terça-feira, 31 de março de 2009

Antígona no século XXI



Reler um texto clássico decorridos 35 anos dá-nos uma perspectiva, ainda que muito pessoal e limitada, do mistério da sua prevalência. Recordo-me também da alegada surpresa de Marx relativamente à capacidade que os textos de Sófocles, Shakespeare e outros têm de manter intacta a sua força dramática apesar de se terem dissipado os conflitos económicos e sociais em cujo contexto foram concebidos.

Para além do milagre da sua sobrevivência literária, Antígona de Sófocles é um texto misteriosamente contemporâneo. Para prová-lo sucedem-se edições, estudos e representações desta peça, provavelmente escrita em 442 a.C., e que nos relata como a pungente tragédia do parricida e incestuoso Édipo se estende à sua descendência.

A trama é bem conhecida:

Polinices e Etéocles, filhos varões de Édipo, morrem às portas de Tebas, um pela espada do outro. Polinices havia formado uma aliança com os guerreiros de Argos para derrubar a tirania do tio Creonte, irmão de Jocasta, mãe e esposa de Édipo. Em nome da defesa e coesão da polis, Creonte concede a Etéocles honras duma sepultura de estado, e ordena que Polinices permaneça insepulto, sem as devidas homenagens fúnebres.

Recai assim sobre a consciência das irmãs de Polinices, Antígona e Ismênia, o dilema de acatar a lei imposta por Creonte ou seguir a lei divina, não escrita, de que as mulheres da família (e não só, como se verá) honrem os seus mortos. Antígona escolhe seguir a lei divina e convida Ismênia a secundá-la no cumprimento dos rituais fúnebres. Ismênia, temendo a reacção de Creonte, tenta dissuadir a irmã e não toma parte na desobediência.

Sem temer as consequências, Antígona cobre o cadáver de Polinices com uma fina camada de poeira. A notícia de que o decreto de Creonte fora violado não tarda a espalhar-se e Antígona é descoberta. De modo a evitar um derramamento de sangue que poluiria a polis, Antígona é condenada a ser emparedada viva. Entrementes, o obstinado Creonte é advertido pelo vidente cego Tirésias que por atentar contra as leis divinas, a ira dos deuses recairá sobre a sua própria descendência. Ciente da decisão de Hêmon, filho de Creonte e noivo de Antígona, de morrer com a sua amada por não conseguir demover o pai e salvar Antígona, o velho Tirésias acaba por convencer Creonte da inevitável maldição dos deuses. Creonte decide então sepultar Polinices e dirige-se à gruta onde Antígona fora aprisionada para libertá-la. Mas ao chegar ali ouve um grito de dor e descobre Hêmon junto ao corpo de Antígona que se havia enforcado com o próprio cinto. Hêmon responsabiliza Creonte pela morte da amada e desfere-lhe um golpe de espada. Creonte esquiva-se do golpe, mas de seguida Hêmon crava a espada contra si mesmo. Creonte desolado toma o filho nos braços e leva-o para seu palácio. Mas, a notícia do triste desenlace é mais rápida, de modo que ao chegar, encontra Eurídice sua esposa, já sem vida, vítima também de um golpe de auto-mutilação. A rainha morre culpando o marido pela morte do filho. Ao rei amaldiçoado cabe a infelicidade de sobreviver à tragédia e viver sob o signo do desejo da própria morte.

Como nos faz saber a Professora Maria Helena da Rocha Pereira através das notas explicativas que acompanham o texto da edição da Fundação Calouste Gulbenkian, não há consenso entre os estudiosos relativamente ao verdadeiro tema da tragédia: Conflito entre o amor ideal da família, praticado por Antígona, e a lei do estado incarnada por Creonte, conforme Hegel?; Embate de vontades, de acto contra acto, ou de princípios civilizacionais distintos, segundo outros estudiosos?; Conflito entre a moralidade privada contra a do estado?; Defesa da fundamental liberdade e autonomia da vontade individual na sua relação com a polis?

Penso que estas interpretações são todas correctas, pelo menos segundo a hierarquia de valores de suas premissas. Contudo, esta hierarquia não é necessariamente a mesma da dos tempos de Sófocles, e suponho que nunca será possível sabermos ao certo qual o grau de proximidade entre valores éticos em períodos históricos distintos. Mas a universalidade da temática e a intemporalidade do conflito não nos deixa indiferentes. A leitura de Antígona comove-me hoje como me comoveu há 35 anos. Certamente, não pelas mesmas razões, o que me faz pensar que as diversas interpretações da tragédia sejam todas complementares.

Tal como muitos estudiosos, julgo que para além das figuras, uma parte essencial da trama é desempenhada pelo Coro. Vacilante e ambíguo na sua posição, o Coro apoia inicialmente o decreto de Creonte, mas muda de opinião depois da admoestação de Tirésias. Esta oscilação parece-me ser a chave, pois está implícita na muito explícita e bela “Ode ao Homem” que se inicia da seguinte forma:

“Muitos prodígios há; porém nenhum maior do que o homem.”

Uma inequívoca afirmação da superioridade do ser humano, e que prossegue com a enumeração de vários marcos de progresso, a agricultura, a domesticação dos animais etc, culminando com a ciência de viver em sociedade e com a do uso da palavra não corrompida, na sua forma mais pura: a da arte política. Mas parece-me haver nas entrelinhas desta homenagem à polis, uma mensagem. A ideia de que a polis transcende o poder político e que só é verdadeiramente superior ao incorporar a compaixão e a humanidade de forma integral. Só assim se compreende as razões pelas quais as leis da polis não podem estar acima das leis da compaixão e das leis não escritas. Só assim a polis é o maior dos prodígios.

Mas quanto ao drama das figuras, Sófocles parece não deixar dúvidas: recai sobre os que sobrevivem o maior sofrimento.

Orfeu B.


domingo, 29 de março de 2009

UM AUTOR NA ENCRUZILHADA DO CONTO E DO ROMANCE





As relações entre contos e romances, entre contistas e romancistas já têm sido por mim abordadas em várias ocasiões: contistas que nunca foram romancistas, embora o desejassem, romances que tiveram um conto na sua origem. Mas não é vulgar o que aconteceu com Paolo Giordano, jovem escritor italiano. Giordano escreveu um romance, “A Solidão dos Números Primos” (Bertrand Editora), a partir de dois contos. Dois contos com que se inicia a obra, dois contos autónomos, que o autor, posteriormente (pelo menos, assim o diz), desenvolveu, entrelaçando factos e personagens, a fim de dar conteúdo a uma trama romanesca. Não creio que o resultado tenha sido brilhante. Se aqueles dois contos são magníficos, o romance a que deram origem já o não é. Dois contos construídos a partir da solidão e da violência psicológica sofridas por duas crianças. Dois contos que não podemos desligar da grande literatura italiana do século XX (Italo Calvino e Dino Buzzati nela incluídos). Dois contos em que a criança, confinada à sua solidão, tem de tomar decisões cujas consequências põem em risco a sua vida ou a de outros. Consequências que são a razão de ser do romance de Giordano.
Eis, pois, um exemplo das relações difíceis entre o conto e o romance. E, claro, da sedução que o romance exerce sobre muitos contistas. Nem todos tiveram a lucidez ou a força de Jorge Luís Borges, que sempre se assumiu como contista e nada mais do que contista.
Pela reflexão que pode originar, pela excelência daqueles dois contos (“O Anjo da Neve” e “O Princípio de Arquimedes”), pela raridade de traduções de obras da moderna literatura italiana, estou em crer que a leitura de “Solidão dos Números Primos” é algo que se impõe a quem quer conhecer novos autores, outras literaturas.

sábado, 21 de março de 2009

"DAISY MILLER", na Patine do Tempo




A editora Veja publicou uma obra de Henry James, intitulada “Daisy Miller”. Nela, incluem-se quatro contos longos, o último dos quais, “Daisy Miller”, dá título à obra. Publicado pela primeira vez numa revista inglesa, em 1878, este conto guarda o mesmo encanto que maravilhou várias gerações dos seus leitores. O mesmo ou outro, ainda maior, que a poeira dourada do tempo põe em tudo o que é belo.
“Daisy Miller” é um texto “avant la lettre”, que os editores americanos da época não quiseram publicar, receosos do escândalo que poderia provocar. A liberdade, a ingenuidade, a simplicidade, a ousadia, a inocência de Daisy não se adequavam aos padrões da burguesia endinheirada da costa leste. Jovem de grande beleza, Daisy atravessa os círculos em que se movem os americanos residentes em Roma, sem se preocupar com as conveniências, as normas sociais que os regem. Enfim, uma americana na Roma conservadora de finais do século XIX, a passear a sua liberdade, a deslumbrar-se com os aspectos mais evidentes e superficiais de uma sociedade e de uma cultura, de que tudo desconhece, tão diferente (e até oposta) ela é da sociedade americana. Poder-se-á dizer que, com este texto, Henry James inaugura uma nova temática, que vai ter o seu apogeu na primeira metade do século XX: a do romance que dramatiza a vivência dos norte-americanos na Europa.
“Daisy Miller” é um texto de escrita contida, eivado de um erotismo difuso e, acima de tudo, um tratado de caracterização psicológica de personagens (personagens de outra época, mas tão profunda e subtilmente caracterizadas que são de todas as épocas). Caracterização dinâmica e evolutiva, feita em situações de interacção social, distinta da caracterização estática do romantismo, em que a personagem é definida (e existe) por si própria, independentemente da sua esfera relacional – o que confere a Henry James uma modernidade evidente.
Daisy, a figura central da obra, personifica a mulher que abre caminho para os tempos modernos, em libertação de tabus de séculos anteriores. Mulher-símbolo das mulheres das primeiras décadas do século XX, que têm como expoente maior Isadora Duncan, outra americana sequiosa de autenticidade e de liberdade, que galvanizou e escandalizou a Europa com a sua vida e a sua dança. Também por isso, podemos considerar James como um precursor do ser e do estar de um tempo que ainda não era o seu.

quarta-feira, 18 de março de 2009

ELOGIO DA AMABILIDADE



As histórias de Sepúlveda viajam pelas zonas da pobreza, da vida nos recantos mais carentes do mundo, da miséria mais negra, da luta contra ditaduras inomináveis, da tortura e da violência mais crua. Mas nunca se despe do sonho, do humor, do sentido de solidariedade e camaradagem. Acabo de ler cada livro seu e sinto-me em paz com a nossa tão precária condição humana.

