datado. Esse texto e os restantes que constituem o livrinho, em que se insere. Esteticamente, pertencem a outra época, mais perto de Camilo Castelo Branco (escritor maior da cidade do Porto), do que das literaturas do nosso tempo. E esta constatação fez-me reler parte da poesia de José Régio e alguns dos seus ensaios, como o "António Boto e o Amor". E surpreendi-me por não encontrar, neles, a mesma "patine" do tempo. Será porque o Régio é um contista menor, se comparamos os seus contos com a sua obra poética, ensaística ou dramatúrgica? Não creio que esta seja a explicação, mas, sim, uma outra: se todos os géneros literários evoluiram rapidamente nos últimos sessenta, setenta anos, aquele cuja evolução é mais acentuada é, sem dúvida, o da narrativa ficcional. E por uma razão que se me afigura clara: é o género que melhor expressa o nosso viver quotidiano, feito de comportamentos, de atitudes, de valores. É, pois, o género que nos dá a dimensão da nossa actualidade. Se assim é, não será a "velhice" do texto literário que está em causa, mas, sim, a nossa falta de capacidade para sairmos da "modernidade" em que nos situamos, ou seja, a nossa incapacidade de aderirmos a algo que já não é do nosso tempo. E isso é mais notório na narrativa ficcional, romanesca, do que no texto poético, pela proximidade da primeira com a "narração" que nós, constantemente, elaboramos (pelo menos, para nós próprios) da nossa vida quotidiana.

De um modo ou de outro, o melhor será, cada um de nós, concluir por si próprio da justeza das questões que formulo, lendo o livro de José Régio, que se encontra disponível em edição das Publicações Europa-América.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Diário de Um Velho Louco



Junichiro Tanizaki fala-nos disso mesmo. Um velho em decadência física muito perto da morte que se apaixona pela sua nora. Por parte de toda a família existe sempre um julgamento moral das atitudes do velho ou da nora. Censurado mas com a autoridade de quem é velho, ele segue o seu desejo até onde pode. Fala-nos da ideia de belo ligado à crueldade, à maledicência. Por outro lado a descrição da degradação física do velho é qualquer coisa de triste mas belo. Junichiro Tanizaki não nos dá tréguas neste livro.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

O MUNDO FABULOSO DE CRISTINA FERNÁNDEZ CUBAS




As edições Tusquets, de Barcelona, publicaram recentemente uma obra de Cristina Fernández Cubas, “Todos los cuentos”. É uma obra notável, que agrupa cinco livros da autora, com um total de vinte contos. Cinco livros, um panorama do universo contístico de Cristina Fernández Cubas, em que a sociedade espanhola contemporânea é caracterizada sob múltiplos aspectos, nomeadamente através de figuras femininas que são o eixo central de quase todos os seus contos. Personagens femininas magistralmente enquadradas na estrutura da história, a sobreporem-se às masculinas, reduzidas a uma função contrapontística, a valorizarem o apuro emocional, sentimental, das mulheres. E, o que é curioso (e talvez sintomático), as figuras masculinas mais conseguidas têm um toque de feminilidade, que, embora as não efeminize, as aproximam do que é essencial ao universo feminino. E surge a eterna questão: só os escritores de um determinado sexo é que “sabem” escrever sobre personagens do seu sexo? A questão posta nestes termos parece ter uma resposta óbvia, mas, na verdade, não é assim, tantos são os casos em que esta suposição não se confirma.
Os contos de Cristina Fernández Cubas, construídos à volta de figuras femininas, têm, quase sempre, uma forte dimensão social, pois, através deles, temos acesso a múltiplos “cenários do quotidiano, perfeitamente reconhecíveis, nos quais” – diz a autora – “no momento mais imprevisto, aparece um elemento perturbador”. Elemento que confere uma intensidade narrática, em que o insólito, o oculto, o obsessional, passam a desempenhar um papel primordial no desenrolar da acção.
Se a maior parte dos contos tem como cenário o jogo de emoções, de sentires, de fazeres, de personagens integradas na sociedade espanhola, alguns há que se centram à volta de personagens femininas a viver, episodicamente, em meios, em países distintos. Quando assim acontece, a acutilância, a finura de caracterização psicológica dessas personagens ainda se torna mais evidente.
As limitações de um blogue não me permitem uma análise minuciosa dos 20 contos, que ocupam 500 páginas, por isso, limitar-me-ei a citar dois deles, “Ausencia” e “El moscardón”. No primeiro, relata-se a vida de uma freira, que, ainda menina, entrou num convento e dele não mais saiu. Descrição espantosa, a denotar um grande conhecimento da vida conventual e uma sensibilidade apuradíssima das relações que um universo concentracionário engendra. No outro, “El moscardón”, mergulhamos no ambiente sufocante da casa de uma velha senhora, que teima em viver sozinha e vai sofrendo um processo de deterioração psicológica, em perda crescente da função do real. Um conto que é um requiem por todos nós, os que caminhamos para um fim, que tem tanto de próximo como de evidente.
Releio o que acabo de escrever e surge-me uma dúvida: ficará o leitor com a ideia de que os contos de Cristina Fernández Cubas constituem outras tantas tragédias? Não, de modo algum: são textos plenos de vida, em que o humor e a simpatia por tudo o que ao humano respeita têm um lugar central. Contos vertidos numa linguagem de grande precisão e rigor, que nos fazem sentir mais lúcidos, mais dignos.
E, uma vez mais, faço um apelo aos nossos editores: publiquem, difundam, obras tão admiráveis quanto esta.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Por Quem os Sinos Dobram