Na escrita de Sepúlveda há sempre uma imensa amabilidade perante o Homem, os seus sonhos e as suas utopias. E o curioso é que tenho reconhecido essa mesma amabilidade como marca de vários escritores, poetas e prosadores, do Chile. A começar em Neruda e Gabriela Mistral (ambos Prémios Nobel) a continuar em Skarmeta (autor de "O carteiro de Pablo Neruda"), em Hernán Rivera Letellier (de quem a Quetzal publicou há anos dois deliciosos romances, "A rainha Isabel não cantava rancheras" e «Miragem de amor com banda de música") nalgus livros de Isabel Allende e nalguns outros escritores chilenos que tenho lido.

Desses só em Bolaño, tão cantado recentemente, não senti essa doçura talvez nostalgica que se espalha nos livros de tantos outros seus compatriotas.

Sobre Bolaño, escritor que me atrai e me incomoda (e de quem já li "Estrela distante" e "Nocturno chileno"), hei-de tentar escrever um dia destes mas só depois de ler "Os detectives Selvagens".

E volto a Sepúlveda e a estes seus contos para dizer que acabei de os ler com a mesma sensação de amabilidade na escrita redonda e no olhar sobre os homens e sobre o mundo.

Cruzam-se neste livro memórias reais, memórias ficcionadas e puras ficções. Pequenos textos que nos levam de Hamburgo à Patagónia com passagem pela Amazónia

Um sentimento caloroso perdura de página para página. Os exílios sucedem-se por geografias diversas num certo elogio da amizade viril e cúmplice em torno da mesa e do vinho.

Acima de tudo há uma palavra que sobressai destas histórias e que me toca, a palavra “camarada”. Soa bem. Soa a verdade. Soa a uma rede de gente que às vezes nem se conhece mas anda pelo mundo espalhando uma forma solidária e livre de viver.

Estas histórias nem sempre atingem o brilhantismo dos melhores livros do autor, nomemeadamente desse romance extraordinário que é "O velho que lia romances de amor". Aliás, num dos contos Sepúlveda desenterra as personagens desse romance. Não s eaproxima da força do romance original. “Um corpo não se repete na aurora…” diz mais ou menos assim o Lorca e talvez seja verdade.

Com uma ou outra fragilidade o livro sabe bem ler. E isso é a primeira grande qualidade que exigimos a um livro. É uma sopa quente, esta prosa de Sepúlveda. E, voltando ao início, o autor nunca deixa de ser amável mesmo quando trata dos lados mais negros da vida. E eu, como leitor, gosto de ser bem tratado porque "um homem precisa de ter sempre um pé na Primavera." como escrevia num poema o Fernando Assis Pacheco.

domingo, 15 de março de 2009

"O PRIORADO DO CIFRÃO" de JOÃO AGUIAR



Eu gosto de tudo o que os meus amigos escrevem. Excepto quando não gosto. Mas nesses casos só lho digo a eles.

O João Aguiar é um muito querido amigo com quem já partilhei várias aventuras da escrita desde a “Rua Sésamo” até àqueles 3 romances malucos que fizemos a 14 mãos com a Alice Vieira, o José Jorge Letria, a Luísa Beltrão, o Mário Zambujal e a Rosa Lobato Faria ("Os Novos Mistérios de Sintra", "O C´ódigo d' Avintes" e o "Eça Agora")

Sempre gostei da escrita e dos livros do João. Jornalista da velha guarda, ele sempre soube contar uma história como mandam as regras. Sem adornos, sem tremeliques, sem lágrimas fáceis ou emoções de pechisbeque. Sempre com ideias, consistência narrativa, literatura.

Sobretudo, sempre gostei da coragem do João em trazer a sua literatura para a praça da cidadania (de onde ela provavelmente não devia sair tão frequentemente).

O João não se despe das suas convicções, não vira as costas às grandes questões que nos preocupam a todos e atira-as descaradamente para o campo do romance. Bate-se pela língua portuguesa e pelo seu uso sem estrangeirismos. E não só pela língua, como pelos vinhos, pelos queijos, pela História, pela Pátria com letra grande.

Trabalhando particularmente bem os temas históricos, o João deu-nos alguns romances notáveis. “A voz dos deuses”, sobre a figura de Viriato, e que tem tido um tremendo e prolongado sucesso (vai perto da 30ª edição!), “A hora de Sertório” e “Uma deusa na bruma” que me entusiasmou imenso na abordagem excepcional que fez da luta entre a civilização castreja e a invasão do Império Romano.

Atacou em força o romance histórico numa altura em que não estava na moda. Foi um pioneiro dess corrente hoje fértil nos bons e maus exemplos que enchem hoje as nossas livrarias e de onde destaco dois belos escritores que são o Miguel real e o Sérgio Luís de Carvalho

A simplicidade de meios na escrita é a imagem de marca do João Aguiar. E simplicidade não quer dizer facilidade, como é óbvio.

O seu ultimo livro, o “Priorado”, vem embrulhado numa divertida trama policial e é uma feroz denúncia do neo-liberalismo e do consequente abandalhamento da sociedade portuguesa.

É de chorar o retrato certeiro dos tiques economistas dos nossos gestores e das suas estratégias oblíquas. Já para não falar nos americanos que vêm instalar toda a trama do Priorado (dos Priorados. Aqui é que é zurzir forte e feio. O João não os poupa, expondo tiques, trejeitos e vícios. Já para não falar dos interesses da Igreja que se cruzam e descruzam ao longo da trama. ´

O Priorado foi escrito antes desta crise que resultou do estoiro das estratégias neo-liberais em que estamos mergulhados e ainda não sabemos aonde nos vai levar. De alguma forma, anunciou-o. A brincar. E essa é uma das muitas funções da literatura, não é?