Para que serve ler um livro? Para que serve ler um livro se podemos conhecer a sua história através do filme, por exemplo? Para que serve ler um livro se podemos situar o livro na nossa biblioteca interior e conseguirmos falar dele?
Não me interessa falar do livro que li, interessa-me antes ter o privilégio de passar pela experiência do o ler, porque o livro é mais do que a história contada. É uma experiência virtual. Para isso é necessário sentir o pulsar do livro, compreender a poética do livro, saborear as palavras, os momentos, como quem saboreia uma excelente refeição.
Foi o que me aconteceu com este livro de Ernest Hemingway. Tive a sensação de comer algumas palavra. Por vezes não sabia se estava a ler um poema, ou um romance. Acho que essa é a principal razão de ler: Quando estamos a ler um livro assim, estamos a ter uma vivência única, não só estética, não só literária, mas também amorosa. Amamos as personagens e ouvimos tudo o que nos dizem, o que pensam, como agem. Se não for assim, não vale a pena ler. É sentir o pulsar do livro, a sua respiração.
É fácil, compreensível e simples a história do livro, acessível, acho eu. Os dilemas são complexos. Muito complexos, fazem-nos pensar, fazem-nos pensar em muitas coisas. Depois existe esta capacidade narrativa e poética do autor que nos faz estremecer a todos os momentos e até chorar.
Sei que qualquer leitor experiente já leu este livro. Aos outros, como eu que são leitores amadores, recomendo vivamente a leitura. Recomendo viajar por este livro.

sábado, 6 de junho de 2009

QUANTOS LIVROS JÁ LEU?



Umberto eco e Pierre Bayard (autor de "Como falar dos livros que não li?") encontraram-se num debate público em Nova York. O Magazine Littéraire de Junho publica um resumo da conversa entre os dois. Uma delícia.

A certa altura, Umberto Eco conta que, tendo cerca de 50.000 livros, 30.000 dos quais no seu apartamento em Milão, que de vez enquanto recebe a visita de algum imbecil que lhe pergunta: "Quantos livros já leu? Todos os que aqui tem?". Para esta pergunta tem três respostas possíveis:

1. "Já li muitos mais, caro senhor, muitos mais."

2. "Nenhum. Porque é que julgo que eu os guardo?"

3. "Nenhum. Os que lá li enviei-os para a Biblioteca Municipal. Estes são para ler para a semana."

Pierre Bayard acrescenta uma quarta hipótese de resposta:

4. "Não os li mas vivo com eles."

A conversa integral está em :

http://fora.tv/2007/11/17/Bayard_and_Eco_How_to_Talk_About_Books_You_Havent_Read



(Umkberto Eco)




quinta-feira, 4 de junho de 2009

BANALIDADE, COINCIDÊNCIA E ALUCINAÇÃO NA ESCRITA DE BERNARDO CARVALHO



Bernardo Carvalho é um dos escritores brasileiros mais badalados (e premiados) dos últimos anos. O que dele tinha lido, no entanto, não me havia entusiasmado. Por isso, hesitei em comprar o seu livro de contos, "Aberração", editado pela Cotovia. Mas não me arrependi. É uma obra notável, pela diversidade das histórias, pela linguagem em que são escritas - linguagem despida de ornatos, directa, com uma fluência e leveza que só a dimensão coloquial da fala pode conferir ao texto. Histórias diversas, ligadas - subterraneamente - por duas características: a coincidência e a alucinação. Coincidência de encontros, de descobertas, que tornam claro o que era nebuloso - ou nem sequer existia. Histórias centradas em situações do quotidiano, que têm tanto de óbvio, como de alienatório. E com uma técnica de construção que não é vulgar na ficção literária, pois costuma ser específica da obra cinematográfica: a acção não se desenvolve linearmente, mas decorre de diferentes situações, em que evoluem personagens diferentes, aparentemente sem relação entre si, mas que vão convergindo para uma mesma acção, cujo significado só se torna evidente no desfecho final.Em suma, uma prosa limpa, desocultadora do que se esconde nos actos mais simples da nossa vida - da nossa vida sem história - e que só adquirem sentido ao serem recriados pela mão de um escritor que não teme a inovação.

terça-feira, 2 de junho de 2009

A ESCRITA OU A VIDA


Morei neste livro durante 20 dias. Li-o, reli-o. Andei para a trás e para a frente. Sublinhei. Parei. Reflecti. Escrevi à margem.

Levei anos a ganhar coragem para o ler. Sabia que tratava da terrível experiência de dois anos de Semprún no campo de concentração nazi de Buchenwald. Adiei várias vezes confrontar-me com o relato dessa dor absoluta.

Até que chegou o dia. E logo à primeira página fui agarrado pela escrita brilhante, pela narração por vezes insuportável das memórias de Buchenwald, pela brilhante capacidade do autor de inter-relacionar uma diversidade de tempos

O autor começa por se interrogar como poderá explicar em palavras o cheiro a carne humana que saía das chaminés dos crematórios e que pairava permanentemente sobre os internados em Buchewald.

Assim, o livro não é exactamente sobre a experiência de Buchenwald mas sim sobre a escrita e a dificuldade de encontrar palavras que possam descrever um tamanho mergulho no inferno. Que palavras podem explicar a vivência do mal absoluto.

Mas o livro vai ainda além disto. Fala-nos sobre a morte e a capacidade que a escrita tem para a afastar e exorcizar ou, pelo contrário, mantê-la agarrada à pele do escritor.

Fala-nos ainda do tempo. O tempo da juventude e o tempo da maturidade. E ainda do reencontro com a juventude. Foi-me particularmente fantástica a leitura do episódio em que Semprún regressa a Buchewald com os netos e fica como que paralisado pelo regresso ao espaço onde foi jovem e onde alguma esperança, algum futuro era possível

Semprún mistura narrativas simples, reflexões pessoais, angústias, memórias, encontros com o fascínio da poesia de Celan ou de René Char, com a figura e a escrita de primo Levi, ou ainda com os conceitos de Wittgenstein sobre o mal e a liberdade.

Acima de tudo, Semprún domina com particularmente brilhantismo o uso do tempo narrativo. Pára a narrativa num momento para andar para trás ou para a frente, intercepta tempos, memórias, recordações e cria um puzzle que permite também ser usado pelo próprio leitor como matriz do olhar sobre a sua própria vida.

Creio que a literatura atinge o seu grau mais fundo quando nos atinge no centro das nossas inquietações e nos obriga interrogarmo-nos e a revermo-nos nesse fantástico e terrível jogo de espelhos que são as palavras levadas para além de todas as circunstâncias.

domingo, 31 de maio de 2009

"HISTÓRIAS DE AMOR" de JOSÉ CARDOSO PIRES




Bela escrita. Seca, dura, curta, eficaz. Segundo livro de José Cardoso Pires poribido pela censura depois de cortes inomináveis. Já aqui está presente o que fará a raiz de uma das mais belas aventuras da literatura em língua portuguesa, que viria a ter os momentos maiores em livros como “O delfim” ou “Alexandra Alpha.”

É óbvia a influência de uma certa literatura americana, sobretudo dos melhores escritores de short stories. A visualidade a dever muito ao cinema, a contenção a dar espaço ao leitor para completar a cena e desenvencilhar-se das ambiguidades cuidadosamente deixadas a pairar.

Curioso como a escrita nos situa nos anos 50 e na forma de respirar e falar desse tempo. Particularmente nos diálogos, nos gestos, nos movimentos, talvez até no discorrer do tempo da acção. Lembro-me desta forma de falar dos homens, das mulheres dos amantes. Já não a minha. Mas a que eu via/ouvia aos mais velhos e depois no cinema português da época.

São estes recantos da escrita que fazem da literatura um instrumento notável para estudarmos os anos idos e as suas pequenas histórias que são as que realmente constroem a grande História.

Curioso ainda ver o que preocupava os homens da censura nesta edição que mostra os cortes impostos pelo lápis azul. São a prova de que este país era, mais do que um estado policial, um mundo de pobreza humana, mediocridade e pequenez moral e estética.

Por fim, é muito curioso e muito próprio de Cardoso Pires a asa que, de repente, baixa sobre a dureza da posa e lhe abre uma inesperada dimensão poética, conferindo a alguns dos seus contos uma grandeza única.

Histórias de Vida e A Vida das Histórias


Não sei se recordam um programa na RDP Antena 1 onde o Miguel Guilherme apresentava um conjunto de histórias escritas por ouvintes. Penso que o programa se chamava Histórias de Vida. As edições eterógemeas resolveram editar algumas das histórias de vida num livro que se chama "A Vida das Histórias" com ilustração de Gémeo Luís. As pequenas histórias são muito interessantes, atractivas e bem escritas (pelo menos amarram o leitor ao livro). Nas 28 histórias apenas uma que não li com entusiasmo. As outras deixaram-me sempre, alternadamente, com um sorriso nos lábios ou uma lágrima no olho. Acho que é isso que importa, os livros fazerem-nos viver. Sei que muitos dos leitores deste blogue, são profundos leitores, sei também que se podem aborrecer com os meus posts que são um pouco aligeirados. Mas a única coisa que me resta a minha honestidade e ela obriga-me dizer que fiquei encantado com este livro de escritores amadores. Ainda por cima é ilustrada pelo alguém que tanto admiro. Gémeo Luís amplia toda a afectividade que estes escritores revelam.