sábado, 14 de março de 2009

O LIVREIRO DE LISBOA, O ESCRITOR AMERICANO E OS SONHOS DE INVERNO



A viver e a trabalhar no mundo dos livros há mais de cinquenta anos, o senhor André, da Livraria Lácio, antiga 111, no Campo Grande, é um dos últimos verdadeiros livreiros de Lisboa. Alguém que conhece os livros, os autores, as edições. Sem um catálogo à sua frente, informa-nos do que se publicou ao longo do século XX. Sem catálogo, sem computador (aparato que nunca entrou, e, creio, nunca entrará na sua livraria), ele sabe onde se encontram os "seus" e os livros dos "outros", quem os escreveu, quem os editou. Às vezes, não chega imediatamente ao que se pretende, mas não desiste: "Deixe-me ver, esse livro teve uma primeira edição logo a seguir à Guerra, aí por finais dos anos quarenta..." E enquanto investiga na prateleira, vai-nos contando coisas do autor, coisas da época em que o livro foi escrito, uma história sobre o editor que o publicou. E quando pensamos que ele se tinha esquecido do nosso pedido, ei-lo com o livro na mão. Ou com a informação: "Tive-o cá durante muito tempo, mas vendi-o na semana passada. Vou ver se tenho outro exemplar no armazém, mas não me parece." E quando sabe que o comprador é alguém nosso conhecido, ele sugere: "Conhece Fulano, não conhece? Por que é que não lho pede emprestado?"
Não sei se devolve os livros aos distribuidores, pois vejo os seus fundos editoriais em permanente expansão. Mas a sua livraria não vive só dos livros que vão saindo, também se alimenta dos livros usados, que ele adquire e reabilita com o carinho de um verdadeiro bibliófilo. Um dia ,perguntei-lhe quantos livros teria na sua livraria, pergunta a que ele não soube responder. E como eu insistisse e aventasse um número (quarenta mil, não?), ele hesitou: "Aqui na livraria, não, mas com os do armazém..." Foi a primeira vez em que não me conseguiu dar uma informação precisa sobre livros.
Na sua livraria, não se utilizavam, até há muito pouco tempo, cartões bancários. Quando se comprava, pagava-se em dinheiro ou passava-se um cheque. Mas quando não se dispunha nem de uma coisa nem de outra, ainda poderia haver uma solução: ficava-se a dever, pois existia (e, penso que ainda existe) um livrinho de assentos dos fiados, pelo menos para os clientes mais fiéis.
Como ele conhece os meus gostos literários, reserva-me os livros de contos que vai adquirindo nas bibliotecas que arremata: "Veja se lhe interessam estes livros que me chegaram. Não creio que já lhos tenha vendido." E, como sempre, ele está certo. E foi assim que comprei alguns livrinhos de contos de autores americanos, publicados, nos anos cinquenta, sessenta, por editores portugueses. Entre eles, os "Sonhos de Inverno", de Scott Fitzgerald, editado pela Portugália, em 1965. E fiquei maravilhado. Eu já conhecia outros contos do autor, além dos romances clássicos, "O Grande Gatsby", "Terna é a Noite", mas nunca tinha lido aqueles continhos. O título da obra - "Sonhos de Inverno" - é o título do primeiro conto, mas podia aplicar-se a qualquer um dos cinco textos que a constituem. As histórias são diferentes, envolvendo personagens, locais e situações diversas, mas, em todas elas, a mulher tem um papel central. E, em quase todas, ela tem um estatuto de superioridade - moral, social, psicológica - em relação ao homem, que se limita a gravitar na sua órbita, em dependência do amor que ela lhe possa conceder. Em quase todas, pois em "Um Caso de Alcoolismo", a enfermeira que assiste ao doente famoso e tudo faz para lhe poder valer, depara-se com uma barreira que a sua solicitude não consegue transpor. É uma história forte, em termos temáticos, mas, a meu ver, a menos conseguida sob o ponto de vista da construção literária. Talvez porque se opera, nela, uma inversão de papéis, pois a mulher desempenha, aqui, o papel que, nas outras histórias, compete ao homem, o que fragiliza a caracterização das personagens e compromete a dramaticidade da acção.
"Sonhos de Inverno", os sonhos que se constroem no Inverno de todas as esperanças e que nos confortam com o calor da afectividade que permanece para além das contrariedades, da frustração da sua não concretização. E é exactamente essa capacidade de sonho para além da frustração que torna Scott Fitzerald um dos grandes construtores de personagens e situações da literatura americana. Por vezes, considera-se Fitzerald como um dos precursores do existencialismo em literatura. Admitamos que sim, mas apenas na medida em que resistir é existir.
Ora, também o meu ilustre amigo e livreiro, o senhor André, é um sonhador, sonhador descontente, decepcionado pelo que se passa no mundo da cultura em que vivemos. Mas que não desiste: continua a viver, sete dias por semana entre os seus livros, continua a promover os livros, continua a estar atento aos interesses dos seus amigos-clientes, continua a partilhar do prazer que os "seus" livros dão àqueles que os lêem: "Ah, sim... gostou dos "Sonhos de Inverno"? Fico muito contente!" E aquele que continua a sonhar no Inverno do seu descontentamento é alguém que continuará a existir, para além de todas as vicissitudes, de todas as contrariedades do viver quotidiano.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Secreções, excreções e desatinos – O Corcunda e a Vénus de Botticelli


Rubem Fonseca é dos escritores que eu gosto, que cultivo. Com este livro a minha admiração pelo escritor aumenta e alguns preconceitos em relação a ele reduzem-se. Nesta conjunto de contos redescobri uma outra faceta de Rubem Fonseca, a de escritor que respeita profundamente as mulheres, respeita-as e ama-as ao contrário que julguei noutros livros que li do autor, revendo tudo acredito que me enganei. 
São histórias invulgares que falam essencialmente de relações amorosas, de impossibilidades e possibilidades dessas relações. As secreções e as excreções são apenas alguns dos constrangimentos dessas relações.
O Corcunda e a Vénus de Botticelli é um dos contos que podem fazer parte do tipo de histórias e ensaios já aqui apresentados noutros livros, de outros autores, lembro-me do “Como falar dos livros que não lemos”, “O último leitor”, “A louca da Casa” ou talvez “Firmin” (estou a ler). São histórias que nos fazem visitar outras história, outros livros. Que nos ajudam a sair do livro que estamos a ler (a tragédia do leitor é conseguir ler, depois, outros livros). O corcunda desta história procura, com sucesso, seduzir as mulheres. É um acto de sobrevivência, ele conquista as mulheres mais bonitas. Neste caso Agnes, uma mulher a quem ele chama de Vénus. Utiliza a literatura como ferramenta, nesta mulher a poesia. A ler esta história visitamos os poetas, mas também visitamos uma reflexão sobre poesia, assim sem pretensões e outra secreções. 
Fica aqui um pouco:
“ Estamos neste jogo há muitos dias.
Lemos um poema sobre um sujeito que pergunta se ousará comer um pêssego.
Comer pêssegos?
Faço o jogo que ela quer:
Digamos que seja sobre a velhice.
E velhos não têm coragem de comer pêssegos?
Creio que é porque os velhos usam dentadura.
Pensei que poemas sempre falassem de coisas belas ou transcendentais.
A poesia cria a transcendência.
Odeio quando você de exibe.
Não estou me exibindo. As próteses não são apenas a coisa que representam. Mas umas são mais significativas do que outras. Implantes de pénis mais do que dentaduras.
Pernas mecânicas mais que unhas postiças?
Marca-passos cardíacosnmais do que artefactos auditivos.
Seios de silicone mais do que perucas?
Isso. Mas sempre transcendendo a coisa e o sujeito, algo fora dele.
Esse implante é muito usado? O do...
Do pénis? Coloca-se na posição de um homem que faz esse implante. Veja a singeleza poética desse metafísico gesto de revolta contra o veneno do tempo, contra a solidão, a anedonia, a tristeza.
...”

quinta-feira, 5 de março de 2009

OS CONTOS, FINALMENTE!

De vários quadrantes, chega-nos notícia do ressurgimento de um género literário que esteve em declínio durante as últimas décadas do século XX, ou seja, o conto. Ressurgimento que se tem feito sentir tanto em Espanha como em França. E, por arrastamento, em Portugal, como se comprova pelas traduções que vários editores vêm publicando. De referir será, ainda, o aparecimento de novos contistas portugueses, nomeadamente em 2008. De tal situação, tenho dado testemunho em algumas crónicas deste blogue.
A que se deve a ressurreição do conto? O que leva as casas editoras a integrar livros de contos nos seus catálogos? Algum cansaço dos leitores dos romances “peso-pesados”, de 500/600 páginas? A constatação de que o conto (pela sua pouca extensão, concisão, intensidade e dinamismo da acção) corresponde ao ritmo da vida actual? É possível que estas sejam algumas das razões, estas e algumas mais.
A “Babélia”, suplemento cultural de “El País”, traz, num dos seus últimos números, um dossiê sobre o tema, em que sobressaem alguns artigos, nos quais se analisa o que se está a passar em países de língua espanhola. Note-se que os países de língua espanhola da América do Sul e Central sempre deram primazia ao conto, à novela curta. Países em que os contitas alcançaram a fama que só aos romancistas era concedida noutros países, incluindo a própria Espanha (veja-se o caso de Borges, Cortázar, Onetti).
Além das razões apontadas para o florescimento do conto, algumas mais são referidas no dossiê da “Babélia”. A internet e a blogosfera, pela sua natureza, são veículos privilegiados para a sua difusão. Por outro lado, as pequenas editoras, de meios financeiros limitados e necessidade de encontrarem novos nichos de mercado, têm contribuído para o aparecimento de novos contistas ou para a reedição de obras clássicas, caídas no domínio público. Esta tendência é acompanhada por uma orientação livreira, que concede espaços para livros de contos ou que privilegia este género literário – o caso mais evidente é a livraria “Três Rosas Amarillas” (nome que é uma homenagem ao conto de Carver, que narra o último dia de vida de Chekov), em Madrid, exclusivamente dedicada aos contos.
As características do conto actual exprimem, mais do que o romance, muito do que é o homem do século XXI. É isso que nos diz o escritor espanhol Juan Eduardo Zuniga: “A precisão, a intensidade e o vertiginoso, que caracterizam o conto de hoje, adequam-se ao leitor apressado, até porque a história narrada é imediata. Talvez esta rapidez do conto reflicta hoje o fraccionamento e a rotura de âmbito psicológico do homem actual”. Interessante será ainda referir que muitos contos são escritos num ritmo frenético, que é o ritmo da nossa vida. Contos escritos num arrebatamento que se apodera do seu autor e que não o deixa fazer mais nada enquanto não termina o seu escrito. Contos a que Cortázar, que conhecia bem este estado de exaltação criadora, chama “contos contra-relogio”. Contra-relógio como a nossa vida quotidiana…

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

FIRMIN



Saiu em português editado pela Planeta.

Já aqui tinha dado nota do prazer que me dera lê-lo em castelhano. A Planeta tomou conhecimento desse comentário e teve a gentileza de me enviar o livro em português. Chapeau! Gracias. Muito obrigado. Pela edição e pela oferta.

Começa assim:

"Sempre imaginei que a história da minha vida, se e quando a escrevesse, teria uma primeira frase grandiosa; uma coisa grandiosa como "Lolita, luz da minha vida, fogo da minha virilidade", de Nabokov; ou, caso eu não tivesse queda para o lírico, entâo uma coisa epopeica como "Todas as famílias felizes são iguais, mas as famílias infelizes são cada uma à sua maneira", de Tolstoi. São palavras que as pessoas não esquecem, mesmo que já não se lembrem do resto dos livros. No que diz respeito a primeiras frases, porém, a melhor, na minha opinião, é sem dúvida a que inicia "O Bom selvagem" de Ford Madox Ford: "Esta é a história mais triste que alguma vez ouvi." Já a li dezenas de vezes e continua a deixar-me de rastos. Ford Madox Ford era dos grandes."