sábado, 30 de maio de 2009

ANTÓNIO BOTTO, O ESTETA PERFEITO


A senhora que trabalha em nossa casa resolve, de vez em quando, parar com os seus afazeres habituais e dedicar-se à “arrumação” dos meus livros. Segundo dois critérios, consoante as situações: se os livros estiverem postos ao alto na prateleira, passarão imediatamente a ficar “arrumados” pelas suas alturas; se os livros estiverem simplesmente empilhados, continuarão a ficar numa pilha, mas segundo as suas espessuras.
Por mais que lhe peça, que lhe ordene, pouco ou nada consigo: “Custa-me tanto ver as coisas todas desarrumadas…” Ultimamente, já nada digo, até porque aquelas “arrumações” trazem, por vezes, surpresas agradáveis: obras esquecidas, sepultadas no meio de tantas outras, acabam por voltar a ver a luz do dia, a exigir que eu as leia, que lhes dê uma nova existência.
Foi o que aconteceu esta semana: inesperadamente, encontrei, no cimo de um monte de livros, uma obra de Fernando Pessoa, Aviso por Causa da Moral (Hiena Editora), que contém um ensaio que ficou célebre na história da literatura portuguesa: “António Botto e o Ideal Estético em Portugal”. Como tinha outros textos para ler, deixei o Pessoa e o Botto para leitura posterior e desci para o andar de baixo. Mas, mal acabara de chegar ao piso inferior, deparei com outra estante com sinais evidentes de “arrumação” recente. A curiosidade fez-me parar, espreitar o que ali haveria de “novo”. À frente de todos, um livro de José Régio, António Botto e o Amor! Como a minha empregada não é versada na coisa literária e como não acredito no acaso, só me restava uma alternativa: sujeitar-me ao que os deuses estavam a exigir de mim. Voltei ao andar de cima, peguei no livro do Pessoa, juntei-lhe o livro do Régio e fui para a sala, a folheá-los, a tentar perceber por onde tinham andado naqueles anos todos. Mistério maior, o da obra do Régio: era uma edição de 1937, publicada pela Livraria Progredior, do Porto (casa há muito desaparecida). Na primeira folha, o meu nome e uma data: Setembro de 1949, o mês em que fiz 16 anos. E ressurgiu-me o passado e as circunstâncias que me levaram à aquisição do livro: naquelas férias, eu tinha lido As Canções de António Botto (edição da Livraria Bertrand) e tinha ficado maravilhado (como se pode ficar aos 16 anos!) com a sua poesia.
E, como não podemos fugir ao que os deuses nos determinam, tenho, desde esse momento, lido e relido As Canções, o ensaio de José Régio, As Páginas de Doutrina Estética de Fernando Pessoa (Editorial Inquérito). Lido, sim, e revivido as emoções que a poesia de António Botto sempre me havia suscitado.
As Canções de António Botto é uma obra ímpar na literatura portuguesa, na qual se agrupam (em versão definitiva) os diversos livros que o autor foi publicando nas primeiras décadas do século XX.
A obra inicia-se com um texto de Fernando Pessoa, de que transcrevo uma parte:

A noção de beleza masculina, é de todos os elementos do ideal estético, aquele que mais pode servir de arma contra a opressão do nosso ambiente; daí servir-se António Botto dela com uma constância e uma persistência que há não só que compreender, mas que louvar. António Botto é um esteta grego nascido num exílio longínquo. Ama a Pátria pérfida com a devoção violenta de quem não poderá voltar a ela.

Pessoa é o primeiro a chamar a atenção para a poesia de António Botto, ao publicar, em 1922, o artigo já referido. Por sua vez, José Régio, na obra citada (1937), organiza os textos que lhe havia dedicado, nos quais escreve:

António Botto é acima de tudo um voluptuoso e um intelectual. O seu intelectualismo é tanto mais real, tanto mais fundo, quanto se revela verdadeiramente individualizado; e quanto se desenvolveu, não, como em tantos outros, ao contacto dos livros, mas ao contacto da vida.

Se cito estes dois autores, Pessoa e Régio, e respectivas datas dos seus ensaios críticos, pretendo fundamentalmente duas coisas: mostrar a importância que António Botto teve na nossa poesia na primeira metade do século XX; chamar a atenção para a novidade radical da sua poesia, motivo de escândalo para a sociedade do seu tempo, como se pode comprovar com o panfleto que estudantes de Lisboa fizeram circular, em 1923, pedindo a proibição e a apreensão dos seus livros. Vejamos alguns exemplos dessa “imoralidade” que tanta mossa fez ao “provincianismo mental português”:

Quem é que abraça o meu corpo
Na penumbra do meu leito?
Quem é que beija o meu rosto,
Quem é que morde o meu peito?
Quem é que fala da morte
Docemente ao meu ouvido?
- És tu, senhor dos meus olhos,
E sempre no meu sentido.

Este é um dos textos do primeiro livro de As Canções (“Adolescente”), em que António Botto expressa, em toda a sua plenitude, o amor pelo “senhor dos meus olhos”. Vejamos outro poema do mesmo livro:

Anda, vem…, porque te negas,
Carne morena, toda perfume?
Porque te calas,
Porque esmoreces,
Boca vermelha, – rosa de lume?

Se a luz do dia
Te cobre de pejo,
Esperemos a noite presos num beijo.

Dá-me o infinito gozo
De contigo adormecer
Devagarinho, sentindo
O aroma e o calor
Da tua carne, meu amor!

E ouve, mancebo alado:
Entrega-te, sê contente!
- Nem todo o prazer
Tem vileza ou tem pecado!

Anda, vem!... Dá-me o teu corpo
Em troca dos meus desejos…
Tenho saudades da vida!
Tenho sede dos teus beijos!

Esta paixão, este desejo de “Adolescente” vai-se alterando ao longo do tempo, como se poderá constatar pelo livro Dandysmo, de que transcrevemos um poema:

Na última carta
Chamavas-me decadente;
E eu achei graça,
Fez-me rir
A tua carta

Quiseste insultar-me,
E afinal,
Conseguiste ser gentil.

Os homens
- Ou os povos;
Saturados
De tudo compreenderem,
Decaem
Quando preferem
Ao gosto austero de criar,
O estéril
E fino deleite
De contemplar o que está feito.