É notável a história da vida e morte deste rato contada pelo próprio. No fundo é a história de cada um de nós mesmo que nem todos tenhamos para contar a história mais triste que alguma vez tenhamos ouvido.

A não perder. Um prazer raro e requintado.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

HENNING MANKELL




Desde muito jovem que tornei os livros policiais em companheiros imprescindíveis. Com maior ou menor voracidade, ao sabor do tempo, pelo puro e simples prazer da leitura, volta e meia, lá vêm os policiais.

Li a colecção Vampiro toda. Nas fases furiosas chegava a limpar um livro por dia ou até talvez mais. A Colecção Xis. As obras de Sherlock Holmes. Os romances de Maigret. Os romances negros americanos desde Chandler até Mickey Spilane ou Russ McDonald. O nosso Denis MacShade. E as terríveis escritoras de mistério anglo saxónicas: Agatha Christie, Dorothy L. Sawiers, Ruth Rendell...

Mais tarde apaixonei-me pelo Pepe Carvalho de Montalban e pelo Montalbano de Camilleri, o Mário Conde de Leonardo Padura. Recentemente partilhei com a minha filha Sara o entuiasmo pelo vitoriano inspector Monk de Anne Perry.

Regresso vezes sem conta aos livros de Simenon, de todos o meu mais querido escritor de policiais porque aquele onde está mais presente a humanidade com as suas discretas grandezas e as inesperadas perversidades, com os seus cheiros e os seus vícios, as suas angústias, os seus dias de chuva e de sol, as suas noites de bruma e inquietação, os seus medos, o seu desejo de amor e de consolo.

Maigret, Sam Spade, Poirot, Pepe Carvalho, Monk, Montalbano, Miss Marple, tantos que me têm sido tão próximos.

Não vou discutir se se trata de um género menor ou não. De géneros maiores e menores se faz o caminho por vezes sinuoso de um leitor. Jorge Luís Borges dava um grande relevo à literatura policial. Eu tenho-a como um porto de abrigo a que recorro frequentemente e sempre com satisfação.

Li na Babélia do El País largas referências a um escritor do género. O sueco Henning Mankell. Um sucesso em vários países. Mais me chamou a atenção ao saber que dedica uma parte suignificativa da sua vida a trabalhos de solidariedade e que vive desde 1985 em Maputo onde fundou o grupo de teatro "Teatro Avenida".

Descobri que havia vários livros dele traduzidos em Portugal pela Presença e que tem entre nós alguns leitores indefectíveis.

E pronto. Marcharam três livros de seguida. "Assassino sem rosto", "Os cães de Riga" e "A leoa branca".

Como qualquer bom escritor do género, lê-se de um fôlego. Mankell é um bom oficial deste género literário. O seu detective, Kurt Wallander, vve numa pequena cidade do Sul da Suécia e é um homem solitário que se interroga sobre o futuro do seu país, a gestão política da coisa pública, a forma de tratar dos velhos, os filhos, o amor ou as razões do racismo (que é um dos temas fortes do autor). As suas investigações dão-nos a conhecer um país que nos é distante, as relações diárias entre as pessoas as suas dificuldades, os seus hábitos, a relação com os terríveis invernos...

Uma boa viagem, daquelas que os livros nos proporcionam.Uma viagem que nos faz descentrar-nos, perceber os outros nas suas às vezes estranhas peculiaridades, respirarmos outros cheiros, ourtras distâncias, outras preocupações, outras angústias e alegrias.

Dos três livros, aquele que mais prazer me deu foi "A leoa branca". Uma trama que envolve uma tentativa de assassinato de Nelson Mandela na África do Sul preparada na Suécia por um antigo oficial do KGB em colaboração com a extrema-direita branca sul-africana.

A narrativa balança entre a Suécia e a África do Sul estabelecendo duas linhas narrativas que se cruzam e se potenciam a um ritmo forte e envolvente.

Para os amantes de policiais é obrigatório.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Duzentos ladrões



Duzentos ladrões é, salvo engano, a mais recente coletânea de contos do escritor curitibano Dalton Trevisan. Sempre fiel ao gênero, e frequentemente repetindo a experiência dos "micro" contos dos 111 AiS de 2001, Trevisan procura neste livro a essência das situações através de mínimos recursos literários. O ordinário, o patológico, a violência doméstica, as desiluções e suas consequências e o submundo são os elementos fundamentais desta experiência literária que poderia ser encarada como um ensaio sobre a maldade humana, ou sobre a humanidade sob condições de grande precariedade material e psicológica. 

Em muitos dos breves contos, o autor personifica os seus personagens em discurso directo. Personagens rústicos que se exprimem por meio de um sociolecto minimalista, sem regras gramaticais ou concordâncias, mas que é sem sombra de dúvida a "vox populi" do Brasil contemporâneo. 

Mas para quem na adolescência leu com avidez coletâneas como a Guerra Conjugal e o Vampiro de Curitiba, entre outras tantas, e viu por meio destas o retrato sem retoques duma realidade incômoda e perturbadora, fica uma pergunta fundamental, ainda que a reflexão pareça despropositada. Procura o autor a depuração de um estilo ou trata-se do declínio das suas capacidades narrativas? Muito provavelmente, é impossível sabê-lo ao certo, pois um escritor é necessariamente uma "antena" do seu tempo, um arauto do real e do possível, principalmente quando a realidade não é agradável à vista e ao coração. 

Com certeza, a ironia tão típica de Trevisan, continua intacta nesta coletânea. Exemplo disto é o curtíssimo conto: 

No velório 

No velório, a viúva:
- O que separou a gente foi a morte.
- Coragem, Maria.
Um longo suspiro
_ A vida dele acabou ...
- ...
- ... e a minha hoje começa!


E também permanece a ubiquidade do escritor, que perspicaz não admite que nada lhe escape à sua mirada, ao seu olhar analítico, pois basta-nos recordar uma breve passagem de O Vampiro de Curitibapara entender a premissa fundamental da obra de Trevisan:

"O que não me contam, eu escuto atrás das portas. O que não sei, adivinho e, com sorte, você adivinha sempre o que, cedo ou tarde, acaba acontecendo."


Orfeu B.


domingo, 22 de fevereiro de 2009

"QUEM SÃO AS PESSOAS QUE ESTÃO À MINHA VOLTA?"




V.S. Naipaul, escritor de língua inglesa, nascido na ilha da Trindade e prémio Nobel da Literatura em 2001, concedeu uma entrevista ao "Magazine Littéraire", na qual fala das temáticas dos seus livros, das circunstâncias em que foram escritos, da sua postura ética perante a literatura e a vida. O que ele diz permite-nos ter uma visão do seu mundo interior, do conjunto da sua obra, de alguns princípios em que assenta a sua escrita. De entre as afirmações que fez, destacarei quatro ou cinco, pelo que revelam do escritor, do seu modo de trabalhar: "Viajo sempre com um casaco e dois cadernos de notas: um à direita, outro à esquerda. Quando encontro alguém, anoto cuidadosamente tudo o que ele diz, e dou-lhe a possibilidade de reflectir, lentamente [...] É incrível o que se pode anotar à mão durante uma hora! Depois, junto os testemunhos no círculo narrativo! Impossível trabalhar de outro modo!"E a entrevista continua, com o entrevistador a citar uma frase de Naipaul: "A moral é a estrutura. Eu não tenho senão uma imensa curiosidade, a de conhecer as pessoas, e um imenso desejo de exploração." Mas o que é para ele a "moral"? E Naipaul esclarece: "Um escritor desmunido de um sentido moral na sua obra não tem, para mim, o mínimo interesse. Evelyn Waugh, por exemplo: qual é a sua ambição moral? Nenhuma. E se não há ambição moral, só resta o oportunismo social..." O sentido moral não implicará, no entanto, uma tomada de posição política, ideológica ou religiosa? Não necessariamente, para Naipaul: "Não sou um ideólogo, nem sou religioso, marxista ou antimarxista. Sou uma pessoa aberta e devo-o às minhas origens: que sentido teria ser de esquerda ou de direita, na Trindade?O entrevistador, já perto do final, faz-lhe uma pergunta-chave: "Ir ao encontro do mundo exterior é, para si, ir ao encontro de si próprio. Mas este não é o paradoxo central da sua obra?" A resposta veio imediata e directa: "Sim. Hoje eu respondo com um trabalho incessante à pergunta que eu punha a mim próprio, em menino, na Trindade: quem são as pessoas que estão à minha volta? Que mundo é este que me rodeia? Porque razão estes Africanos e estes Chineses estão aqui na Trindade, quais sombras de si próprios? Sem uma explicação, os homens não são mais do que fantasmas. É difícil para vós, Franceses, conscientes do passado, imaginar que eu cresci sem a mínima noção de história colectiva, individual ou familiar." E é exactamente por isso, que V.S. Naipaul, enquanto jornalista de grandes jornais ocidentais, mergulha nas culturas indiana e africana - à procura das raízes, da explicação histórica que lhe falta (como pode o Homem sobreviver fora da História?). Dessa busca, resultam alguns dos seus melhores livros, nos quais se expressa o que o Homem tem de essencial, para além das fronteiras impostas pela raça, ideologia ou religião. Se há autor contemporâneo que soube caracterizar o Homem e os seus valores, ele é, sem dúvida, "Sir" Vidia Naipaul, inglês por opção, escritor do Universal por vocação.
Nota:
Obras de V.S. Naipaul publicadas em Portugal, pela D. Quixote:
• A Curva do Rio (2001)
• Uma Casa para Mr. Biswas (2001)
• Uma Vida Pela Metade (2002)
• Miguel Street (2003)
• Para Além da Crença (2004)
• Num País Livre (2005)
• Sementes Mágicas (2008)

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

“JOKOB VON UNDEN”



Um livro e uma escrita fascinantes e que me levantaram e continuam a levantar muitíssimas questões.