Esta evolução acentua-se ao longo dos livros que compõem As Canções, para assumir uma forma muito própria – a perda, a saudade – no último livro, Toda a Vida, de que é exemplo este poema:

É tamanho o meu medo de perder-te
Que penso que te perco a cada passo.
- Se te perdesse, em verdade,
Iria perguntar
Ao mistério da saudade:
E agora, o que é que eu faço?!

Talvez me respondesse: Espera, qualquer dia
Há-de voltar se o seu amor não mente;
- Mas quando a gente gosta não confia
Nem se humilha a esperar e a ser ausente

E, no último poema desse livro, a despedida, a saudade (sempre a saudade), a morte e, no final, um toque de ironia, a admirável ironia que atravessa muita da sua poesia.

Tanta carta a falar do nosso amor,
Tanta coisa que morre e nem nos deixa
Sequer um vago som de simpatia?

O que eu chorei quando esta recebi,
Esta que diz: “Não volto a procurar-te”.
E atrás de ti segui por toda a parte,
Até que te encontrei; e ardentemente
Voltámos à loucura que findou.

Como é que a gente pode mudar tanto
Sem sentir pela hora que passou
- Por essa hora linda de prazer,
Uma saudade, um pormenor qualquer:
- Ficarmos alheiados ou suspensos, -
Uma tristeza, uma tremura, um ai
Que nasce e vai morrer lá onde a realidade
Começa e não acaba e nunca expira?...

Não leias êstes versos. Tudo isto,
Tudo isto, afinal, é só mentira

António Botto, considerado no seu tempo, como um “poeta maldito”, assume, hoje, um lugar cimeiro na história da poesia portuguesa: um dos seus maiores líricos e, no dizer de Fernando Pessoa, o seu único esteta.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

"MANHÃ SUBMERSA", UMA RELEITURA




Muitos foram os escritores que, ao longo do século XX, foram considerados estrelas de primeira grandeza, destinadas a brilhar até ao fim dos tempos. Mas quantos, quais, ficarão na história da literatura portuguesa? Poucos, de certeza. E entre esses poucos não poderá deixar de estar o Vergílio Ferreira. Obras corno "Alegria Breve", "Aparição" ou "Manhã Submersa" dificilmente poderão ser afectadas pela erosão do tempo. E por várias razões: pela perfeição da escrita, pela força dos temas que lhes conferem estrutura, pela universalidade dos sentimentos, das emoções das personagens. E, talvez acima de tudo, pela dramaticidade das histórias que nos contam.
Estas considerações decorrem da releitura que acabo de fazer da "Manhã Submersa". Li a obra pela primeira vez há cerca de cinquenta anos. Reli-a há uns trinta, para, agora, voltar a lê-la. Sempre com prazer, sempre com espanto. Fundamentalmente pelo modo corno Vergílio Ferreira caracteriza situações, personagens, ambientes sociais - sentidos, sofridos no corpo e na alma de um menino pobre de uma aldeia beirã, que é enviado para o seminário, mercê do auxílio que lhe presta a senhora rica - viúva e beata - da aldeia, que quer fazer dele um ministro de Deus. A acção decorre nos três cenários distintos em que o jovem se move: o seminário; a pobreza da casa da sua família; a casa da família rica que o protege. Sempre com referências aos ambientes naturais em que se inserem. Mas, para além destes elementos de ordem objectiva, existe um outro, de natureza subjectiva, que estrutura e dá sentido à história: a vida interior do jovem seminarista - as suas emoções, os seus sentimentos, a teia de intimidades, de cumplicidades em que se vai envolvendo. Este é, em última instância, o verdadeiro cenário em que tudo acontece. E é essa dimensão que confere à obra um lugar muito especial na literatura portuguesa que tem a infância, a juventude, como tema. Não só na nossa literatura, como na literatura europeia do século XX. Ora, foi exactamente esse aspecto que foi ganhando relevo ao longo da releitura que acabo de fazer. Na verdade, eu, como professor que sou, sempre dera primazia à caracterização das pessoas e das situações da instituição educativa em que o jovem se inseria. Ou seja, sempre valorizara o aspecto objectivo em detrimento do subjectivo. E tinha boas razões para tal: a "Manhã Submersa" constitui um testemunho da maior importância para a História da Educação em Portugal. O ambiente, o dia-a-dia dos alunos naquele seminário do Portugal profundo dos anos vinte, é algo que nenhum professor (e nenhum cidadão) pode esquecer, pois representa uma parte importante da nossa história contemporânea: foi nessas instituições de ensino que se forjou a mentalidade de muitos dos que detiveram o poder na nossa sociedade. A violência, a arbitrariedade, os métodos de ensino e os que tinham como finalidade moldar o carácter dos jovens são magistralmente descritos por Vergílio Ferreira. Atente-se, por exemplo, na descrição das aulas de latim, assentes na competição (a mais feroz das competições) entre os dois "partidos" em que se dividiam os alunos. Verdadeiras guerras do saber (e do estar), fomentadas pela instituição escolar, nas quais se podem detectar todos os elementos constitutivos da escola e do ensino tradicional: predomínio do saber sobre o ser; valorização da memória em detrimento do raciocínio; hierarquização e disciplinarização nas relações professor-aluno, aluno-aluno; formalização do acto educativo; e, acima de tudo, competição. Competição terrível, em que os mais fortes têm todos os direitos, inclusivamente o de passar por cima do cadáver dos vencidos.
Enfim, algo de longínquo, sepultado nas cinzas da nossa história recente? Talvez sim, talvez não. Em última instância, compete a cada um de nós determinar onde se situa: no passado, onde se passa esta história, ou no tempo presente, em que se vive, sente e pensa de um modo “diferente”? Às vezes, talvez nos dois, em simultâneo...