O livro começa assim:

“Aprende-se muito pouco aqui, há falta de professores, e nós, rapazes do Instituto Benjamenta, nunca seremos ninguém, por outras palavras, nas nossas vidas futuras seremos apenas coisas pequenas e subalternas.”

Logo esta abertura nos agarra e, no entanto, o Instituto Benjamenta, escola mínima, disciplinadora e aparentemente bafienta, constituirá apenas um cenário de fundo para as reflexões de Jakob Von Gunten.

Walser leva-nos a percorrer uma narrativa quase sem nada para narrar. Apenas alguns episódios pouco importantes. O fundamental é o carrossel dos pensamentos de Jakob. Um delicioso e contraditório filosofar em terra de ninguém, um habitar apenas o delírio da linguagem, um vaivém entre o fantástico devaneio e a súbita consciência do talvez inútil empolamento desse devaneio.

Carregado de uma ironia muito germânica, Jakob passeia longamente nos seus pensamentos entre natureza e cultura. Uma velha contradição, aparente ou real, em torno da ideia de que existir como um ser da natureza não exige mais nenhum desejo senão o gozo da própria existência. Mas esta simples afirmação já se inscreve no campo dos actos de cultura. E é neste campo quase puro que se movimenta Jakob Von Guten, ou melhor, o seu autor Robert Walser.

Jakob existe, obedece e não quer ser nada, não quer ver além de… E no, entanto, não faz outra coisa que não seja deixar-nos pistas mais ou menos obscuras e labirínticas para esse desdobramento da língua e da sua festa de sentidos.

Ao ler Walser vieram-me muitas vezes à memória os poemas de Fernando Pessoa e, sobretudo, os do “Guardador de Rebanhos” de Alberto Caeiro, na sua recusa da transcendência simbólica das linguagens.

Há, aliás, um espírito de época atravessa Walser. O seu processo de escrita, o desenho do personagem central e a forma como ele olha o mundo exterior a si e como se olha a si próprio, tem óbvios paralelos com Kafka, Jaroslav Hasek e possivelmente com Musil, embora talvez não conhecessem as obras uns dos outros.

(Acabei por ler algures que Kafka conheceu e apreciou algumas das obras de Walser).

sábado, 14 de fevereiro de 2009

UMA CARTA DE CESÁRIO VERDE






O meu caríssimo amigo Francisco Montanha Rebelo enviou-me por mail esta carta original de Cesário Verde com o generoso objectivo de a disponibilizar para publicação no nosso blog.

Dizia-me ele:

"Junto imagens da carta do Cesário Verde que lhe mostrei há dias.
Esta é dirigida a João de Sousa Araújo, agradecendo a sua carta e uns versos que o mesmo lhe enviara, dedicados a sua irmã ( do Sousa Araújo), falecida, e que fora noiva de Cesário.
O que é estranho nesta carta é Cesário escrever, na 2ª página "agora mesmo que estamos em Abril...", datando depois, no fim da missiva: "3 /Março/ 73" !!!!!

Finalmente, o envelope tem o carimbo dos correios de "Lisboa, 16/1/73", e no reverso, "Coimbra, ?/1/1873"

Um grande abraço e muito obrigado

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

"ULISSES" DE JAMES JOYCE, UMA OBRA INTRADUZÍVEL?





O texto que se segue escrevi-o há quatro anos, mas penso que guarda actualidade e algum interesse:

“Agora, que passam cem anos sobre o Bloomsday, ou seja, o dia 16 de Junho de 1904, o dia que James Joyce escolheu para descrever, na sua obra “Ulisses”, o périplo de Bloom através da cidade de Dublin, agora, dizia eu, os jornais e as revistas da especialidade não se cansam de publicar artigos, ensaios, sobre o assunto. Uns, de boa qualidade, outros, nem por isso. Entre os primeiros, situa-se o trabalho de J. J. Saer, saído na “Babélia”, o suplemento literário de “El País”. Diz-nos Saer que, em 1967, assistiu a uma conversa, num café de Santa Fé (Argentina), em que estava presente Jorge Luís Borges. Falava-se das traduções de “Ulisses” em castelhano e da mais conhecida entre elas, a de Salas Subirat. E Jorge Luís Borges informou que, nos inícios dos anos quarenta, fez parte de um grupo de “anglicistas” de Buenos Aires, que se propunha levar a cabo a primeira tradução de “Ulisses”, em língua espanhola. Reuniam-se uma vez por semana para assentarem critérios e anteciparem dificuldades. Quando já tinha decorrido perto de um ano – e eles sempre na fase da discussão prévia... – um dos do grupo, que se tinha atrasado, entrou de rompante no local onde se encontravam, brandindo um grosso volume. E anunciou: “Acaba de sair a tradução do “Ulisses”!” Borges, à guisa de comentário, acrescentou: “E era muito má!” Um dos jovens que, agora, em 1967, assistia a esta fala do mestre, comentou: “Pode ser, mas se assim é, o senhor Salas Subirat é o maior escritor de língua espanhola!”
Saer continua o seu artigo com um conjunto de informações e reflexões sobre as traduções de “Ulisses”, algumas de cunho erudito, como a do académico e anglicista Valverde. E formula uma opinião muito curiosa: a de que a tradução de Salas Subirat tem virtualidades que nenhuma das outras apresenta – Subirat era um cidadão de Buenos Aires, autodidacta e homem dos sete ofícios. Trabalhou como agente de seguros, o que o levou ao calcorreio da cidade e à confraternização com as suas gentes. Escreveu várias obras, uma sobre a teoria e a prática dos seguros, outras de aconselhamento e ajuda aos seus concidadãos. Em suma, uma personagem identificável, em muito, com Bloom, o herói de “Ulisses”. E seria essa vivência que ele teria trazido para a sua tradução. Saer pergunta, ainda: não será esta a melhor garantia de uma boa tradução – a que é feita por alguém que capta o espírito da obra e o verte para uma língua diferente? Talvez. Mas talvez melhor seria se essa vivência pudesse ser servida pelo rigor científico do especialista...
Estas reflexões levaram-me a pensar nas duas traduções do “Ulisses” publicadas em Portugal: a de Houaiss (na Difel) e a de Palma-Ferreira (nos Livros do Brasil). E, neste caso, a minha preferência é idêntica à de Saer, pois vai para Palma-Ferreira, homem de cultura, sem dúvida, mas, de modo algum, um especialista de nomeada na linguística, “como é o caso de Houaiss, autor do mais celebrado dicionário de língua portuguesa”.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Carta ao Escritor*


Escritor amigo
O teu livro chegou a este lugar longe, onde vivo, a este deserto, as tuas palavras, em viagem, aguentaram ventos fortes, chuva abundante, intempéries.
Aqui, elas deixaram uma ronco no meu ouvido, deixaram um incomodo e um conforto.
Revelaste-me uma verdade nessa tua simples história, a verdade necessária para me salvar desta fome, desta sede.
Por aqui, secretamente, os políticos e os funcionários fecham bibliotecas, enchem de livros vazios as livrarias, entretêm as pessoas com outras coisas para elas não sentirem a fome e não procurarem esse alimento.
Sei que também tu tiveste que subir a uma montanha alta gelada para não te impedirem de escrever, porque são grandes as desvontades.
Tiveste que te pôr nu dentro de ti, porque só assim pude fazer dessa tua narrativa a minha realidade.
Agradeço-te desde já esse esforço, tentarei fazer por ti alguma coisa, porque estou eternamente agradecido pelo o que me deste, e não foi só um livro, foi uma vontade em sobreviver, uma fórmula secreta de me salvar, uma antídoto para um certo veneno que anda no ar.
Ainda mais te agradeço pelo momento que me deste de prazer, pois as tuas palavras fizeram eco dentro de mim, e ao lê-las estremeci.

Assinado
O Leitor



* A propósito do livro de David Toscana "O Último Leitor"

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Livros do Desassossego

“Quantos sou? Quem é eu? O que é este intervalo que há entre mim e mim?”
“Do que sou numa hora na hora seguinte me separo; do que fui num dia no dia seguinte me esqueci.”
Composto por Bernardo Soares,
ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa.