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Beethoven era 1/16 Negro



"The past is valid only in relation to whether the present recognises it"

"Beethoven was One-Sixteenth Black"
Nadine Gordimer

Beethoven era 1/16 Negro é, segundo entendo, a mais recente colectânea de contos da escritora sul-africana, Nadine Gordimer, Prémio Nobel da Literatura de 1991. A qualidade excepcional dos contos dessa colectânea é bastante homogénea e tem como denominador comum a exploração narrativa do reflexo que os desenvovimentos históricos têm na história pessoal dos personagens e de seus antepassados. Esta interacção entre a história colectiva e a história individual é particularmente pungente num país que atravessa profundas transformações e que procura encontrar uma nova identitidade nacional num mundo onde esta marca distinta dos povos está a ser continuamente erodida pelos mecanismos da globalização e da uniformização cultural. Num país onde a atribuição de uma putativa ascendência negra para Beethoven é a fórmula encontrada pelo locutor branco da rádio para justificar a emissão das obras do compositor, em particular, os Quarteto de Cordas, no. 13, op. 130 e no. 16, opus 135. Reflexos de uma recém forjada ideologia baseada no antagonismo automático ao passado:

"Antes havia negros que queriam ser brancos.
Agora há brancos que querem ser negros.
É o mesmo segredo."


E no contexto desta complexa dinâmica, Nadine Gordimer, explora os grandes eixos existencias ao tratar de temas como os da raça, identidade, memória, amor e sexualidade, demonstrando, por vezes de forma extremamente subtil, que nunca estamos libertos do passado. E a realçar a profundidade da análise há uma escrita de grande elegância, na qual as palavras sucedem-se umas às outras com uma precisão matemática, e cujo resultado é uma mosaico particularmente rico de vivências e, acima de tudo, profundamente humano e comovente. Pois há de tudo nesta colectânea: as paradoxos intelectuais de um sonho que envolve Susan Sontag e outros artistas a conversar num restaurante chinês; um escritor, esteticamente próximo de Proust e Kafka, às voltas com um insecto (Gregor) real-imaginário no ecrã da sua máquina de escrever eléctrica; o complexo processo de adaptação por que passam os que vêm de Europa para a África do Sul contemporânea; a história das habilidades linguísticas de um papagaio que durante décadas reproduzia as disputas e conversas amorosas dos clientes em um restaurante; e por fim, três hipóteses para um epílogo envolvendo os sentidos da visão, da audição e do olfato.

Uma última reflexão. Pessoalmente, não posso evitar a associação de Nadine Gordimer com outro escritor sul-africano que eu muito aprecio e admiro, John Coetzee, Prémio Nobel de Literatura de 2003. Têm em comum a elegância, a precisão e a economia de seus estilos. Ambos exploram temas que invarialmente têm como foco as contradicções, a violência e as profundas transformações do seu país natal. Mas há, a meu ver, pelo menos uma diferença fundamental: Coetzee apresenta-nos uma visão da realidade marcadamente masculina, em perfeita complementaridade com a ultra subtil perspicácia feminina de Gordimer.


Orfeu B.


sábado, 16 de maio de 2009

JORGE DE SENA NO CENTRO DA POLÉMICA LITERÁRIA



De Jorge de Sena, uma das figuras mais emblemáticas das letras portuguesas, na segunda metade do século XX, acaba de ser publicado um livro, “Sobre Teoria e Prática Literária” (edição da Caixotim), que compila muitos dos seus textos sobre estas matérias. Textos geralmente de pequena dimensão, quase todos inéditos. Os temas abordados são múltiplos, guardando, quase todos, uma actualidade impressionante. A acutilância e a limpidez da linguagem, a frontalidade das posições assumidas e a originalidade de perspectivas são razões suplementares para lermos, e relermos, esta obra.
De entre os textos que a constituem, quero destacar os seguintes:

Acerca de diversas formas de escrita, em que são analisados diversos aspectos e problemas que se põem ao crítico literário.
Sobre traduções, breve notas, matéria em que Jorge de Sena é especialista. Notas breves, sim, mas a reflectirem as suas preocupações sobre as peculiaridades, o valor e o papel social das traduções. E, claro, as dificuldades com que se confronta o tradutor – por exemplo, será possível traduzir uma obra se não se conhece a cultura do país em que foi escrita?
Traduções de versos, onde se continuam a discutir problemas postos no texto anterior, concretizando-os, aplicando-os ao campo da Poesia. Quais os critérios a utilizar, qual o método científico a seguir? E conclui com uma questão pertinente: “(…) se o poeta que traduz é levado a ver a mais [“do que lá está”], quando o espírito crítico o não detém, o não-poeta vê sempre menos e não há ciência crítica que o salve.”
Modernismo e modernismo. Texto datado (1962), que interroga as diversas acepções do conceito. Além de ter um valor histórico importante (como eram colocadas a s questões estéticas naquela época, com o marxismo em pano de fundo), mostra como os verdadeiros problemas da arte atravessam os tempos.
Forma, conteúdo e tradução. Texto de 1974, em que se verifica uma evolução em relação a textos anteriores, dos anos cinquenta. Evolução no sentido de um aprofundamento de ideias já expressas: “(…) a tradução tem por fito recriar noutra língua uma dicção que se realizou numa outra. Se quisermos simplificar: o binómio forma-conteúdo que aparecer nessa obra é constituído por um binómio equivalente na língua para que se traduz (…) Assim, a tradução é uma arte que requer uma substancial dose de ciência, não apenas de artifícios poéticos, mas de linguística e de cultura histórico-literária. Grande tradução será aquela em que não se desintegrou aquela unidade estrutural que no texto havia. Tal como grande crítica é a que, ao analisar e comentar um texto literário, não esquece todos os aspectos em que ele se realiza.” Melhor e mais simples ninguém podia dizer!

Através dos textos que citei (textos referidos pela ordem cronológica da sua escrita), pretendo apenas chamar a atenção para a riqueza desta obra de Jorge de Sena, expressão do seu pensamento e intervenção na cultura da época. Obra plena de inteligência de um dos escritores mais lúcidos, cultos e criativos das últimas gerações.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

CRÍTICO OU CURADOR?




Os critérios pelos quais a crítica analisa a obra literária têm mudado ao longo dos últimos anos. Segundo o escritor argentino Oliverio Coelho (em número recente da “Babélia”, suplemento cultural de “El País”), uma obra já não é valorizada por si própria. A qualidade literária, o estilo, a dinâmica interna do texto já não são as categorias principais para a sua apreciação – e consequente valorização. Procuram-se, sim, outros “marcadores” que garantam a sua modernidade. Modernidade que se poderá expressar tanto pela sua “linguagem mediática”, como pela utilização de textos híbridos. Se assim acontecer, a obra e o autor serão alcandorados a uma categoria altamente valorizada, a de “nova geração”.
Estamos, pois, perante um fenómeno de mediatização da obra literária, analisada segundo critérios que lhe são extrínsecos, ficando o crítico relegado para um papel de curador de obras literárias, em tudo semelhante ao do curador de obras de arte. E, como curador que é, tem como função “cuidar” da circulação pública da obra – e tudo o que é essencial ao texto ficará irremediavelmente oculto…

sábado, 9 de maio de 2009

A Sul da Fronteira, A Oeste do Sol


O que fica a sul da Fronteira? Em criança, Hajime não sabia, apenas a ouvir esta música de Nat King Cole, em casa da sua amiga Shimamoto, tinha uma sensação de grande prazer que lhe ficou marcado na memória para o resto da vida. Mais tarde Haijime, narrador da sua história, experimenta essa sensação de deserto na sua vida, pela ausência de Shimamoto, percebe o que fica a sul da fronteira, um deserto, um vazio. Uma espécie de "histeria siberiana" que acontece com os camponeses na Sibéria que de repente deixam tudo e caminham rumo a uma terra que fica a Oeste do Sol até morrerem de fome ou de sede.  Ele também vai secar por completo atrás de uma aparição. Uns bons anos depois das tardes a ouvir Nat King Cole, Hajime está casado com a filha dum empreiteiro que o ajudou a abrir os seus dois bares de Jazz, é agora um empresário individualista, que esqueceu quase por completo os anos de estudante idealista. No entanto algo o vai sugar por completo a sua vida, a sua alma, a aparição de Shimamoto trás a vivência desse grande amor, dessa paixão perdida. Hajime vive uma temporada de paixão e que termina com o desaparecimento dela, o leitor fica sem saber se Shimamoto existiu apenas na cabeça de Hajime. Este acontecimento vai provocar em hajime essa morte, ele fica sem vontade, sem desejo de nada, um homem sem expressão, sem vida. 
Novamente em Murakami, encontramos o homem sozinho na imensa cidade, numa história de amor improvável ou impossível. Quase autobiográfico, este romance está cheio de beleza e sensualidade. Mas o que me faz gostar mais da escrita de Murakami é este caminhar para um precipício onde a realidade se mistura com o sonho. 
"Sentado à mesa da cozinha, segui com os olhos a nuvem que flutuava sobre o cemitério. A nuvem não se tinha mexido um milímetro. Estava parada, come se estivesse pregada no céu. "São horas de acordar as minhas filhas", pensei. Já nasceu o dia, elas têm que se levantar. Elas precisam deste novo dia de uma maneira bem mais intensa do que eu. Devo aproximar-me do quarto delas, puxar as cobertas para trás, pousar a minha mão sobre os seus corpinhos quentes e suaves, e anunciar-lhes que começou um novo dia. Tenho de o fazer, quanto antes. Foi isso que pensei, mas por qualquer razão, não consegui levantar-me da cadeira onde estava sentado, à mesa da cozinha. Finquei os cotovelos na mesa e escondi o rosto nas mãos. 
No interior daquela escuridão, pensei na chuva que caía sobre o mar. chovia em segredo no vasto oceano, sem que ninguém soubesse disso. A chuva fustigava em silêncio a superfície das águas e nem sequer os peixes se tinham dado conta.
Até que alguém se aproximou de mim e pousou suavemente a mão sobre o meu ombro, os meus pensamentos pertenceram ao mar."