Experiências radicais levadas a cabo por Cortázar e, Calvino entre outros, nas décadas de 1960 e 1970, procuraram romper com o dogma fundamental da prosa literária, a linearidade narrativa. Experiências semelhantes já tinham sido testadas pelos surrealistas. Mas a novidade introduzida por Cortázar e Calvino foi a infiltração de elementos aleatórios, através dos quais era dada ao leitor a possibilidade de encontrar nas distintas ordenações dos textos apresentados a narrativa que lhe mais aprouvesse. A unicidade do texto deu lugar à multiplicidade de hipóteses construtivas. À imaginação de cada leitor era dada a oportunidade de participar no processo criativo. Era-lhe facultada a hipótese de inúmeras revisitações à matrix dos textos básicos que podiam então ser justapostos de formas distintas dando origem aos mais variados livros.
Esta perspectiva leva-nos a especular que só a ruptura da linearidade narrativa poderia mitigar o desassossego que a ordenação dos textos que compoem o Livro do Desassossego (L. do D.) tem causado nos especialistas.
Pela sua natureza confessional e de registo de impressões, sensações vividas e sobretudo sonhadas, o L. do D. não permite qualquer ordenação definitiva. O próprio Pessoa, referindo-se a esta obra em cartas a Casais Monteiro, Sá-Carneiro e outros, sugeria que a ordenação dos textos era um dos aspectos mais problemáticos na preparação do livro.
Na sua primeira edição em 1982 a organização dos textos foi elaborada por Jacinto do Prado Coelho, que muito elegantemente alerta para a subjectividade da ordenação proposta, deixando claro que a sua era uma das leituras possíveis do L. do D. Mas o próprio chega a referir uma possível apresentação desordenada dos fragmentos, embora esta, na sua opinião, só seria acessível a um número restrito de leitores. Rejeitando a ordenação cronológica, dado que uma grande parte dos fragmentos não se encontravam datados ou não eram datáveis, propôs uma ordenação por “zonas de relativa homogeneidade” temática. A mais recente edição do L. do D., organizada por Richard Zenith parece seguir a mesma lógica, com especial zelo contudo, na origem dos fragmentos a incluir e a excluir.
Assim, as edições disponíveis do L. do D. não são só apresentações de mais um mistério Pessoano, desta feita sob a forma do semi-heterónimo Bernardo Soares, mas também um repto aos especialistas para que proponham leituras alternativas.
Longe de pretender apresentar qualquer sugestão fundamentada ou minimamente douta sobre a matéria, parece-me lógico que a hipótese da “desordenação” dos fragmentos deveria ser por todos os leitores experimentada. Suponho que o leitor encontraria na sua ordenação dos fragmentos o desassossego que mais lhe inquieta, o seu desassossego. Possivelmente, depois desta leitura personalizada, o enigma ser-lhe-ia menos assombroso, dado que das mútliplas leituras dos fragmentos do L. do D. surge precisamante o que o livro mais reclama, a unidade do seu autor.
Creio que a leitura “caótica” do L. do D. permite um melhor entendimento da profunda humanidade do ajudante de guarda-livros que passa as noites a escrever no seu modesto quarto, e a do seu colega Moreira, e a do patrão Vasques, e a de outros personagens, que embora anóminos, podem ser identificados no quotidiano de todos nós.
Naturalmente, a sugestão proposta, vale apenas enquanto experiência subjectiva que me permitiu melhor compreender que não é só o Sr. Soares que sente a expansão da alma ao aprender com Caeiro: “Porque eu sou do tamanho do que vejo/E não do tamanho da minha altura.” Quem não se sente pasmado com a descoberta de ser do tamanho do que se vê? Creio que uma uma leitura personalizada do L. do D. é uma dilatação do pensamento que nos coloca diante da “existência de classificáveis incógnitos, coisas da alma e da consciência que estão nos interstícicos do conhecimento”, a matéria prima dos sonhos, as “maravilhas fluidas da imaginação”.
Orfeu B.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

DAVID MACHADO, FUTURO GRANDE ESCRITOR?




David Machado é um jovem autor que acaba de publicar um livro de contos, “Histórias Possíveis” (Editorial Presença), com o qual ganhou o Prémio Branquinho da Fonseca, em 2005. São 16 pequenas histórias, quase todas de 5/6 páginas, justa medida para a sua inspiração. Estão neste caso “Zanga de Padres” e “O Gladiador”, duas histórias com um fino sentido de humor, uma a situar-se no plano do mágico, outra no absurdo de situações do nosso quotidiano.
Histórias bem contadas (sempre na perspectiva de um observador – directo ou indirecto), numa escrita inteligente e imaginativa, por vezes a denotar uma excessiva facilidade, mas sem cair no lugar comum ou na banalidade. Uma linguagem atravessada por um fio de ironia, centrada numa adjectivação imprevista, a recentrar o sentido da frase e a revelar o gozo que o autor terá experimentado ao urdir a trama em que envolve as personagens.
E uma pergunta a impor-se: o que significa escrever assim quando se tem vinte e tal anos? Que estamos perante um escritor de grande futuro? Um grande contista ou um grande romancista? Difícil, senão impossível, uma resposta precisa. Mas uma coisa é certa: que estamos perante alguém que tem uma relação estreita e pessoal com a expressão escrita, uma escrita plena de virtualidades.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

AINDA AS TRADUÇÕES E OS TRADUTORES




Um livro de Roberto Bolaño, escritor chileno falecido em 2003, com 50 anos, foi considerado por “The New York Times Book Review” como um dos melhores livros de 2008. Esta glória póstuma de um escritor de língua espanhola deve-se à tradução do seu livro “2666” para inglês dos E.U.A. O que surpreendeu os conhecedores da obra de Bolaño, escritor de méritos, sem dúvida, mas de influência reduzida nas literaturas hispânicas.
O primeiro número de 2009 da “Babélia”, suplemento cultural de “El País”, dá conta do sucedido e aponta a razão de tal. Ou seja, o texto em língua inglesa “adquire outra vida, outra função”, que não tinha em castelhano. É um outro texto e um outro escritor, em sintonia com um outro público para quem a força de uma escrita “vitalista” ganha uma ressonância muito particular.
Mas não sei se este sucesso da obra se deve somente ao facto de ser traduzido para uma língua de outra cultura, pois é bem possível que se deva, também, à qualidade do tradutor. Sempre considerei que os tradutores são decisivos para o prestígio dos autores em países em que não se fala a sua língua. Só partindo deste princípio é que se poderá compreender a atribuição do Prémio Nobel a escritores de países cujo idioma é desconhecido do doutíssimo júri da Academia Sueca. Assim, estou em crer que é uma tremendíssima injustiça não se explicitar que o dito prémio foi atribuído não a um, mas a dois escritores: ao autor da obra e ao seu tradutor!
Entre nós, há exemplos de sobra da importância dos tradutores. Desde as traduções de autores norte-americanos por José Rodrigues Miguéis e Jorge de Sena, até às traduções dos clássicos russos por Nina Guerra e Filipe Guerra. Para não falar das traduções do francês por Pedro Tamen, do alemão por João Barrento ou do espanhol por José Bento. Graças a eles, tivemos acesso, em primeira mão, ao que de melhor se tem escrito noutras línguas. A excelência das suas traduções deveria ser merecedora da atribuição de prémios literários, tão ou mais prestigiosos quão os que habitualmente contemplam os “autores”.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Instruções para salvar o mundo

Para mim todos os livros (que valem a pena ler) são “instruções para salvar o mundo”, ou antes “instruções para me salvar a mim, no mundo”. Porque, como já alguém disse, fazem-nos resolver problemas da nossa relação com este universo que, por vezes, é demasiado cruel. Por isso, à partida, este titulo do livro da Rosa Montero parece redundante. Mas não é! Apenas é uma caixa de surpresas, um antídoto para toda a malvadez, uma espécie de “conto de Natal” como afirmou o El Mundo (escrito nas abas do livro).

Alem das passagens maravilhosas que a Rosa Montero nos habituou nos seus livros, também temos um livro mais coordenado com a nossa condição de “seres suburbanos” nesta “aldeia global”. Suburbanos porque, mesmo que queiramos estar “in”, estamos sempre na margem, fora deste centro da existência que, cada vez mais, é unicamente virtual. Ninguém vive nesta cidade, apenas desejam viver. 

A história de quatro personagens (ou talvez mais) em queda acentuada num precipício e que vão acabar por se cruzar por circunstancias variadas. As personagens (um taxista viúvo, um médico desleixado, uma prostituta, uma ex-professora universitária) são uma espécie de mortos vivos, que rejeitam viver neste mundo, fogem para uma “second life”, para uma recordação ou simplesmente procuram um local vazio de anestesia completa porque a vida dói. As suas acções, algumas não intencionais, permitem uma espécie de inter-ajuda. Todas elas tem um momento breve de bondade, uma capacidade de nobreza quase raro nesta malha urbana atestada de corpos que se movem de um lado para outro sem saírem do SEU lugar. 