sábado, 2 de maio de 2009

AS PEQUENAS GRANDES HISTÓRIAS


Se todas as formas e todos os géneros literários têm dificuldades e características específicas, nenhum sobreleva em dificuldade o que acontece com as pequenas histórias. Histórias em que cada palavra, cada ritmo de frase, é aquele e só aquele. Histórias que têm um pé na oralidade e outro na escrita. Histórias que, para atingirem o que o autor pretende, têm de funcionar plenamente numa primeira leitura. Embora este género tenha tido cultores desde sempre, atingiu, na segunda metade do século XX, inícios do XXI (em parte, por influência da Internet), uma expressão nunca antes alcançada. De todas, ou de quase todas as partes, chegam-nos continuamente notícias de novos autores, de novas formas, de novos conteúdos.
Assim, e por exemplo, a argentina Ana Maria Shua publicou, este ano, uma obra, “Cazadores de letras” (Páginas de Espuma, Madrid), na qual se apresenta um panorama completo dos seus “microrrelatos” ou minificções”, que, espero, venha a ser publicado em Portugal.
Tudo isto vem a propósito da obra de Manuel Rogério Gonçalves, “Um Senhor com Poderes Estranhos e Diversas Virtudes – 100 Textos de 100 Palavras” (Editorial 100), que, em 2008, fez a sua estreia neste género literário. Obra extremamente interessante, a reflectir a cultura e a vivência do autor. Escrita numa linguagem elaborada, plena de subtileza e de humor (por vezes, de ironia), abrangendo situações e temas diversos. Embora um dos preceitos clássicos deste género se cumpra, ou seja, a acutilância de cada uma das histórias torna-se evidente logo numa primeira leitura, os diversos sentidos que elas encerram só surgem em leituras posteriores.
A variedade dos temas tratados e os diversos estilos de escrita utilizados talvez permitissem uma organização dos textos por grandes temáticas. Mas se o autor não o fez, não cumpre a mim fazê-lo… No entanto, não resisto à tentação de dar alguns exemplos que ilustram o que estou a dizer.
Assim, o texto “O que fazer de uma história exemplar?” é um exemplo da ironia com que o autor aborda muitos assuntos. Texto que começa por uma história que vai dar origem a outra:

“Naquela manhã em que os paroquianos se juntaram na igreja para rogar ao Altíssimo que lhes mandasse chuva, foram invectivados do púlpito: - Gente de pouca fé! Vêm pedir chuva e não trazem guarda-chuva.”

Depois desse começo, o autor continua:

“Algumas das histórias, aqui compiladas, não as inventei eu de todo. Ainda assim, para além de as formatar ao tamanho que me propus, esforços não poupo para torná-las minhas. Vou falar de uma senhora, ali ao lado, no jardim do Marquês, que nunca desiste de me oferecer panos de louça. Lembrar-me-ei de dizer-lhe o sítio, que eu conheço, onde irá vender guarda-chuvas num dia de verão”

Ou a história de um “impenitente solteirão” (“Quem tarda se guarda”), que, “para cortar nas despesas”, parte sozinho para viagem de núpcias.

“O impenitente solteirão, com os anos pesando, irá perguntar à senhora que lhe presta cuidados se ela o aceita por legítimo esposo. Tudo será da maneira mais simples, sem flores, sem música ou brindes. Ela irá de branco ou da cor que quiser. Ele mandará limpar a seco o fato de domingo. Ela irá pagar a promessa que fez de não morrer solteira. Ele assistirá a uma missa por alma dos Pais. Tão felizes vão, ela dizer que sim e ele também o que ficará nos papeis. E, depois, para cortar nas despesas, ele partirá, sozinho, em viagem de núpcias”.

Outras histórias expressam as reflexões do autor sobre a criação artística. É o caso do texto “Terminado definitivamente definitivamente inacabado”, com uma referência à criação divina:

Há um momento em que termina (definitivamente) o gesto do criador, quando o pintor põe de lado o pincel, o escritor pousa a caneta. O objecto terminado (finalmente) de criar, e que se dizia, até então, por acabar, vai tornar-se, definitivamente (para sempre) inacabado. Porque a obra criada, separada do seu criador, fica disponível para nova vida num diálogo incessante com quem apareça disposto a visitá-la. Toda a obra de arte, enquanto vai vivendo esse diálogo, lembra e vincula o criador. Como teria passado isso pela mente de um deus, a vinculação desse deus aos objectos da sua Criação?”

Quase a terminar o livro, Manuel Rogério Gonçalves dá-nos um texto (“De um jogo infantil, a Vida”), em que o Sonho e a Poesia (que subjazem a todos os escritos) são assumidos de forma clara e precisa:

“Talvez por outras palavras recitado, de um jogo infantil – Minha Mãe, dá licença? – Sim, minha filha: dois passos à frente. – Minha Mãe, dá licença? – Dou, minha filha: um passo para trás – aprendi que a Vida não é o trajecto linear, noutro tempo sonhado. Dor suportável pela certeza de que nunca serão vãos os passos em frente – a certeza mesma de nada deter um fio de água desde que da nascente se soltou. Embora com um coração estremecido de criança que gostaria de ganhar sempre e tem pena, aqui vou maravilhado de a Vida, mais e mais, se tornar um caudal imparável”.

Esta foi a “leitura” da obra que acabo de “reler”. Outros leitores terão certamente outras leituras. Mas sejam elas quais forem, algumas das histórias que integram o livro de Manuel Rogério Gonçalves não poderão deixar de fazer parte de uma antologia de autores portugueses que cultivam este género literário. Que seja para breve essa antologia!