Contos completos de Truman Capote


Truman Capote é um autor indelevelmente ligado a uma só obra, “A sangue frio”, narrativa não ficcional em torno do selvático homicídio de uma família de uma família no Kansas rural. Com esta obra, Truman Capote converteu-se em estrela americana tendo na altura apoarecido em tudo o que era “talk shows”. Começou também a cair nas boas graças da “high society” boémia. Anuncia a publicação de um novo romance, “Súplicas atendidas” que nunca viria a completar (está publicado em Português o que resultou desse esforço sempre adiado). Este romance examinaria impiedosamente a vida dos amricanos ricos. Os seus amigos ricos vão abandonando-o e Truman Capote entra num túnel de drogas e álcool. Poderíamos pensar que a isto se resume a carreira do autor. Mas temos tido ao longo dos anos a edição em português de textos que revelam outras facetas deste autor, como por exemplo “A harpa de ervas”. Não me recordo precisamente se é neste livro que escreve uma crónica deliciosa sobre a sua experiência de acompanhar uma companhia de dança americana à Rússia. E agora chegam-nos os “Contos completos” pela Sextante Editora”, e vemos todo o grande escritor de textos curtos que foi Truman Capote. Apesar de longo, este é daqueles livros que nos deixa com uma sensação de pena no final de que não hajam mais contos. Este li vro revela-nos também a versatilidade de temas abordados. Há dois contos, por exemplo, autobiográficos, relativos à sua infância. A mãe casou com um homem bastante mais velho e ao fim de um ano separam-se. Truman Capote é entregue a parentes que vivem numa quinta do Alabama. A sua infância está marcada pela amizade funda com uma senhora idosa de alama de criança que sempre o acompanha nas suas brincadeiras. Num outro conto, é relatada uma viagem da criança Truman Capote até New Orleans para ver o pai. Várias coisas o apavoravam: a ideia de deixar a sua amiga, o ter de viajar sozinho e, sobretudo, reencontrar-se com um homem praticamente desconhecido. Mas a promessa completamente irrealista da sua amiga de que iria ver neve em New Orleans convence-o, embora com tristeza, a partir. Para aquilatarmos da versatilidade do autor, atentemos por exemplo no conto “A lenda de Preacher”, onde um velho negro perdeu há um ano a sua mulher. Este personagem folheia atentamente a bíblia embora não saiba ler e está profundamente influenciado pelos sermões do pastor local. Todos os dias, Preacher faz um percurso até um rio para ver se acontece algum milagre. Um dia avista dois indívídos (caçadores). Preacher corre para a sua pobre casa e tenta arranjá-la o melhor possível. Entretanto os caçadores vão atrás dele com a intenção de lhe pedir de beber. Quando eles chegam a sua casa, Preacher pensa que um dos caçadores é Jesus Cristo e, o outro, um santo. Este desencontro é delicioso.
Se tivéssemos que dar estrelas como os críticos de cinema (desde “a evitar” até 5 estrelas) eu diria: “a não perder”

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

DAPHNE DU MAURIER, UMA CONTISTA ACTUAL?




Daphne du Maurier, escritora inglesa, que viveu de 1907 a 1989, ficou célebre não só pelos contos como também pelos romances que escreveu. De entre estes últimos, destacarei a sua “Rebeca” (1938), amplamente divulgada entre nós, em parte devido ao filme a que deu origem.
Este relembrar da autora decorre da publicação recente, pela Relógio d’Água, de um livro seu, “Contos”. Contos vários, publicados entre 1971 e 2006 (o conto de 2006 é um conto antigo, só agora descoberto).
Na colectânea a que me refiro, avultam os dois textos, “Não Olhes Agora” e “Caso Limite”, publicados quando a autora tinha mais de 60 anos. São dois textos muito bem urdidos, de uma contenção exemplar, o que permite um crescendo de forte progressão da acção, envolta em mistério e inquietação, que conferem ritmo e “suspense” à narrativa e dão sentido ao desfecho final – quase imprevisto, quase lógico.
Histórias que se inserem na boa tradição inglesa das histórias de mistério e de uma certa alucinação, em que se pretende envolver o leitor, fornecendo-lhe e, simultaneamente, ocultando-lhe pistas indiciadoras do desenrolar da acção. Acção que tem algo de romance de aventuras, em que o insólito e o burlesco constituem elementos estruturantes da narrativa.
Convirá ainda referir que esta colectânea inclui três outros contos, sendo um deles o famoso “Pássaros”, que serviu de inspiração a Hitchcock, para realizar o filme do mesmo nome.
Para terminar, um voto: que estas linhas despertem o interesse pela obra, tão esquecida, de Daphne du Maurier e levem à leitura dos seus escritos, ainda tão jovens, tão frescos.

sábado, 17 de janeiro de 2009

ENTRE A REALIDADE E A FICÇÃO



Verdade e ficção de mãos dadas. O livro é a história da vida e morte de S. que todos sabemos tratar-se de Snu Abecassis, o grande amor de Sá Carneiro que, aliás, morreu com ele no terrível desastre de Camarate. No entanto, S. não é Snu. Miguel não pretendeu fazer uma reportagem. Pretendeu, isso sim, dar um retrato breve do Portugal dos anos 60, atraés de uma estrangeira que aqui desembarca por amor, que se desilude e que encontra o fogo do amor maior.

É belíssima a técnica de Miguel Real que consegue com rara elegância fazer um exercício difícil: pegar a história de Snu Abecassis, manter uma narração próxima da verdade apenas nos minutos que antecedem a queda do avião com Sá Carneiro, e desenhar uma poderosa figura feminina ancorada na realidade mas desenhada na ficção, uma nórdica, educada para ser emancipada e o seu choque com o Portugal salazarista e a riquíssima família judia do marido.

A magnífica escrita barroca e excessiva de Miguel Real aparece aqui um pouco vigiada já que que o tempo histórico talvez fosse dado a um tom menor. E também porque o balanço entre realidade e ficção requereria um cuidado grande para que a narrativa surja credível (com algo de reportagem televisiva, quase) sem deixar de fazer um belo mergulho na alma humana nomeadamente na forma elegante e incisiva como trata a sensualidade de S.

Um momento tocou-me especialmente: o embarque dos soldados para África, narrativa certeira e pungente, retrato duro de um país atrasado e grosseiro e metido entre baias como gado para o matadouro.

No geral, o trabalho do Miguel Real é particularmwente louvável, escapando muito bem às duas grandes armadilhas previsíveis de um projecto como este e que eram, uma, a de se agarrar demasiado á verdade, outra, de se afastar completamente, criando uma ficção que apenas se sustentaria no nome de Snu apenas por critérios comerciais.

A MORTALIDADE DOS IMORTAIS




Falava-se da mortalidade dos imortais e citava-se um artigo surgido no “Ipsilon”, suplemento de artes, letras e outras coisas mais de “O Público”, no qual se profetizava que, daqui a 200 anos, ninguém se lembrará do “Memorial do Convento” de Saramago. Eu não concordei, não pelas razões que os meus jovens interlocutores supunham, mas por considerar que 200 anos era uma eternidade. E recordei-lhes um dos casos mais impressionantes que conheço: o caso de Gabriel D’Annunzio, escritor italiano de finais do século XIX, primeiras décadas de XX. D’Annunzio, o escritor-ídolo da geração da minha mãe, que desencadeou paixões e provocou escândalo pela ousadia inconveniente da sua escrita. O D’Annunzio de “O Fogo”, êxito estrondoso em toda a Europa Ocidental. O fogo do lirismo pós-romântico, que incendiou a sensualidade recalcada de uma geração – um fogo há muito extinto. E não foram precisos 200 anos, 20 magros anos após a sua morte (ocorrida em 1938) foram mais do que suficientes.
Se voltarmos às letras portuguesas, alguém será capaz de prever o que ficará do que agora se publica, se lê, se valoriza? Um dos interlocutores do grupo em que me encontrava afirmou: “Que o Pessoa fica, disso não tenho dúvidas!” Na verdade, nem isso me parece tão seguro. Algum Pessoa ficará, sem dúvida, mas outro… Não lhe disse, mas, claro, estava a pensar na “Mensagem”, obra muito marcada pelas circunstâncias em que foi escrita. E recordei, recordei àqueles jovens amigos com quem dialogava, o que corria quando eu comecei a interessar-me pela coisa literária, ainda nos anos quarenta. Três nomes eram considerados incontornáveis na história da nossa poesia: Camões, Bocage e Antero de Quental. Antero, logo seguido por Gerra Junqueiro. Quem, hoje em dia, poderá colocar nesse pedestal o Antero ou o Junqueiro?
Muitos são os factores que fazem catapultar para a ribalta determinados nomes, em detrimento de outros (por vezes, por razões que não são facilmente explicáveis). E menos explicáveis serão, ainda, as que levam ao seu esquecimento. O que é igualmente verdade para os casos de reconhecimento posterior daqueles que não tiveram essa oportunidade em vida. Em parte, foi o que aconteceu com Mário de Sá-Carneiro: considerado, durante muito tempo, como um poeta “excêntrico”, perdido numa busca insana de inovação, Sá-Carneiro acabou por ser colocado em lugar cimeiro, na nossa poesia do século XX. Talvez porque tenha “adivinhado” algo de essencial à nossa modernidade (ou talvez porque a sua ligação com Fernando Pessoa tenha originado uma espécie de efeito carambola).
Outros há que continuam no mais profundo dos esquecimentos em que mergulharam logo após o seu desaparecimento. Entre eles, avulta, no caso da prosa, Joaquim Paço D’Arcos, romancista menor, admitamos, mas contista excepcional, da estirpe de um Sommerset Maugham. Nem a publicação integral dos seus contos e novelas, pelas Publicações Europa-América, parece tê-lo retirado do limbo em que caiu.
Mas ainda há os que (Cesário Verde e Camilo Pessanha, por exemplo), após terem sido redescobertos, voltaram a sumir-se – até quando? Como estivessem sujeitos a uma lei “natural” de ciclos que se vão sucedendo (e repetindo).
Moral da história: todos os imortais são mortais, pelo menos enquanto a asa da ressurreição não os resgatar da noite da não-existência.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Rebeldes

Depois de ler fascinado As velas ardem até o fim, A herança de Eszter, e sobretudo o magnífico, A mulher certa, não fiquei indiferente a este novo título em português de Sándor Márai, autor húngaro, tão brilhante quanto enigmático.

A conturbada passagem da adolescência para a vida adulta de um grupo de jovens é o tema forte deste inquietante livro. Se por um lado a temática é claramente universal, o contexto onde a trama se desenrola é particularmente relevante na peremptória recusa destes jovens em aceitar a transição para o mundo dos adultos. De facto, mesmo que o auto-intitulado "bando" de jovens viva numa pequena cidade, algo isolada da Primeira Guerra Mundial que se desenvolve não muito longe dali, a decorrente destruição humana, material e de valores, assim como a esperada decomposição do Império Austro-Húngaro, sempre acaba por afecta-los. A ausência da autoridade paterna e circunstâncias familiares algo particulares deixam estes jovens completamente livres para desenvolverer uma actividade incongruente e liquidar o património das suas famílias. Esta bizarria é naturalmente menor quando comparada com a monstruosidade de uma guerra que ceifa milhões de vidas, mas Sándor Márai não é um autor que apresenta dicotomias fáceis e, claramente, não pretende enaltecer o romantismo dos ideais da juventude, pois o "bando" é inevitavelmente um microcosmo do mundo circundante. Há no seu seio contradições, hipocrisias e uma estrutura de classes, ainda que esta seja negada nas suas práticas quotidianas. E é finalmente esta estrutura de classes que leva à dissolução do "bando": um membro do grupo, pertencente à classe humilde, acaba por enredar os seus companheiros, e em particular o líder do grupo, numa trama de sedução envolvendo um actor de província. Porém, esta é, nas suas palavras, uma traição natural, dado que a si estava vetado poder desfrutar a vida como os ricos, ainda que isto nada tivesse a ver com a riqueza. Na verdade, este é um tema recorrente na obra de Sándor Márai, dado ter ficado profundamente marcado com a experiência, na Hungria do pós Segunda Guerra Mundial, da intolerante destruição, pelo comunismo de inspiração estalinista, do património cultural universal que estava sob a custódia da antiga classe dominante.

Mas se esses são elementos mais que suficientes para um grande livro, Sándor Márai não nos deixa de também maravilhar com reflexões de membros do "bando" sobre o acto de escrever e sobre a amizade. Termino com dois exemplos que considero magníficos:
"Começara a ler há dois anos. Lia, desordenadamente, tudo que lhe caía nas mãos. Um dia, escreveu qualquer coisa. Tinha quinze anos. Ao ver o que tinha escrito, assustou-se e escondeu o papel na gaveta. No dia seguinte, tirou-o e leu. Não era poesia, mas também não lhe parecia prosa. Assustou-se e rasgou-o. Este susto persistiu durante alguns dias. Ao tempo, ainda vivia "no mundo de cá". Não conseguiu falar com ninguém. O que era aquilo? Porque escrevera? O que significa alguém pegar numa caneta e pôr-se a escrever? E encontrar-se diante de algumas linhas limpas e acabadas. Porque o fizera? Assim escreviam também os escritores?"

E um pouco mais adiante:
"Havia um qualquer segredo por detrás dos livros, não era tanto o que diziam, antes a razão de alguém ter escrita aquelas linhas. Sobre isso, não tinha com quem falar. De vez em quando, tentava com Ernó, mas Ernó falava sempre de outra coisa. Falava do "conteúdo" dos livros. Ele sabia que isso tinha uma importância secundária. Teria que descobrir por que motivo se faziam livros. Seriam fonte de alegria para quem escrevia o que pensava? Ele sentia serem, antes, uma fonte de sofrimento. O que se escrevia, perdia-se, nada mais tinha de comum com a pessoa, trasformava-a numa recordação penosa, semelhante à de um crime, em virtude do qual - um dia, mais tarde - se poderia ser sempre responsabilizado."

E sobre a amizade:
"Alguém sorri, irresponsável, uma vez, e atolamo-nos logo nessa amizade. Ele não sabe que amizade é essa. Imaginara amigos de outro modo; por amigos entendia um passeio leve e sereno, uma simpatia sem compromisso, que não obrigasse a mais nada. Caminha-se lado a lado, trocam-se umas ideias... E agora, pela primeira vez, pensava que poderia existir entre as pessoas um gancho pesado e impossível de soltar, passível de ser rompido somente à custa de graves ferimentos."

E pouco depois:
"Quem sabe se estarei vivo e poderei, um dia, escrever alguma coisa. Escrever também é doloroso, mas não dói tanto como viver entre pessoas."

Orfeu B.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

O NOSSO LUGAR



"O que leio e ensino guia-se por três critérios somente : o fulgor estético, a força intelectual e a sabedoria. As pressões sociais e as modas jornalísticas podem obscurecer estes critérios durante algum tempo, mas as obras conjunturais nunca perduram. O espírito regressa sempre às suas exigências de beleza, de verdade e inteligência. A mortalidade paira, e todos nós aprendemos o triunfo do tempo. Temos um intervalo, e depoiso nosso lugar deixa de nos conhecer."


Harold Bloom, "Onde está a sabedoria?"

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

ERA NO TEMPO DO REI




Uma graça. Muito divertido. Um entretenimento de muita qualidade. Na linha de um outro romance muito divertido, “Memórias de um sargento de milícias” de Manuel António de Almeida, do início do séc. XIX, a quem toma a figura do Sargento Leonardo para lhe contar a infância no Rio de Janeiro da Corte de D. João VI quando se torna companheiro de tropelias do Infante D. Pedro.

Romance pícaro, ligeiro mas bem trabalhado, quer na linguagem quer no retrato do mundo popular e marginal do Rio, quer no da Corte e se debatem as contradições entre D. João VI e a Rainha Carlota Joaquina.

É curiosa a visão que o autor dá de D. João VI, homem bondoso, mas homem de Estado com visão sobre o que vai pelo xadrez das relações internacionais da época, tão diferente daquele imagem bacoca, imbecilizada do monarca que tanto tempo predominou num certo imaginário popular.

Carlota Joaquina é uma desavergonhada, ambiciosa, capaz de meter toda a gente na cama e de conspirar com todos contra o marido (de que dá retrato de louco) no fito de vir a ser Regente de Espanha e Portugal.

D. Pedro é o valente herói brasileiro, brigão, atrevido e namoradeiro. Mas é mais do que isso. É o retrato de um príncipe carregado de nobreza e verticalidade, qualidades que nos fazem cada mais falta. A todos nós.

D. Miguel é um menino da mamã, um rapzito moralmente mal aviado, intelectualmente menor, sem a chispa nem a dignidade do irmão (meio-irmão sendo verdade que o seu pai seria o jardineiro do Ramalhão em Sintra). E parece que o retrato rima bem com ó papel que veio a desempenhar na nossa História.

O Rio de então anuncia o de hoje. Miséria e riqueza excessiva. Ouro e fome. Malandros, ladrões, piratas, no meio de uma natureza fabulosa. E envolvendo a cidade periodicamente essa respiração incrível que se chama Carnaval.

Foi o meu último romance do ano que assim acabou bem.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

AS AVÓS DO INCESTO QUASE POSSÍVEL




Doris Lessing, Prémio Nobel da Literatura em 2007, tem vários livros traduzidos em edições portuguesas. De entre eles, destacarei “As Avós e Outros Contos” (Editorial Presença). Por ser um bom livro, bem traduzido e… por ser um livro de contos! Na verdade, não sei se todos esses “contos” se poderão considerar contos, pois a sua extensão e, principalmente, a organização interna de alguns deles aproxima-os mais do género novelístico do que do contístico.
Embora tenha lido alguns trabalhos (tanto em português, como em francês) sobre a distinção entre esses dois géneros, nunca cheguei a uma conclusão muito precisa. Creio que é um “problema” que afecta intelectuais (e académicos) franceses e portugueses, e que nunca preocupou grandemente os seus congéneres de outros países. Por isso, acabei por optar por seguir uma norma muito simples: será conto o que o autor considerar como tal. Norma que não se pode aplicar a esta obra de Doris Lessing, visto a autora a ter apelidado “The Grandmothers”, simplesmente - o que me “obrigou” a reflectir sobre o assunto… A obra, de 274 páginas, é composta por quatro histórias, a última das quais, “Um Filho do Amor”, estende-se por 103 páginas. É uma história longa e complexa, envolvendo várias personagens e situações que ocorrem numa unidade temporal prolongada, com caracterizações várias e diferenciadas dos estados psicológicos dos intervenientes na acção. Por tudo isso, preferia considerá-la uma novela.
Mas, mais importante do que estas destrinças, é o conteúdo narrativo do texto, ou seja, a saga da personagem principal ao longo de dezenas de anos e a sua inserção em diferentes contextos geográficos, humanos e sociais. Uma história que parece dever algo a Somerset Maugham e à sua predilecção pelas vivências e pelos lugares exóticos do Império Britânico. Enfim, uma história notável, com um ritmo intenso, que se lê de um fôlego.
Diferente é a primeira história do livro, a que dá nome à obra: “As Avós”. Uma história deliciosa, que trata de um modo subtil um tema difícil: o incesto. Neste caso, o falso incesto (do ponto de vista biológico e legal), mas não menos incestuoso para as personagens que o vivenciam. A delicadeza das discrições, a finura das observações, a sensibilidade de que a linguagem está impregnada fazem deste texto uma referência obrigatória no estudo do conto (da novela?) da moderna literatura inglesa.
Albano Estrela